Leituras de Julho/2017

I. No começo de julho saiu uma entrevista muito boa com Luiz Bras no Dossiê Ficção Científica da Revista Com Ciência. O papo é sobre os estados, sabores e transformações da FC brasileira e sobre as descobertas e pesquisas científicas que tão mordendo o calcanhar da ficção contemporânea para devorar a realidade. Esse mês terminei de ler seu livro Distrito Federal, que ele comenta na entrevista:

Distrito Federal apresenta muitos enredos paralelos, mas o principal é a corrupção moral na política brasileira. É uma narrativa em que a alta tecnologia encontra o sobrenatural, reforçando a famosa premissa de Arthur C. Clarke: “qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia”. Os dois personagens centrais − um ciborgue possuído por um espírito maligno e uma inteligência artificial sofisticadíssima − desvelam ao leitor uma realidade social perversa, pós-humana, em que a luta de classes ocorre agora também no plano evolutivo.

Gostei muito da maneira como a linguagem utilizada na rapsódia soou como um instrumento de percussão eletrônica que foi hackeado–nas repetições, nas recorrências, nas referências cruzadas, no retorno autossemelhante. Mas não foi um livro que li rápido. Requer algumas intermissões. Deu vontade de ver esse texto adaptado (e expandido?) para algum mamute interativo multimídia ao estilo de Homestuck ou 17776. O volume com ilustrações e capa dura tá muito caprichado.

II. Quando comecei a ler Big Little Lies em maio, achei que terminaria o livro preferindo o seriado, que ainda brilhava fresco na minha cabeça–e me desorientou bonito porque assisti todos os episódios de uma vez só, da noite de um domingo até a manhã de uma segunda. O que aconteceu foi que me reapaixonei por cada um dos personagens e guardo as duas versões da história com carinho, em todas as suas diferenças. Meio como faço com The Hours.

Não tenho costume de marcar trechos em livros de ficção. Faço isso com os de não-ficção, que terminam entupidos de notas. Mas me senti compelido a marcar um único trecho de Big Little Lies, esse parágrafo do capítulo 35 que parece um poema:

It wasn’t beautiful people like Celeste who were drawing Jane’s eyes, but ordinary people and the beautiful ordinariness of their bodies. A tanned forearm with a tattoo of the sun reaching out across the counter at the service station. The back of an older man’s neck in a queue at the supermarket. Calf muscles and collarbones. It was the strangest thing. She was reminded of her father, who years ago had an operation on his sinuses that returned the sense of smell he hadn’t realized he’d lost. The simplest smells sent him into rhapsodies of delight. He kept sniffing Jane’s mother’s neck and saying dreamily, “I’d forgotten your mother’s smell! I didn’t know I’d forgotten it!”

III. Eu não sabia o que esperar de River of Teeth. Quando li na sinopse que a novela se passa no começo do século XX, num mundo alternativo em que os Estados Unidos importaram hipopótamos que seriam criados e abatidos para a venda de carne, e que as coisas deram errado e havia um pântano cheio de hipopótamos selvagens ferozes à solta, o dedo de comprar o ebook já tava tremendo. Eu esperava uma aventura e recebi essa aventura–tão boa quanto achei que seria. Também recebi um protagonista não-binário muito bem escrito e um romance inesperado de amolecer qualquer um. Tô impaciente para ler a continuação.

Livros de ficção

> The Book of Phoenix (Who Fears Death 0.1), de Nnedi Okorafor. Romance. 241 páginas. Publicado por Hodder & Stoughton. 2015. [Goodreads] [Amazon]
> River of Teeth (River of Teeth #1), de Sarah Gailey. Novela. 176 páginas. Publicado por Tor. 2017. [Goodreads] [Amazon]
> Distrito Federal, de Luiz Bras. Ilustrado por Teo Adorno. Rapsódia/Romance. 280 páginas. Publicado por Patuá. 2014. [Goodreads]
> Big Little Lies, de Liane Moriarty. Romance. 449 páginas. Publicado por Berkley. 2014. [Goodreads] [Amazon]

Livros de não-ficção

> Diante da dor dos outros, de Susan Sontag. Tradução de Rubens Figueiredo. Ensaios. 112 páginas. Publicado por Companhia das Letras. 2003. [Goodreads] [Amazon]
> Spirits of Place, de vários autores. Ensaios. 225 páginas. Publicado por Daily Grail Publishing. 2016. [Goodreads] [Amazon]

Ficção curta disponível online

> The Voice of The People, de Alison Moore. Publicado no Weird Fiction Review. 2017.
> These Deathless Bones, de Cassandra Khaw. Publicado no Tor. 2017.
> A Question of Faith, de Tonya Liburd. Publicado no Book Smugglers. 2017.
> The Martian Obelisk, de Linda Nagata. Publicado no Tor. 2017.

Leituras em andamento

Essa lista tava crescendo rápido demais com livros que eu não abro há meses. Então resolvi dar uma faxinada.

Não sei quando voltarei para as mil páginas de A New Kind of Science. Não toco em Molecular Red: Theory for the Anthropocene desde o começo do ano e preciso recomeçar do zero. O mesmo vale para Everything Change: An Anthology of Climate Fiction.

Ficaram:

Chaos: Making a New Science, de James Gleick. Livro de não-ficção. Publicado por Open Road Media, 2011. [Goodreads] [Amazon]
The Space of Literature, de Maurice Blanchot. Traduzido para o inglês por Ann Smock. Livro de ensaios. Publicado por University of Nebraska Press, 1989. [Goodreads] [Amazon]
Landmarks, de Robert Macfarlane. Livro de não-ficção. Publicado por Penguin, 2015. [Goodreads] [Amazon]
October: The Story of the Russian Revolution, de China Miéville. Livro de não-ficção. Publicado por Verso, 2017. [Goodreads] [Amazon]

E o romance que comecei alguns dias atrás e devo terminar até amanhã porque tá gostoso demais:

> Lagoon, de Nnedi Okorafor. Romance. Publicado por Hodder & Stoughton. 2014. [Goodreads] [Amazon]

Outras leituras

Seleção dos melhores artigos em revistas/jornais e posts em blogs que li durante o mês

Inglês:
> The Rise of the Thought Leader: How the superrich have funded a new class of intellectual, artigo de David Sessions. Publicado no New Republic em 28 de junho, 2017.
> Language Arts: If platforms are the way we communicate now, will they always remain a second language?, ensaio de Renée Reizman. Publicado na Real Life em 26 de junho, 2017.
> Player One: The video-game industry is built on the cultish fantasy that all technology and effort can be redeemed as pure pleasure, ensaio de Michael Thomsen. Publicado na Real Life em 21 de junho, 2017.
> Bugs as Features: Digital metaphors for the human microbiome abets fantasies of reprogramming our guts and rebooting our systems, ensaio de Nitin K. Ahuja. Publicado na Real Life em 10 de julho, 2017.
> Cory Doctorow’s ‘Fully Automated Luxury Communist Civilization’, entrevista com Cory Doctorow por Katherine Mangu-Ward. Publicado na Reason em 12 de julho, 2017.
> Entrevista com Toni Morrison, por Mario Kaiser e Sarah Ladipo Manyika. Publicado na Granta em 29 de junho, 2017.
> Cassandra Plays the Stock Market, artigo de Tim Maly. Publicado no Quiet Babylon em 3 de julho, 2017.
> The Ones You Love, ensaio de Juli Fraga. Publicado primeiro na Anxy Magazine nº 1 e depois na newsletter da revista em 18 de julho, 2017.
> Why Social Media Platforms Should Think Twice Before Banning Adult Content, artigo de pjsage. Publicado no Cyborgology em 26 de julho, 2017.
> Transhumanism, Tragic Humanism, and The View From Nowhere, de Abou Farman. Publicado no Platypus em 27 de julho, 2017.

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Leituras de Março/2017

Março foi mais um mês bem levinho em leituras e pesado em ruminações existenciais e tropeços mentais. O que eu mais li em março foi fanfic, o que não é novidade para absolutamente ninguém. Devorei boa parte do arquivo do AO3 na tag Myka Bering/Helena “H. G.” Wells, personagens do seriado Warehouse 13. Tô atrasado na meta de 100 livros para 2017. Vamos ver se recupero nos próximos meses.

Livros de ficção

> Agents of Dreamland, de Caitlín R. Kiernan. Novela. 112 páginas. Publicado por Tor, 2017. [Goodreads] [Amazon]
> Não chore, de Luiz Bras e Teo Adorno. Novela. 152 páginas. Publicado por Patuá, 2016. [Goodreads]

Leituras em andamento

A New Kind of Science, de Stephen Wolfram. Livro de não-ficção. Publicado por Wolfram Media, 2002. [Goodreads] [Amazon]
Chaos: Making a New Science, de James Gleick. Livro de não-ficção. Publicado por Open Road Media, 2011. [Goodreads] [Amazon]
> Molecular Red: Theory for the Anthropocene, de Kenneth McKenzie Wark. Livro de não-ficção. Publicado por Verso, 2015. [Goodreads] [Amazon]
> Everything Change: An Anthology of Climate Fiction, org. Manjana Milkoreit, Meredith Martinez e Joey Eschrich. Vários autores. Livro de contos. Publicado por ASU Imagination and Climate Futures Initiative, 2016. Disponível gratuitamente aqui. [Goodreads]
American Gods (Tenth Anniversary Edition), de Neil Gaiman. Romance. Publicado por William Morrow, 2011. Tô lendo 3 capítulos por semana com um grupo, em preparação pra estreia do seriado. [Goodreads] [Amazon]

Contos disponíveis online

> The Need for Overwhelming Sensation, por Bogi Takács. Publicado na Capricious.
> Nevertheless, She Persisted, série de minicontos. Várias autoras. Publicado na Tor em março, 2017.
> The Scholast in the Low Waters Kingdom, por Max Gladstone. Publicado na Tor em março, 2017.

Outras leituras

Seleção dos melhores artigos em revistas/jornais e posts em blogs que li durante o mês

Inglês:
> A Society In Miniature, artigo de David Byrne. Publicado no seu blog pessoal em 9 de fevereiro, 2017.
> Storytelling Through Costume: The Allure of the Red Dress, artigo de Sarah Gailey. Publicado na Tor em 23 de fevereiro, 2017.
> The Jubilee: Fill Your Boots, artigo de Cory Doctorow. Publicado na Locus Mag em 2 de março, 2017.
> Time On The Clock Of The World: How We Handle Trump. Entrevista de Susie Day com Amin Husain. Publicado na Gay City em 2 de março, 2017.
> The Greatest Journalists in Live-Action Superhero Fiction, Ranked, artigo de Emily Asher-Perrin e Molly Templeton. Publicado na Tor em 7 de março, 2017.
> Suspicious Minds: When a political regime is overtly oppressive, paranoia becomes a coping strategy, ensaio de Eric Thurm. Publicado na Real Life em 14 de março, 2017.
> Longing for Tomorrow: Science fiction blockbusters should comprise the future of emotions as well as technologies, ensaio de Mary Wang. Publicado na Real Life em 22 de março, 2017.
Unknowing Lyric, ensaio de Matthew Bevis. Publicado na Poetry Magazine em 1º de março, 2017.

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