Aperte "Enter" para pular para o conteúdo

Blog de Alliah Posts

Chãos esparramados e chãos ignorados

Somos próximos do chão quando somos crianças. Próximos de olho, de tato, de pele, de engatinhar, correr, cair, se esticar, se esfregar, se entregar.

Mas conforme crescemos e (supostamente) amadurecemos, nos afastamos em altura e em intimidade. E os chãos que nos acolheram passam a mero caminho transitório ignorado, automático, sujo, inferior, vulgar. Cair é um horror. Agachar-se é derrota. Derramar-se é desespero.

Numa história infantojuvenil sendo escrita aos pouquinhos, num capítulo em particular, exploro um pouco desse processo de familiaridade que se estica em estranhamento.

Diana e seu irmão mais novo, Átila, duas crianças introspectivas, imaginativas e íntimas dos chãos que se esparramam debaixo de seus corpos e mentes, estão agachados no canto de um campo de areia. Com as mãos sujas e miúdas, cavam aos poucos a areia quente em volta de uma lasca de pedra. Branca, translúcida, coberta por flocos ásperos e foscos, como pele de peixe que arde e se descasca. Naquela brincadeira alheia à confusão das outras crianças jogando bola durante o recreio da escola, Diana e Átila, que vestia uma máscara-quase-capacete no formato de uma cabeça de pássaro, pensam desenterrar o fóssil de uma criatura pré-histórica. Não o fazem realmente, é apenas pedra. Bruta e crua. Logo terão que voltar para a sala, para a monotonia das aulas, para as agressões das outras crianças, para o isolamento e para a hostilidade. Átila para de cavar e senta-se com as pernas cruzadas, exausto e encharcado de suor. Sua bochecha esquerda dói e o menino massageia de leve a pele por debaixo da palha trançada da máscara, sentindo o encaroçado dos dentes nascendo tortos e o corte recente na gengiva voltando a sangrar. Acostumara-se ao gosto de ferro. Era espancado toda semana pelas outras crianças. Mas não queria que suas duas mães soubessem, e para isso havia criado a máscara de pássaro com ajuda da irmã. De dentro da curvatura ameaçadora do bico de plástico e dos olhos margeados pelas penas vermelhas, era pássaro que voa, que olha de cima, que desce em rasante. Era ave de rapina. Era descendente dos raptores que correram as camadas mais antigas desse chão. Era o dinossauro enterrado naquele campo de areia, todo solo, presas, plumas e escamas.

Diana, a narradora-personagem dessa ficção da qual o trecho acima não é parte, diria que nós, ignorantes do chão sob nossos pés, devemos recobrar a intimidade perdida, começando por lambê-lo inteiro.

Chão:

a.

1. Desprovido de saliência ou de reentrância; PLANO; LISO

2. Raso, rasteiro

3. Simples, direto (linguagem chã)

4. Tranquilo, sereno (mar chão)

5. Sem importância (discurso chão); COMUM; VULGAR; TRIVIAL

6. Pej. Baixo, vulgar, maldoso (comentário chão)

sm.

7. Superfície da terra; SOLO

8. Terreno suficientemente plano e homogêneo para permitir o trânsito de homens e animais

9. Fig. Lugar onde se nasceu ou onde se vive: Esse é o meu chão.

10. Pavimento térreo da casa; SOALHO

11. Revestimento do pavimento de uma casa, de um aposento ou outra construção; piso

12. P.ext. Qualquer superfície firme e sólida (p.ex., em uma edificação, em um veículo etc.) onde se pode pisar, andar e apoiar o corpo ou objetos; a superfície horizontal mais baixa em determinado recinto ou espaço limitado; piso

13. Fig. Pop. Caminho já percorrido ou que ainda falta percorrer; progresso ou esforço feito ou ainda por fazer: Ainda temos muito chão pela frente; não chegaremos antes do anoitecer: O sucesso só veio ao fim de muito chão

14. Pequena propriedade, esp. para moradia e/ou cultivo

15. Fig. Experiência pessoal ou profissional; conhecimento ou capacidade adquiridos com o tempo e a prática; traquejo: Ela é competente, mas ainda não tem chão para ocupar o cargo

16. Fig. Apoio, base, aquilo que dá condição de estabilidade ou firmeza, ou segurança física, moral, espiritual: O afastamento dos amigos deixou-o abaladíssimo, sem chão.

[Pl.: chãos.]

[F.: Do lat. planus.]

Tudo é chão.

Fora do chão só há vácuo e medo.

Capa do disco 'Chão', de Lenine.
Capa do disco ‘Chão’, de Lenine.

Convite para o lançamento do livro “É assim que o mundo acaba”, Editora Oito e Meio

O mundo acaba em 21 de Dezembro, em plena sexta-feira, mas a semana apocalíptica começa com o lançamento de um livro. Dia 17, segunda-feira, vai rolar o evento de lançamento da antologia É assim que o mundo acaba, publicada pela Editora Oito e Meio. Eu participo do livro com o conto Castelos de salitre são mais bastardos que o Mesmo do elevador.

O local e o endereço estão no convite aí embaixo. Começa a partir das 19hrs. Estarei lá, então apareçam para garantir um exemplar autografado e para papearmos (:

Editora Oito e Meio - É assim que o mundo acaba - Flyer de lançamento

Por onde anda o samba do bóson de Higgs?

Uns tempos atrás minha mãe me chamou querendo me mostrar um arco-íris rabiscando o céu, bem perto do nosso campo de visão. Ficamos ali olhando o fenômeno por alguns segundos – eu olhava e ela fazia meia dúzia de comentários viajantes – até que ela se virou e me perguntou como aquilo era possível. De onde vinham aquelas cores? Como nascia um arco-íris? Prontamente expliquei de forma simples e resumida a física envolvida. Ela me olhou e disse que eu tinha acabado com toda a graça da coisa. Mas como assim eu acabei com a graça se – IMHO – é ali na explicação que reside a essência poética do fenômeno? A ciência por trás só deixa tudo mais instigante, mais bonito!

Lembrei desse episódio porque estava ouvindo Lunik 9 esse fim de semana e me perguntando cadê as músicas poetizando as grandes descobertas e feitos científicos recentes. Nenhuma balada falando da exploração de Marte? Nenhum sambinha sobre o bóson de Higgs? Nada de rock pirando na Teoria-M? CADÊ?

Atentem, não estou falando de músicas que tratam sobre o objeto de estudo da ciência, e sim sobre o processo científico em si, e suas pesquisas, hipóteses, teorias, descobertas, invenções, expedições e desastres. O que mais existe por aí são letras melosas recheadas de sóis, luas e céus estrelados, mas ainda não esbarrei com nenhuma sobre a morte do sol e sua transformação numa gigante vermelha daqui a 5 bilhões de anos. Em abundância também existem as letras que só raspam em algum tema que já está impregnado no imaginário popular, como a Samba de Marte, onde Beth Carvalho diz: “O meu canto ecoou por todo universo, até em Marte o meu samba fez sucesso”. Quem vai escrever o Samba da Curiosity?

Lunik 9 é uma canção de Gilberto Gil, que eu conheci na voz de Elis Regina. A música fala nas consequências poéticas do primeiro pouso não-tripulado na lua, uma delas a possível destruição ou dispersão da aura romântica do nosso satélite. Ouçam a música e fiquem com a palavra do Gil:

Recebi o impacto da notícia do pouso (suave, segundo as avaliações) do Lunik 9 na lua com orgulho e ponderação: estávamos conquistando o espaço, mas aonde isso ia dar? Não era só o cidadão que especulava, mas também o artista, com o senso da responsabilidade de ser locutor da sociedade junto à história. Eu tinha que falar no assunto por isso – e também pelo sentido de competição. Havia uma disputa olímpica entre nós. ‘Provavelmente alguém vai fazer música sobre isso; deixa eu fazer logo a minha’, pensei.

Lunik 9 – uma suíte com vários andamentos e atmosferas, entremeada de narração, reflexões e advertências – é uma canção pretensiosa para o grau de informação que eu tinha a respeito, mas bacana também por isso: por vulgarizar, no sentido de divulgar, traduzir, em linguagem simples, um tema em princípio complexo. Nesse aspecto, é também apócrifa, em relação aos cânones da época – embora a bossa nova já tivesse dado a abertura para temas e termos (a Rolleiflex e outras coisas); e iniciática, em relação ao meu trabalho, do qual a questão do mistério do cosmos acabou se tornando uma linha mestra.

Mas frente ao significado do que a motivou, Lunik 9 apresentava um contraponto conservador, uma atitude ecológico-reativa, um temor exagerado da tecnologia e de que se inaugurava a possibilidade de extinção do próprio luar – da luz interior da lua. À época eu gostei de tê-la feito, mas no período tropicalista eu já achava a música boba, ingênua. Hoje em dia acho relevante aquilo ter-me ocorrido: a inspiração nasceu de uma profunda assunção de um sentido trágico de meu tempo.

Link para a Fonte.

O contraponto conservador, esse questionamento de pé atrás relacionado ao medo do desenrolar distópico da tecnologia, é tema caro na literatura de ficção científica. Temos à disposição toda a bibliografia mundial de FC para pesquisar as abordagens desse pensamento poético. Mas na música (e falo em especial da música popular brasileira), os exemplos são escassos. Pensar a força poética desses eventos – e, arriscaria dizer, pensar a força poética de qualquer coisa – requer certa dose de ingenuidade. E é na poética que esse fator do ingênuo empresta uma força absurda à palavra. Lembro de uma entrevista da Isadora Medella, integrante do grupo Chicas, em que ela comenta exatamente isso: sobre a força da palavra, a força de cantar em português, e em como a língua portuguesa é percussiva. É uma paulada sonora na cabeça.

Mas será que já estamos tão acostumados com as escalas grandiosas da ciência e da tecnologia que não nos importamos mais em gastar os miolos com fabulações e desmistificações românticas a ponto de cantá-las de maneira popular? Lá se vão 66 anos desde a construção do ENIAC, 55 desde o primeiro Sputnik, 43 desde que o homem pisou na lua, 16 desde a clonagem da ovelha Dolly (e 9 anos desde a morte da bichinha), 14 desde o lançamento da Estação Espacial Internacional e aproximadamente quatro meses desde o pouso da Curiosity em Marte.

Frisei ‘de maneira popular’ ali em cima porque músicas não-populares sobre ciência existem aos montes, principalmente se incluirmos aquelas feitas dentro de um contexto didático. Procurando direitinho, dá para achar de tudo, como por exemplo, uma versão do Kuduro feita por estudantes universitários para explicar a fotossíntese, melodiando a bomba de prótons, a distribuição de ATPs, entre outras biologices. Fora as criações de nerds talentosos que podem ser paródias, músicas humorísticas ou apenas ótimas canções. Um exemplo delicioso é essa paródia de Rolling in the Deep, chamada Rolling in the Higgs. O Wired fez uma lista de 10 músicas científicas, vale a pena conferir. Ah, não posso esquecer da música-tema do seriado The Big Bang Theory, que possui uma letra divertidíssima e viciante.

Mas voltando ao seio popular (e não-didático) da questão, é provável que o analfabetismo (funcional) científico tenha um papel importante aí. (Se bem que ainda estamos melhores – ou menos piores – que determinados lugares nos EUA, onde querem ensinar o design inteligente como contraponto à teoria da evolução. Design inteligente, aquele que não é design, tampouco inteligente, e é tão ciência quanto as bananas azuis imaginárias que eu planto no concreto do meu quintal). Ou vai ver as pessoas não se interessam por MPB falando de ciência porque acham chato mesmo. Quem sou eu para argumentar o contrário? Questão de paladar. Sei que boa parte da população mundial não se emociona com fósseis e paleontologigangas da mesma maneira que eu. Eu quase surtei na primeira vez que passei a mão num estromatólito (e dizendo assim a coisa toda soa até meio sexual). “Mas é só uma pedra”. É UM ESTROMATÓLITO, CARA, UM ESTROMATÓLITO, A GENTE DEVIA TÁ CULTUANDO ISSO NUM ALTAR.

Tá bom, Alliah, vai lá e escreve um paleopoema.

Sabe que eu já tentei? Anos atrás eu arrisquei escrever poeminhas falando de ciência. E claro que eu falhei miseravelmente, porque sou uma topeira com uma porta no lugar do cérebro quando o assunto é poesia. Chega a doer de tão ruim. Então prefiro continuar só na prosa mesmo. E deixo o poema, a composição, a melodia, a música, para quem entende do riscado.

Agora vão lá e escrevam uma Saudosa Maloca 2.0 para Arthur Dent.

 

Metanfetaedro: um pouco sobre o livro, a capa e a amostra

Finalmente saiu o Metanfetaedro, meu primeiro livro solo! Estou numa superposição frenética de estados: feliz, nervosa e ansiosa. Mais ou menos como o urso do Pica-Pau. Certo, agora que deixei vocês com essa imagem mental, falemos da obra. O livro reúne oito contos e oito ilustrações que abrem cada conto. São oito histórias essencialmente New Weird, mas que não se preocupam em se encaixar de maneira impecável nesse subgênero. Não há bordas ou fronteiras aqui. Aliás, essas noções espaciais de (não)limite são parte integrante de alguns dos enredos, tanto no campo do território físico, quanto no do corpo e da mente. É difícil fazer uma sinopse geral do livro, pois os contos são bem diferentes uns dos outros. Você vai encontrar tímidas criaturas cavernícolas de corpo troglóbio e sensibilidade pictórica, gerações indígenas oprimidas por carniceiros e vermícolas e devoradas como carcaça de baleia no leito marinho, desertos vivos de salgareia e cidades que sonham com seus metais, velociraptors inteligentes e magistas, um estudante de desenho anatômico e hipergeometria responsável por uma grande criação, e muito, muito mais. Outro aspecto crucial é que o livro está recheado de mensagens anarquistas. A citação de Bakunin não está ali à toa.

Dois artigos onde eu já falei anteriormente do Metanfetaedro: o post Novos autores para se ficar de olho em 2012, no Páginas Noturnas, e esse Top 5 no blog da Editora Draco, onde converso sobre trocentas referências literárias, artísticas e musicais. Confiram que vale a pena ler e reler.

Algumas das histórias do livro vocês já conhecem. Morgana Memphis Contra a Irmandade Gravibranâmica, publicado originalmente no Volume Vermelho d’A Fantástica Literatura Queer e finalista do Prêmio Argos de Literatura Fantástica 2012, está aqui também. E junto a ele uma nova história da Morgana, intitulada Morgana Memphis Dividindo Por Zero, que trata, entre outros deliciosos terrorismos, de arte-sabotagem. Outro conto já publicado é o Moleque, que saiu na antologia Paradigmas Definitivos. Esse é o conto que abre o livro, e que você pode conferir inteirinho na amostra da obra, que também possui o prefácio escrito pela Cristina Lasaitis.

A capa é de Richard Diegues sobre ilustração de Aaron Rutten:

Capa do livro Metanfetaedro, de Alliah.
Capa cheia de lindas esquisitisses para um livro cheio de apetitosas bizarrices.
Capa aberta do livro Metanfetaedro, de Alliah.
Capa aberta.

Algo que eu gostei muito nessa figura da capa é a ausência de feições. O rosto é uma massa geométrica em retalhos, com camadas assimétricas numa floração congelada. Dialoga muito fortemente com as questões levantadas no conto que dá nome ao livro. Já a diagramação possui um aspecto ruidoso que reflete a essência da coletânea: uma salada de referências e elementos dos mais diversos que se atravessam e se misturam sem pedir licença. Ah, e para quem não pescou a referência do sumário: a imagem é da pintura De Anatomische les van Dr. Nicolaes Tulp, ou A Lição de Anatomia do Dr. Tulp, 1632, de Rembrandt. As ilustrações internas são de minha autoria e foram feitas a nanquim. Algumas são mais figurativas e outras (como a que abre o conto Uma Cidade Sonhando Seus Metais, que você vê na amostra) são mais conceituais.

O livro está à venda na Loja da Tarja no Facebook e no site da Tarja.

Página do livro no Skoob.

Abaixo, a ilustração que abre o conto Moleque:

Ilustração de Alliah em preto e branco para o conto Moleque, do livro Metanfetaedro.

Metanfetaedrizem-se!

7 coisas que aprendi como escritora

Vi essa ideia de lista nesse post aqui, no blog da Cristina Lasaitis, e resolvi fazer também a minha lista de 7 coisas que aprendi como escritora.

Talvez eu devesse começar essa lista com um item zero, dizendo que não sei escrever listas. Ou melhor, não sei escrever listas pequenas, compactas, resumidinhas, assim que nem essa. Sempre acho que fica muita coisa de fora e o recorte acaba resultando em algo bastante parcial e discutível. Mas sei que listas costumam fazer sucesso pelo visual de receita de bolo, então vou parar com o devaneio e vocês podem ir logo ao pote.

1. Não existe bloqueio criativo. Existe preguiça, impaciência, crise de ansiedade, tpm, falta de vontade, desconforto, café frio e fones de ouvido com defeito.

2. A insônia pode ser a minha melhor amiga ou a minha pior inimiga. Depende da temperatura ambiente.

3. Trabalhar com criação artística é viver o que você faz, 24 horas por dia, 7 dias por semana, sem pausas ou férias, sabendo que só vai descansar de fato quando tiver morto e enterrado.

4. Tuítar uma ideia de sacanagem e levar a sério depois é sempre uma opção válida.

5. Meus amigos imaginários são muito mais confiáveis que minha memória.

6. Ler, ler e ler sempre, em qualquer mídia, plataforma, formato, gênero e cor.

7. É saudável achar um equilíbrio entre compartilhar conhecimento, ideias e determinadas criações de graça, e saber vender e lucrar com seu trabalho.

PS.: Escutem, isso é apenas uma lista que reúne minhas percepções, e não uma seleção experiente de dicas universais sobre como escritores precisam pensar/agir. Eu mal sei arrancar o plástico do Toddynho, não dá pra vir aqui ditar regra.

PS. 2: Se houvesse um item extra, eu diria que aprendi a ser mais feliz.

Sobre a origem da série “7 Coisas Que Aprendi”:

O projeto 7 Coisas Que Aprendi é uma iniciativa conjunta dos blogs Escriba Encapuzado e Vida de Escritor, de T.K. Pereira e Alexandre Lobão, que foram inspirados pela coluna 7 Things I’ve Learned So Far, da revista americana Writer’s Digest. A ideia é reunir experiências de escritores em qualquer fase, iniciantes ou experts, que escrevem em qualquer gênero e formato. Então, se você também é um escritor, participe e compartilhe suas visões!

Estou na coletânea “É assim que o mundo acaba”, da Editora Oito e Meio

Ontem saiu a lista de selecionados para a coletânea É assim que o mundo acaba, da editora carioca Oito e Meio. Os 11 escritores escolhidos vão dividir o livro com 10 escritores convidados, que são: André de Leones, Victor Paes, Claudia Nina, Leonardo Villa-Forte, Augusto Guimaraens, Botika, Rodrigo Rosp, Juliana Amato, Cesar Cardoso e Rafael Sperling.

Eu estou entre os escritores selecionados com o conto Castelos de salitre são mais bastardos que o Mesmo do elevador. Sim, é aquele Mesmo da plaquinha. E sim, eu juro que esse título vai fazer sentido dentro da história.

Lá em Maio, quando saiu a chamada para a coletânea, o que capturou minha atenção (além dos nomes dos autores convidados, já que seria ótimo compartilhar uma publicação com eles) foi a proposta, que abordava o fim do mundo de maneira diferente. No post diz: “Não se buscará a hecatombe pirotécnica de Hollywood, mas uma visão mais intimista e literária sobre o tema. Em termos cinematográficos, estaria mais para Melancolia de Lars Von Trier do que para O Dia Depois do Amanhã.

Eu estava trabalhando em alguns textos bem pirotécnicos na época e, de certa forma, estou sempre escrevendo algo barulhento assim, então curti a ideia de mudar os acordes. É interessante dizer também que essa é minha primeira publicação que sai por uma editora que não é focada em literatura fantástica. Meu conto puxa pra FC soft e um pouco pro weird, mas os elementos fantásticos estão ali à serviço dos pensamentos e dramas da narradora-personagem.

Bem, o lançamento da coletânea já tem mês certo, vai rolar em Dezembro, no Rio. E se o mundo acabar mesmo, onde melhor do que num evento literário? (Okay, eu consigo pensar em trocentas situações melhores, metade delas incluindo álcool e sexo, mas vamos ficar com a poética literária da coisa, beleza?).

O que mais andou acontecendo por aí…

♦ A Carolina Mancini, do blog Respirando Arte, fez uma longa e detalhada resenha da coletânea Paradigmas Definitivos, da Tarja Editorial. Sobre o meu conto, Moleque, ela diz:

Já li outros contos desta autora em antologias que, inclusive, resenhei , são elas “Cursed City” e “Deus Ex Machina”. E quando me debrucei sobre “Moleque”, fiquei muito surpresa com o que li. Neste conto Alliah conseguiu unir com perfeição sua grande criatividade e construção ornamentada junto aos mais profundos sentimentos (e gigantescos erros) humanos. Ela construiu dois cenários surreais, profundos, escrotos e fétidos, junto à personagens fantásticos feito alegorias dantescas, desprovidos de suas máscara míticas e véus oníricos, e entregues à imundice física ou corrupta. E tudo isto acompanhando pela perda da inocência. Um conto de se aplaudir.

♦ A Carolina também está fazendo uma promoção no blog. O ganhador leva um exemplar da Paradigmas Definitivos. Vai lá participar!

♦ Escrevi um artigo para o Páginas Noturnas, site de literatura editado pelo Eric Novello, falando sobre a (in)existência do SciFi Strange. Já ouviu falar nesse subgênero? Aqui um pedacinho:

O termo foi inventado pelo escritor americano Jason Sanford, em 2009, num pequeno post em seu blog pessoal, intitulado The Noticing of SciFi Strange. Jason começa o texto avisando que aquilo não é um manifesto, mas apenas uma observação. O autor cita um tuíte de Gareth L. Powell que diz: “Nós já tivemos o New Weird e o Steampunk. Qual será a “próxima grande sensação” na ficção científica?”. E Jason responde afirmando que a “próxima grande sensação” já está acontecendo, e que nós apenas não temos um nome para ela. Resumindo, ele define o SciFi Strange como uma ficção que bebe na fonte da New Wave (a FC soft dos anos 60 e 70) e usa o experimentalismo tanto na forma quanto no contéudo, mas mantendo o caráter de especulação científica, sem cair na fantasia.

O artigo é cheio de referências e sugestões de leitura. Você pode marcar o post e visitar futuramente para ler alguma das histórias linkadas (todas disponíveis online). Só tem ficção excelente, isso eu garanto.

That’s all folks.

Até mais e obrigada pelos peixes!