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Garotas mortas por todos os lados

Gillian Anderson como Stella Gibson no seriado The Fall.

Às 2:25 de uma madrugada tranquila de sexta-feira, numa rua deserta no interior do sudeste da Pensilvânia, a primeira garota morta saiu de sua geladeira.

Assim começa o conto eyes I dare not meet in dreams, de Sunny Moraine, publicado em junho desse ano no Tor.

A história narra o fenômeno de dezenas, centenas, milhares de garotas mortas saindo de suas geladeiras. Dizem que as geladeiras caíram aqui através de alguma fenda no tecido da realidade. No meio da rua, na beira da calçada, na porta de casa, no corredor de um avião em pleno voo. Garotas mortas por todos os lados. Deixando todo mundo atordoado e desconfortável e sem saber o que fazer porque elas só encaram e ocupam espaço e insistem em existir com seus corpos ensanguentados e putrefatos–exigindo em silêncio que sejam notadas, vistas, reconhecidas. Na morte, ainda que tarde.

Dos 27 comentários na página do conto, logo o primeiro é alguém questionando por que apenas garotas mortas? Por que não garotos? Afinal, eles também são assassinados. E de todos os exemplos que a pessoa poderia dar, ela tira do vórtex da aleatoriedade as vítimas do serial killer Jeffrey Dahmer. Parece mais um comentário arquitetado para descarrilar a seção de comentários para a troca de ofensas do que uma dúvida genuína. Not today, pomo da discórdia, not today. Alguns respondem com calma, explicando que o conto claramente se refere ao tropo das Mulheres na Geladeira (Women in Refrigerators). E, por isso, o foco é em garotas. Como se houvesse a necessidade de um motivo para focar o conto em garotas além da vontade de quem escreveu de focar o conto em garotas.

A história de Sunny foi originalmente escrita para o blog Cyborgology (que sigo no Feedly há tempos e recomendo muito para quem curte ler sobre os impactos sociais de tecnologias). Em suas palavras, o texto era mais um rant do que um conto, nascido do acúmulo de raiva sobre a overdose do tropo das Mulheres na Geladeira em tantas mídias na cultura pop.

Às vezes eu não consigo mensurar até onde estou dessensibilizado para o uso gráfico, desproporcional, desnecessário e sem contrapontos da violência misógina naquilo que leio ou assisto. E naquilo que escrevo. Já escrevi minha parcela de garotas mortas, estupradas, mutiladas, descartadas. Sem realizar o exame necessário na construção dessas narrativas, sem questionar toda cultura de desvalorização e culpabilização internalizadas desde a infância, desde os primeiros assédios, desde que aprendemos que as coisas são assim mesmo e cai em nossas mãos a responsabilidade de criar estratégias de evasão e sobrevivência.

Nunca fui de ler romances policiais. Minha única memória de Agatha Christie foi quandoi li E no final a morte (Death Comes as the End no original em inglês) na adolescência. Lembro de ter escolhido esse livro na biblioteca da escola só porque ele se passava no Egito Antigo. Mas tenho assistido seriados policiais demais. Estou cercado de garotas mortas. E digo garotas em vez de mulheres porque tantas são tão novas em idade. Ou seus cadáveres são dispostos de forma a parecer que uma ingênua estátua disfarçada de gente foi violada, despida, coberta de sangue ou dilacerada da garganta ao umbigo. Inocência maquiada a mãos masculinas, distorcida sob uma visão misógina que não condiz com a realidade de um corpo de mulher autônomo, dono de si, resiliente mesmo quando vulnerável.

Não resisto ao modelo do detetive obcecado com um caso difícil, aparentemente insolúvel, espalhando pistas e referências pelas paredes, rabiscando fotografias e traçando conexões com linhas de costura num mural da piração. Costurando teorias mirabolantes, hipercafeinado até vibrar para uma dimensão paralela. Talvez eu me reconheça um pouco na obsessão. Escorrego no óleo dos trilhos várias vezes ao longo do caminho quando estou absorvido na criação de alguma história que dá nó nos meus miolos. Daí fui à caça de seriados policiais. E me vi cercado de garotas mortas.

Estou farto de tantas garotas mortas.

Também não consigo ficar saciado de tantas garotas mortas.

Os seriados que mais me sacudiram foram aqueles com protagonistas detetives mulheres lidando com os crimes mais brutais contra outras mulheres e, em algum momento da investigação, lidando com tentativas de agressão e assassinato contra elas mesmas. Isso sem falar nos dramas familiares com doses cavalares de relações se despedaçando e solidão e no escrutínio que os olhares masculinos lançam às vidas sexuais das detetives. Destaco The Fall, com Gillian Anderson no papel de Stella Gibson e The Killing, com Mireille Enos no papel de Sarah Linden. Se você quiser ficar destruído que nem eu fiquei, esses dois seriados são o que há de melhor. E estão cheios de garotas mortas. Elas me encaram incessantes. Acho que passei a encarar de volta numa tentativa inconsciente de me comunicar.

 

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