em Ideias

Esse bicho que é a rotina de escrita

Stephen King em seu cantinho da escrita.

O episódio #019: Rotinas de Escrita, do podcast Curta Ficção trouxe um papo bem legal entre Thiago Lee, Jana Bianchi, Rodrigo Assis Mesquita e o autor convidado André Timm.

Muito do que eles falam sobre o mito da inspiração e a necessidade de uma rotina de escrita dialoga com o que escrevi no post A inquietação diferencial da escrita. Então, se você curtiu o post, pode separar 30 min para ouvir esse episódio que será bem proveitoso e divertido.

Para muita gente a rotina é algo detestável que deve ser evitado. Ou uma criatura críptica que só foi avistada em fotografias borradas em preto-e-branco e pertence ao salão da fama do Abominável Homem das Neves e do Chupacabra. Mas ela não é esse bicho de sete cabeças todo. Uma rotina bem estruturada é o alicerce da criatividade. Eu sinto com muita força a falta que ela faz nos meus dias ruins. E o sopro de vida que ela traz quando retorna.

Ainda não consegui firmar uma rotina de fato. Daquelas que você pode dizer que faz as coisas assim e assado há mais de três anos ou período do tipo. Quando penso que engatei numa, o universo enfia uma chave de fenda entre os dentes da engrenagem e descaralha a harmonia toda. Mas quando estou em sincronia, faço escolhas bem conscientes e disciplinadas que caberiam numa rotina. A principal delas é: dormir cedo e acordar cedo. E quando eu falo cedo, é cedo mesmo. Dormir entre 8 e 9 da noite e acordar entre 4 e 4:30 da manhã. Eu sou outra pessoa quando sigo esses horários: me sinto revigorado, bem disposto e minha cabeça funciona com uma clareza e uma agilidade sem igual.

Minha parte favorita de qualquer dia é aquele trecho da manhã antes do sol nascer, que é pra gente se erguer e se iluminar juntos.

Moro com meus pais e tios numa casa bastante barulhenta, agitada, estressada e com um entra e sai constante de gente, entre parentes, vizinhos e clientes dos meus tios. Volta e meia alguém me chama para resolver alguma coisa. Não tenho como fugir de interrupções e a privacidade é zero. Ao longo dos anos aprendi a escrever em meio ao caos. Mas meus momentos solitários e silenciosos de manhã bem cedo ainda são as horas mais preciosas que possuo.

Tenho a vantagem de trabalhar em casa, então posso estruturar meu dia da maneira que quiser, o que também significa que a responsabilidade é toda minha quando sou abocanhado pela besta-fera da procrastinação.

Manter o foco às vezes parece um desafio intransponível. Fico irrequieto de fazer uma coisa de cada vez, embora tenha plena consciência de que fazer uma coisa de cada vez é a única maneira frutuosa de fazer as coisas. Multitasking é a maior bobagem da vertigem contemporânea. Fragmentar a atenção desgasta seu depósito de energia, dissipa ela todinha na fumaça que sai pelas orelhas quando você se estressa porque tá perdido na confusão que você mesmo conjurou.

E ainda assim escrevo pulando entre notas no Evernote (para textos de blogs e newsletters) e abas do Google Docs (para textos de ficção). Acaba funcionando para mim através de alguma mecânica alquímica que foge à minha compreensão.

Rascunhar, desenhar, pintar, inventar em papel também flui com muito mais prazer de manhã cedo. Nos meus melhores dias consigo fazer tudo entre as 4 ou 4:30 da manhã e meio-dia: desenhar e escrever em alternância ou emaranhamento. As tardes são boas para ler. Os fins de tarde combinam melhor com seriados e filmes. Se eu morasse num lugar bacana, tentaria encaixar caminhadas e banhos de rio. Ou sairia com o sketchbook debaixo do braço para algum café e passaria horas no grafite, no nanquim, no conté, na aquarela. Ou levaria um notebook para mergulhar na escrita do livro nos lugares mais diversos e variar um pouco das paredes lilás-azuladas do meu quarto. Eu viveria um romance com meus próprios hábitos.

Acho que a única rotina que sigo religiosamente é sonhar com a rotina ideal.

 

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