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Blog de Alliah Posts

Esse bicho que é a rotina de escrita

Stephen King em seu cantinho da escrita.

O episódio #019: Rotinas de Escrita, do podcast Curta Ficção trouxe um papo bem legal entre Thiago Lee, Jana Bianchi, Rodrigo Assis Mesquita e o autor convidado André Timm.

Muito do que eles falam sobre o mito da inspiração e a necessidade de uma rotina de escrita dialoga com o que escrevi no post A inquietação diferencial da escrita. Então, se você curtiu o post, pode separar 30 min para ouvir esse episódio que será bem proveitoso e divertido.

Para muita gente a rotina é algo detestável que deve ser evitado. Ou uma criatura críptica que só foi avistada em fotografias borradas em preto-e-branco e pertence ao salão da fama do Abominável Homem das Neves e do Chupacabra. Mas ela não é esse bicho de sete cabeças todo. Uma rotina bem estruturada é o alicerce da criatividade. Eu sinto com muita força a falta que ela faz nos meus dias ruins. E o sopro de vida que ela traz quando retorna.

Ainda não consegui firmar uma rotina de fato. Daquelas que você pode dizer que faz as coisas assim e assado há mais de três anos ou período do tipo. Quando penso que engatei numa, o universo enfia uma chave de fenda entre os dentes da engrenagem e descaralha a harmonia toda. Mas quando estou em sincronia, faço escolhas bem conscientes e disciplinadas que caberiam numa rotina. A principal delas é: dormir cedo e acordar cedo. E quando eu falo cedo, é cedo mesmo. Dormir entre 8 e 9 da noite e acordar entre 4 e 4:30 da manhã. Eu sou outra pessoa quando sigo esses horários: me sinto revigorado, bem disposto e minha cabeça funciona com uma clareza e uma agilidade sem igual.

Garotas mortas por todos os lados

Gillian Anderson como Stella Gibson no seriado The Fall.

Às 2:25 de uma madrugada tranquila de sexta-feira, numa rua deserta no interior do sudeste da Pensilvânia, a primeira garota morta saiu de sua geladeira.

Assim começa o conto eyes I dare not meet in dreams, de Sunny Moraine, publicado em junho desse ano no Tor.

A história narra o fenômeno de dezenas, centenas, milhares de garotas mortas saindo de suas geladeiras. Dizem que as geladeiras caíram aqui através de alguma fenda no tecido da realidade. No meio da rua, na beira da calçada, na porta de casa, no corredor de um avião em pleno voo. Garotas mortas por todos os lados. Deixando todo mundo atordoado e desconfortável e sem saber o que fazer porque elas só encaram e ocupam espaço e insistem em existir com seus corpos ensanguentados e putrefatos–exigindo em silêncio que sejam notadas, vistas, reconhecidas. Na morte, ainda que tarde.

Dos 27 comentários na página do conto, logo o primeiro é alguém questionando por que apenas garotas mortas? Por que não garotos? Afinal, eles também são assassinados. E de todos os exemplos que a pessoa poderia dar, ela tira do vórtex da aleatoriedade as vítimas do serial killer Jeffrey Dahmer. Parece mais um comentário arquitetado para descarrilar a seção de comentários para a troca de ofensas do que uma dúvida genuína. Not today, pomo da discórdia, not today. Alguns respondem com calma, explicando que o conto claramente se refere ao tropo das Mulheres na Geladeira (Women in Refrigerators). E, por isso, o foco é em garotas. Como se houvesse a necessidade de um motivo para focar o conto em garotas além da vontade de quem escreveu de focar o conto em garotas.

A inquietação diferencial da escrita

María Fernanda Cardoso, Woven Water: Submarine Landscape, 1994, estrelas-do-mar secas com cabos de metal. Museu de Belas Artes, Houston. Compra do museu financiada pelo Fundo de Arte Caribenho. © María Fernanda Cardoso.

Mês passado o canal da Vox postou um vídeo sobre a evolução dos filmes da Lego, mostrando como filmes de fãs foram responsáveis por moldar o visual e as decisões criativas que fizeram do The Lego Movie, de 2014, sucesso de público e crítica.

Nas palavras do designer de produção Grant Freckelton, o filme de 2014 é 99% computação gráfica, mas respeitando as regras do stop motion ao emular o estilo do stop motion. Porque eles resolveram obedecer as leis que regem a fisicalidade de uma peça de lego.

Os filmes que precederam The Lego Movie sofriam de uma indecisão existencial. A animação não sabia se obedecia às limitações físicas da peça ou se abarcava os movimentos de algum material emborrachado e, ao misturar elementos desses dois extremos do espectro, resultava em algo que não existia nem lá, nem cá. Era puro uncanny valley de plástico.

Ao estabelecer limites rígidos para a animação de 2014, as decisões criativas resultantes possuíam uma vitalidade ímpar.

Receosos de firmar limites narrativos e tomar decisões estéticas duras, muitos autores escrevem histórias que também não estão nem lá, nem cá e constroem personagens que mal sabem quem são, o que querem ou para onde estão indo. Pode parecer contra-intuitivo, mas a imaginação floresce a partir dos limites que lhe são impostos. E do ato decisivo, do trabalho que cresce iteração após iteração. Porque não adianta ficar imaginando mil possibilidades na cabeça. É preciso realizar a escrita e descobrir-se no processo, na poda de ramificações.

Leituras de Junho/2017

Tenho a mania de dizer que junho nunca é um bom mês porque é o mês do meu aniversário e eu fico melancólico e desesperançoso enquanto transito no horizonte de eventos do meu aniversário, tentando não ser engolido pela apatia ou pelo desespero. Mas a verdade é que consegui ter momentos de clareza e não desacelerei a escrita dos meus romances–bateram até ideias para escrever contos avulsos que quero publicar de forma independente e já estou trabalhando neles.

Um dos ensaios do livro A Director Prepares: Seven Essays on Art and Theatre foi, de longe, a leitura mais importante do mês. O ensaio sobre a violência da decisão na arte. O livro faz parte de uma lista que organizei lá no começo do ano com o tema violência em suas mais diversas interpretações, manifestações e significados. Pesquisa para um dos romances em andamento. Devo reler mais algumas vezes nas próximas semanas. As observações da Anne Bogart dialogam muito com aquilo que estou explorando na história.

Entendendo a leitura sensível

No dia 30 de junho de 2017 a Folha publicou uma reportagem sobre leitura de sensibilidade chamada Mercado editorial adota função do ‘leitor sensível’ para evitar boicotes, assinada pela jornalista Amanda Ribeiro Marques. Como eu não olho mais timelines de redes sociais, só fiquei sabendo das reações através de comentários de amigos. Para a surpresa de absolutamente ninguém, determinados grupos de autores acharam a coisa toda um absurdo, escorando-se na opinião de que a leitura sensível é um tipo de censura do politicamente correto.

O serviço ainda é relativamente novo ao mesmo tempo em que é algo que sempre existiu no mercado literário antes que fosse compartimentalizado e nomeado como tal. Ainda há uma torrente de dúvidas e desentendimentos sobre a leitura sensível, então resolvi postar alguns esclarecimentos aqui.

A Amanda Ribeiro Marques (que, por sinal, foi muito simpática e mostrou interesse genuíno no assunto) entrou em contato comigo antes da matéria ser publicada para entender melhor como esse serviço funciona aqui no Brasil e quais são minhas opiniões sobre esse papo todo de censura.

Abaixo eu reproduzo as respostas que dei. Modifiquei um pouco as perguntas para se adequarem melhor ao post, adicionei algumas informações às respostas e incluí tuítes de amigos que comentaram o tema nos últimos dias.

Leituras de Maio/2017

O mês foi leve em leitura de literatura, mas em compensação tive dias ótimos de escrita nos meus dois romances e eles estão avançando bem.

Como dá para ver ali embaixo, minha lista de leituras em andamento já tá enorme. Vou focar em terminar a maioria daqueles livros antes de começar algum novo–é um impulso bem desgraçado esse de sair pegando leituras novas sem ter completado as antigas. Planejo começar a leitura da minha listinha de cyberpunks (nacionais e internacionais) e escrever sobre eles depois que eu desengarrafar essas leituras em andamento acumuladas.

Contos

> Elektrograd: Rusted Blood, de Warren Ellis. 41 páginas. Publicado por SUMMON Books, 2015. [Goodreads] [Amazon]
> Entre Estantes, de Olívia Pilar. 10 páginas. Publicação independente, 2017. [Goodreads] [Amazon]
> Tempo ao tempo, de Olívia Pilar. 20 páginas. Publicação independente, 2017. [Goodreads] [Amazon]