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“Não é homofobia, mas…”

Essa segunda saiu um episódio novo do podcast feminista We Can Cast It, capitaneado por Aline Valek e Gizelli Souza. O episódio – com Clara Averbuck de convidada – fala sobre representação e visibilidade de mulheres na literatura, mulheres como escritoras e personagens. O papo é excelente e tem uma trilha sonora bem gostosinha. Mas o que quero destacar aqui é um post de Olivia Maia que foi citado na conversa, chamado Ser escritora. Quero destacar dois parágrafos, mas leia o texto inteiro no site da autora, que é um tapa muito bem dado:

ora, porque a maioria dos protagonistas da literatura universal são sempre homens, de forma que o normal da literatura é o protagonista homem, e toda protagonista mulher precisa ser justificada, estar ali para provar alguma coisa ou demonstrar qualquer questão muito exclusivamente feminina. ela não pode ser mulher simplesmente porque nasceu assim, cazzo, e o livro não precisa ser sobre questões femininas, como se todo livro com um protagonista homem fosse sobre questões masculinas.

o foda de ser escritora mulher é o tempo todo precisar se justificar. dizer que aquela personagem não é seu alter-ego. é cansar de fazer personagens homens, para se desviar desse monte de dedo apontado. e afinal também esses a gente tem que justificar, e até parece que uma escritora mulher poderia escrever de forma convincente sobre um homem.

Essa realização é tão verdadeira que dói. E assim que eu li essas palavras, percebi que algo bastante similar acontece com personagens queer. Assim como mulheres – e, é justo dizer, qualquer personagem que não seja o típico homem branco, cis, heterossexual, sem deficiências físicas ou condições mentais – personagens que possuem orientações sexuais diferentes, identificação de gênero diferentes e expressões de gênero diferentes, precisam de uma justificativa para existirem numa história. Quando há personagens mulheres – ou negros, ou gays, ou trans, you name it – demais numa trama, o leitor heteronormativo fica desconfortável e reclama que o enredo tem: mulher demais, e por isso é uma história para mulheres; gays demais, e por isso é uma história para gays; negros demais, e por isso é uma história para negros. Mas uma história entupida de homens brancos e relações heteronormativas esguichando por todos os poros é pra todo mundo – ou como chamam na sessão da tarde, para a família toda! – afinal, essa é a norma, o padrão, o modelo.

Saiu uma resenha do Metanfetaedro na edição 107 (Dezembro de 2013) da Somnium, uma revista digital publicada pelo Clube de Leitores de Ficção Científica. O texto, de autoria de Washington Silva, não me incomodou em nada a não ser por um trechinho bem problemático que destaco a seguir. Espero que meus leitores e fãs entendam porque não falei disso antes. Era uma dor de cabeça que eu quis ignorar porque ando ocupada demais com meus projetos independentes para esquentar essa minha cabecinha diva e porpurinada com coisas assim. Mas, vocês me conhecem. Eu não consigo ficar calada quando vejo algo ofensivo.

O trecho problemático é o seguinte:

Apesar de algumas personagens fazerem com que nos apaixonemos imediatamente por elas (Morgana, Amadahi e Lisa, por exemplo), o teor homossexual insinuado na maior parte do livro acaba quebrando um pouco o clima para os heterossexuais de passagem (sem homofobia, apenas relatando um sentimento…). (pág. 81).

Minha primeira reação foi um:

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Seguido de um:

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Olha, quando alguém precisa dizer um “sem homofobia, apenas, mas, é que, porém,…”, já tá enfiando o pé bem fundo nesse abacaxi podre. E as pessoas só deveriam enfiar os pés em situações sexuais devidamente sãs, consensuais e seguras.

Mas vamos lá, vamos quebrar a frase. Com jeitinho, que é pra não lascar a ponta da unha nem sujar o bico do salto.

Primeiro esse papo de teor homossexual. É o mesmo tipo de expressão vazia e preguiçosa que ouço quando falam sobre um estilo de vida homossexual. É uma expressão que não significa nada a não ser que a pessoa não faz a menor ideia do que tá falando. E, insinuado? Really? Não tem nada de insinuado nas histórias. Os personagens são abertamente homossexuais, bissexuais e transsexuais. Teor homossexual insinuado é o que tem rolado entre Regina e Emma em Once Upon a Time. No meu livro tá todo mundo fora do armário e bem resolvido, obrigada.

Agora esse quebrando um pouco o clima para os heterossexuais de passagem. (Eu nem vou entrar na zua de encarnar nesse mal formulado heterossexuais de passagem, porque ó, super apoio heteroflexibilidade). Se uma história protagonizada por personagens queer causa desconforto em leitores não-queer, o problema não tá na história, meus queridos. O leitor precisa fazer uma reavaliação de si mesmo pra tentar compreender de onde vem essa quebrada de clima. Vocês conseguem imaginar um branco falando que uma história protagonizada por personagens negros causa uma quebrada de clima para leitores brancos? Em que universo paralelo hipotético um absurdo desses seria aceitável?

E por que essa visão binária fechada e reducionista que existem apenas homossexuais de um lado e heterossexuais do outro? Há uma gama colossal de orientações e identidades entre esses dois extremos. Muito além dos números de Kinsey. Essa falta de reconhecimento é problemática e ofensiva porque apaga a existência de milhões de pessoas.

Não encarem esse post como um ataque. É uma tentativa de educar quem está ignorante da natureza da sexualidade humana. E as palavras duras são apenas o resultado de ANOS e ANOS ouvindo toneladas de merda. Então, sim, eu fico putíssima. E com toda razão.

Eu não quero ter que justificar minhas personagens mulheres. Eu não quero ter que justificar meus personagens queer. E olha que o livro tem protagonistas de sexualidade não especificada também. Acho que esses não quebraram o clima, né? Provavelmente foram lidos como heterossexuais por default. (Mas quem disse que são?).

Meus escritos em andamento são todos protagonizados por personagens queer. Não porque eu planejei assim. Simplesmente aconteceu. São os personagens certos para as histórias que eu quero contar. Mas, quer saber? Minha vontade é encher o mundo de personagens gays, lésbicas, bissexuais, assexuais, transgêneros, intersex, andróginos, drag queens, drag kings, genderneutrals, heteroflexíveis, homoflexíveis, curiosos, experimentadores, questionadores, transformistas, performers e todo mundo que está entre um ponto e outro desses espectro de cores. Não há muitos de nós sendo representados e reconhecidos. Tudo que eu puder fazer dentro do meu tempo de vida para celebrar nossa diversidade e aumentar nossa visibilidade – e, consequentemente, aumentar a autoconfiança e a qualidade de vida do pessoal que ainda tá escondido e amedrontado em algum armário -, eu farei.

*Alliah out*

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