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Blog de Alliah Posts

[Ilustração] [NSFW] Em homenagem aos 666

A vida na interwebz é cheia de bobageiras numéricas irrelevantes e comemorações exageradas para fatos desimportantes. E é aí que reside a diversão da coisa. Falei lá no twitter que quando chegasse aos 666 seguidores, faria uma ilustração erótica em comemoração. Pois bem, alcancei o número da besta ontem e aí está a ilustra para vocês, queridos desconhecidos:

Alliah - Erotica - Raposa - MenorPensei em jogar uma cor no desenho, mas percebi que gosto muito mais dele assim, só no nanquim com traços limpos e pouquíssimas hachuras. Acho que fica bem mais forte e expressivo.

Sobre o crânio, é um crânio de raposa cinzenta. Por isso as orelhas e o rabo.

Mas por que, pelas ventosas macarrônicas de Cthulhu, você desenhou uma mulher com uma cabeça de crânio de raposa? 

Primeiro porque a porra do desenho é meu e eu desenho o que eu quiser.

Segundo porque eu gosto de crânios, cara, me deixa! Tem um gigante aí no topo do blog há séculos e cês num tão criando caso com ele.

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Sujando as mãos

Eu adoro quando o caos resolve trabalhar a meu favor. No post passado, o último de 2012, eu falei de The Virgin Suicides e falei um pouco do meu romance (em andamento). Postei até um trechinho do bendito. Mas se você leu, você lembra que eu destaquei uma cena em que uma personagem chama os cidadãos de Outubro para sujarem as mãos, e que essa é uma mensagem que eu acho necessária e urgente para o tempo em que vivemos. Pois bem, nesse começo de ano, me deparei com um trabalho do designer Roland Reiner Tiangco que trata justamente disso. O trabalho consiste num pôster que, para se fazer visível e compreensível, te obriga a sujar as mãos. Confira a arte nesse link.

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Obviamente, doutor, você nunca foi uma menina de 13 anos

We felt the imprisonment of being a girl.

Minha primeira leitura de 2012 foi o romance The Virgin Suicides (As Virgens Suicidas), do americano com sobrenome grego Jeffrey Eugenides. Mergulhei no livro sobre o suicídio das irmãs Lisbon no comecinho de Janeiro. O belo e divertido filme de Sofia Coppola só fui assistir há alguns meses.

Em Janeiro eu ainda não tinha começado a escrever meu romance, mas é claro que The Virgin Suicides reverbera em algum momento na minha história. Como fugir disso se o livro de Eugenides trata do suicídio de meninas tão jovens e o meu trata do suicídio de mulheres mais velhas? Na história americana, sabemos o que se passa com as irmãs através dos relatos de um grupo de meninos que observavam as Lisbon e eram apaixonados por elas, nutrindo uma admiração e um fascínio quase sagrados, ritualísticos. Na minha história também há um quê de observação, já que uma das protagonistas é uma colecionadora de cartas de suicídio de mulheres e ao longo da trama eu vou interligando as vidas de todas elas à situação social e política da ilha de Outubro. Questões como xenofobia, racismo e homofobia constituem a espinha dorsal da coisa, e daí a crítica ao conservadorismo se faz pungente.

Mas as similaridades acabam aí, no nervo e na dor.

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Chãos esparramados e chãos ignorados

Somos próximos do chão quando somos crianças. Próximos de olho, de tato, de pele, de engatinhar, correr, cair, se esticar, se esfregar, se entregar.

Mas conforme crescemos e (supostamente) amadurecemos, nos afastamos em altura e em intimidade. E os chãos que nos acolheram passam a mero caminho transitório ignorado, automático, sujo, inferior, vulgar. Cair é um horror. Agachar-se é derrota. Derramar-se é desespero.

Numa história infantojuvenil sendo escrita aos pouquinhos, num capítulo em particular, exploro um pouco desse processo de familiaridade que se estica em estranhamento.

Diana e seu irmão mais novo, Átila, duas crianças introspectivas, imaginativas e íntimas dos chãos que se esparramam debaixo de seus corpos e mentes, estão agachados no canto de um campo de areia. Com as mãos sujas e miúdas, cavam aos poucos a areia quente em volta de uma lasca de pedra. Branca, translúcida, coberta por flocos ásperos e foscos, como pele de peixe que arde e se descasca. Naquela brincadeira alheia à confusão das outras crianças jogando bola durante o recreio da escola, Diana e Átila, que vestia uma máscara-quase-capacete no formato de uma cabeça de pássaro, pensam desenterrar o fóssil de uma criatura pré-histórica. Não o fazem realmente, é apenas pedra. Bruta e crua. Logo terão que voltar para a sala, para a monotonia das aulas, para as agressões das outras crianças, para o isolamento e para a hostilidade. Átila para de cavar e senta-se com as pernas cruzadas, exausto e encharcado de suor. Sua bochecha esquerda dói e o menino massageia de leve a pele por debaixo da palha trançada da máscara, sentindo o encaroçado dos dentes nascendo tortos e o corte recente na gengiva voltando a sangrar. Acostumara-se ao gosto de ferro. Era espancado toda semana pelas outras crianças. Mas não queria que suas duas mães soubessem, e para isso havia criado a máscara de pássaro com ajuda da irmã. De dentro da curvatura ameaçadora do bico de plástico e dos olhos margeados pelas penas vermelhas, era pássaro que voa, que olha de cima, que desce em rasante. Era ave de rapina. Era descendente dos raptores que correram as camadas mais antigas desse chão. Era o dinossauro enterrado naquele campo de areia, todo solo, presas, plumas e escamas.

Diana, a narradora-personagem dessa ficção da qual o trecho acima não é parte, diria que nós, ignorantes do chão sob nossos pés, devemos recobrar a intimidade perdida, começando por lambê-lo inteiro.

Chão:

a.

1. Desprovido de saliência ou de reentrância; PLANO; LISO

2. Raso, rasteiro

3. Simples, direto (linguagem chã)

4. Tranquilo, sereno (mar chão)

5. Sem importância (discurso chão); COMUM; VULGAR; TRIVIAL

6. Pej. Baixo, vulgar, maldoso (comentário chão)

sm.

7. Superfície da terra; SOLO

8. Terreno suficientemente plano e homogêneo para permitir o trânsito de homens e animais

9. Fig. Lugar onde se nasceu ou onde se vive: Esse é o meu chão.

10. Pavimento térreo da casa; SOALHO

11. Revestimento do pavimento de uma casa, de um aposento ou outra construção; piso

12. P.ext. Qualquer superfície firme e sólida (p.ex., em uma edificação, em um veículo etc.) onde se pode pisar, andar e apoiar o corpo ou objetos; a superfície horizontal mais baixa em determinado recinto ou espaço limitado; piso

13. Fig. Pop. Caminho já percorrido ou que ainda falta percorrer; progresso ou esforço feito ou ainda por fazer: Ainda temos muito chão pela frente; não chegaremos antes do anoitecer: O sucesso só veio ao fim de muito chão

14. Pequena propriedade, esp. para moradia e/ou cultivo

15. Fig. Experiência pessoal ou profissional; conhecimento ou capacidade adquiridos com o tempo e a prática; traquejo: Ela é competente, mas ainda não tem chão para ocupar o cargo

16. Fig. Apoio, base, aquilo que dá condição de estabilidade ou firmeza, ou segurança física, moral, espiritual: O afastamento dos amigos deixou-o abaladíssimo, sem chão.

[Pl.: chãos.]

[F.: Do lat. planus.]

Tudo é chão.

Fora do chão só há vácuo e medo.

Capa do disco 'Chão', de Lenine.
Capa do disco ‘Chão’, de Lenine.
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Convite para o lançamento do livro “É assim que o mundo acaba”, Editora Oito e Meio

O mundo acaba em 21 de Dezembro, em plena sexta-feira, mas a semana apocalíptica começa com o lançamento de um livro. Dia 17, segunda-feira, vai rolar o evento de lançamento da antologia É assim que o mundo acaba, publicada pela Editora Oito e Meio. Eu participo do livro com o conto Castelos de salitre são mais bastardos que o Mesmo do elevador.

O local e o endereço estão no convite aí embaixo. Começa a partir das 19hrs. Estarei lá, então apareçam para garantir um exemplar autografado e para papearmos (:

Editora Oito e Meio - É assim que o mundo acaba - Flyer de lançamento

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Por onde anda o samba do bóson de Higgs?

Uns tempos atrás minha mãe me chamou querendo me mostrar um arco-íris rabiscando o céu, bem perto do nosso campo de visão. Ficamos ali olhando o fenômeno por alguns segundos – eu olhava e ela fazia meia dúzia de comentários viajantes – até que ela se virou e me perguntou como aquilo era possível. De onde vinham aquelas cores? Como nascia um arco-íris? Prontamente expliquei de forma simples e resumida a física envolvida. Ela me olhou e disse que eu tinha acabado com toda a graça da coisa. Mas como assim eu acabei com a graça se – IMHO – é ali na explicação que reside a essência poética do fenômeno? A ciência por trás só deixa tudo mais instigante, mais bonito!

Lembrei desse episódio porque estava ouvindo Lunik 9 esse fim de semana e me perguntando cadê as músicas poetizando as grandes descobertas e feitos científicos recentes. Nenhuma balada falando da exploração de Marte? Nenhum sambinha sobre o bóson de Higgs? Nada de rock pirando na Teoria-M? CADÊ?

Atentem, não estou falando de músicas que tratam sobre o objeto de estudo da ciência, e sim sobre o processo científico em si, e suas pesquisas, hipóteses, teorias, descobertas, invenções, expedições e desastres. O que mais existe por aí são letras melosas recheadas de sóis, luas e céus estrelados, mas ainda não esbarrei com nenhuma sobre a morte do sol e sua transformação numa gigante vermelha daqui a 5 bilhões de anos. Em abundância também existem as letras que só raspam em algum tema que já está impregnado no imaginário popular, como a Samba de Marte, onde Beth Carvalho diz: “O meu canto ecoou por todo universo, até em Marte o meu samba fez sucesso”. Quem vai escrever o Samba da Curiosity?

Lunik 9 é uma canção de Gilberto Gil, que eu conheci na voz de Elis Regina. A música fala nas consequências poéticas do primeiro pouso não-tripulado na lua, uma delas a possível destruição ou dispersão da aura romântica do nosso satélite. Ouçam a música e fiquem com a palavra do Gil:

Recebi o impacto da notícia do pouso (suave, segundo as avaliações) do Lunik 9 na lua com orgulho e ponderação: estávamos conquistando o espaço, mas aonde isso ia dar? Não era só o cidadão que especulava, mas também o artista, com o senso da responsabilidade de ser locutor da sociedade junto à história. Eu tinha que falar no assunto por isso – e também pelo sentido de competição. Havia uma disputa olímpica entre nós. ‘Provavelmente alguém vai fazer música sobre isso; deixa eu fazer logo a minha’, pensei.

Lunik 9 – uma suíte com vários andamentos e atmosferas, entremeada de narração, reflexões e advertências – é uma canção pretensiosa para o grau de informação que eu tinha a respeito, mas bacana também por isso: por vulgarizar, no sentido de divulgar, traduzir, em linguagem simples, um tema em princípio complexo. Nesse aspecto, é também apócrifa, em relação aos cânones da época – embora a bossa nova já tivesse dado a abertura para temas e termos (a Rolleiflex e outras coisas); e iniciática, em relação ao meu trabalho, do qual a questão do mistério do cosmos acabou se tornando uma linha mestra.

Mas frente ao significado do que a motivou, Lunik 9 apresentava um contraponto conservador, uma atitude ecológico-reativa, um temor exagerado da tecnologia e de que se inaugurava a possibilidade de extinção do próprio luar – da luz interior da lua. À época eu gostei de tê-la feito, mas no período tropicalista eu já achava a música boba, ingênua. Hoje em dia acho relevante aquilo ter-me ocorrido: a inspiração nasceu de uma profunda assunção de um sentido trágico de meu tempo.

Link para a Fonte.

O contraponto conservador, esse questionamento de pé atrás relacionado ao medo do desenrolar distópico da tecnologia, é tema caro na literatura de ficção científica. Temos à disposição toda a bibliografia mundial de FC para pesquisar as abordagens desse pensamento poético. Mas na música (e falo em especial da música popular brasileira), os exemplos são escassos. Pensar a força poética desses eventos – e, arriscaria dizer, pensar a força poética de qualquer coisa – requer certa dose de ingenuidade. E é na poética que esse fator do ingênuo empresta uma força absurda à palavra. Lembro de uma entrevista da Isadora Medella, integrante do grupo Chicas, em que ela comenta exatamente isso: sobre a força da palavra, a força de cantar em português, e em como a língua portuguesa é percussiva. É uma paulada sonora na cabeça.

Mas será que já estamos tão acostumados com as escalas grandiosas da ciência e da tecnologia que não nos importamos mais em gastar os miolos com fabulações e desmistificações românticas a ponto de cantá-las de maneira popular? Lá se vão 66 anos desde a construção do ENIAC, 55 desde o primeiro Sputnik, 43 desde que o homem pisou na lua, 16 desde a clonagem da ovelha Dolly (e 9 anos desde a morte da bichinha), 14 desde o lançamento da Estação Espacial Internacional e aproximadamente quatro meses desde o pouso da Curiosity em Marte.

Frisei ‘de maneira popular’ ali em cima porque músicas não-populares sobre ciência existem aos montes, principalmente se incluirmos aquelas feitas dentro de um contexto didático. Procurando direitinho, dá para achar de tudo, como por exemplo, uma versão do Kuduro feita por estudantes universitários para explicar a fotossíntese, melodiando a bomba de prótons, a distribuição de ATPs, entre outras biologices. Fora as criações de nerds talentosos que podem ser paródias, músicas humorísticas ou apenas ótimas canções. Um exemplo delicioso é essa paródia de Rolling in the Deep, chamada Rolling in the Higgs. O Wired fez uma lista de 10 músicas científicas, vale a pena conferir. Ah, não posso esquecer da música-tema do seriado The Big Bang Theory, que possui uma letra divertidíssima e viciante.

Mas voltando ao seio popular (e não-didático) da questão, é provável que o analfabetismo (funcional) científico tenha um papel importante aí. (Se bem que ainda estamos melhores – ou menos piores – que determinados lugares nos EUA, onde querem ensinar o design inteligente como contraponto à teoria da evolução. Design inteligente, aquele que não é design, tampouco inteligente, e é tão ciência quanto as bananas azuis imaginárias que eu planto no concreto do meu quintal). Ou vai ver as pessoas não se interessam por MPB falando de ciência porque acham chato mesmo. Quem sou eu para argumentar o contrário? Questão de paladar. Sei que boa parte da população mundial não se emociona com fósseis e paleontologigangas da mesma maneira que eu. Eu quase surtei na primeira vez que passei a mão num estromatólito (e dizendo assim a coisa toda soa até meio sexual). “Mas é só uma pedra”. É UM ESTROMATÓLITO, CARA, UM ESTROMATÓLITO, A GENTE DEVIA TÁ CULTUANDO ISSO NUM ALTAR.

Tá bom, Alliah, vai lá e escreve um paleopoema.

Sabe que eu já tentei? Anos atrás eu arrisquei escrever poeminhas falando de ciência. E claro que eu falhei miseravelmente, porque sou uma topeira com uma porta no lugar do cérebro quando o assunto é poesia. Chega a doer de tão ruim. Então prefiro continuar só na prosa mesmo. E deixo o poema, a composição, a melodia, a música, para quem entende do riscado.

Agora vão lá e escrevam uma Saudosa Maloca 2.0 para Arthur Dent.

 

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