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Entendendo a leitura sensível

No dia 30 de junho de 2017 a Folha publicou uma reportagem sobre leitura de sensibilidade chamada Mercado editorial adota função do ‘leitor sensível’ para evitar boicotes, assinada pela jornalista Amanda Ribeiro Marques. Como eu não olho mais timelines de redes sociais, só fiquei sabendo das reações através de comentários de amigos. Para a surpresa de absolutamente ninguém, determinados grupos de autores acharam a coisa toda um absurdo, escorando-se na opinião de que a leitura sensível é um tipo de censura do politicamente correto.

O serviço ainda é relativamente novo ao mesmo tempo em que é algo que sempre existiu no mercado literário antes que fosse compartimentalizado e nomeado como tal. Ainda há uma torrente de dúvidas e desentendimentos sobre a leitura sensível, então resolvi postar alguns esclarecimentos aqui.

A Amanda Ribeiro Marques (que, por sinal, foi muito simpática e mostrou interesse genuíno no assunto) entrou em contato comigo antes da matéria ser publicada para entender melhor como esse serviço funciona aqui no Brasil e quais são minhas opiniões sobre esse papo todo de censura.

Abaixo eu reproduzo as respostas que dei. Modifiquei um pouco as perguntas para se adequarem melhor ao post, adicionei algumas informações às respostas e incluí tuítes de amigos que comentaram o tema nos últimos dias.

Quando comecei a trabalhar como leitor sensível?

De certa maneira, desde que comecei a trabalhar como leitor crítico de ficção em 2012. A partir de 2014, depois que comecei a falar abertamente sobre transgeneridade e não-binariedade, alguns amigos e leitores entraram em contato comigo com dúvidas sobre personagens trans que eles estavam escrevendo ou queriam escrever, receosos de cometer algum erro ofensivo ou reproduzir estereótipos. Em 2015 eu ministrei um minicurso virtual gratuito sobre como escrever personagens trans e, desde então, ofereço meus serviços como leitor sensível para analisar histórias com personagens trans/não-binários e/ou bissexuais, que são as identidades que vivo, além de serem temas que estudo como escritor e artista.

Quando esse tipo de revisão começou a se difundir aqui no Brasil?

Esse tipo de revisão já vem sendo feita há muito tempo dentro dos serviços de leitura beta, leitura crítica e consultoria, mas só nos últimos anos que ganhou o nome de leitura de sensibilidade ou leitura sensível e destacou-se como um serviço à parte. Pelo que observo através do meio literário da ficção especulativa, que é a ficção que escrevo e acompanho mais de perto, a leitura sensível começou a se difundir no Brasil há poucos anos, depois que a autora americana Justina Ireland popularizou o assunto na internet e a discussão no mercado anglófono fluiu para o mercado nacional.

Como bem disse o autor JM Trevisan:

Como funciona o processo de revisão de um manuscrito?

Eu leio a história à procura de problemas de representação quanto ao grupo ou personagem que estou analisando, como perpetuação de discursos de ódio sem motivo relevante para a narrativa, caracterizações estereotipadas, linguagem ofensiva ou problemática que foi incluída sem contraponto ou questionamento, questões desse tipo onde os preconceitos e pontos cegos da escritora transparecem no texto. Ao final, eu escrevo um relatório apontando todos os problemas que encontrei e sugerindo mudanças. Dependendo das questões levantadas pela análise, também posso sugerir fontes de pesquisa sobre o assunto ou outras pessoas para a escritora consultar. O que será mudado no texto, se for mudado, e como será mudado, fica nas mãos da escritora.

Antes de aceitar o trabalho, eu faço questão de garantir que minha análise será essencial para o texto, que aquilo que eu posso oferecer se encaixa nas necessidades do texto e no orçamento da escritora. Por exemplo, uma vez uma escritora quis me contratar para ler seu conto com uma garota trans como protagonista. Eu disse que poderia analisar a representação trans, mas, como pessoa não-binária transmasculina, detalhes importantes sobre a vivência da personagem poderiam me escapar. Então sugeri que ela procurasse também a leitura sensível de uma mulher trans. Ou, se ela tivesse condições de pagar apenas uma leitura, que ela priorizasse a leitura de uma mulher trans.

Qual é o preço médio cobrado por uma revisão desse tipo?

Depende. O site Writing In The Margins, da autora Justina Ireland, que abriga um banco de dados com vários leitores de sensibilidade, recomenda 250 dólares para a leitura de romances (mais de 60 mil palavras). Há muitos leitores que analisam ficção curta, como noveletas e contos, e cobram uma fração desse valor, dependendo do número de palavras do texto. Uma noveleta pode sair a 50 dólares, por exemplo. Para o mercado nacional, para textos escritos em português, o valor em reais é certamente mais barato do que o preço médio em dólares do mercado anglófono.

Eu cobro meus serviços de leitura sensível da seguinte maneira:

Conto (até 8.000 palavras): R$ 80
Noveleta (8.000 até 18.000 palavras): R$ 150
Novela (18.001 até 60.000 palavras): R$ 300
Romance (60.001 palavras ou mais): R$ 500

Outros leitores dividem de maneiras diferentes quanto ao número de palavras. Há leitores que categorizam romance como textos de 40 mil palavras ou mais e outros como textos de 50 mil palavras ou mais, por exemplo, então os valores podem variar bastante de um leitor para outro por causa disso também.

Há outros leitores sensíveis brasileiros?

Sei que há outros brasileiros fazendo esse trabalho no mercado anglófono.

Acho que o mercado para leitores sensíveis no Brasil ainda tá no começo. A própria ideia da leitura de sensibilidade, o que ela é e qual sua importância, é algo que precisa ser divulgado e popularizado. Até serviços que já estão bem estabelecidos no mercado nacional como a leitura crítica e o agenciamento de autores ainda são ideias meio desconhecidas ou confusas para muitos escritores. A leitura sensível ainda é bem nova e estranha para muita gente.

Sei que há leitores que fazem algo do tipo e talvez nem saibam, talvez façam esse tipo de análise durante uma leitura beta ou ajudando amigos escritores. Mas leitores que fazem esse trabalho de forma profissional mesmo, por enquanto só conheço os que atuam no mercado anglófono.

Felizmente a discussão recente animou uma galera muito boa a começar a oferecer esse serviço, como a autora Olivia Pilar (que escreve contos fofíssimos com personagens negras e queer que vão deixar seu coração quentinho).

Qual é a importância do trabalho do leitor sensível dentro da produção literária brasileira?

É ajudar a escritora a criar histórias melhores. O artista é livre para explorar todas as possibilidades que sua imaginação conjurar e isso inclui escrever personagens que fogem ao seu dia-a-dia, às suas experiências pessoais, ao seu círculo de amizades e aos seus limites de classe, profissão, gênero, sexualidade, etnia, o que for. Se o autor quer escrever uma personagem que é uma geofísica trabalhando com prospecção mineral, ele irá pesquisar sobre o assunto e consultar alguém que trabalha com isso. Ele terá que consultar uma mulher geofísica não apenas para saber sobre seu trabaho, mas também para entender a misoginia que ela enfrenta no meio, algo que será crucial para sua personagem. O leitor sensível oferece esse mesmo tipo de ajuda, mas analisando o texto depois que ele está escrito.

Falando da área em que atuo, concordo com a autora Cheryl Morgan quando ela disse num artigo publicado na Strange Horizons que ela rejeita a ideia de que personagens trans devem ser escritos apenas por autores trans porque autores cis estão fadados a errar. Não há autores trans o suficiente no mundo para realizar essa tarefa. E nós merecemos fazer parte de toda ficção, não apenas aquela escrita por nós mesmos. Eu quero que cada vez mais gente, cis e trans, escreva personagens trans. E quero ajudar nessa tarefa sempre que possível, sempre que necessário.

O leitor sensível não é inimigo do autor, nem está à caça de textos problemáticos para destruí-los por esporte. No fim do dia nós temos o mesmo interesse: fazer boa literatura e construir histórias que vão desafiar, instigar e encantar os leitores.

E sobre esse papo de que leitura sensível é censura?

Considerando o histórico violento de repressão política e social em nosso país durante os anos da ditadura, essa comparação é desonesta e ignorante. O Estado não possui um Conselho Secreto de Leitores Sensíveis que aprova ou veta textos literários. O leitor sensível tampouco possui o poder de censurar o trabalho de outra pessoa. Na maioria das vezes o leitor sensível é alguém que pertence a grupos que ainda sofrem uma longa história de opressão sistêmica e institucional, violência e apagamento. Compará-lo à figura do censor, à autoridade que costuma ter as botas sobre seu pescoço, seria irônico, se não fosse absurdo. O autor pode ignorar completamente a análise do leitor sensível e não modificar seu texto. Ou pode aceitar apenas parte das mudanças sugeridas. Se o leitor sensível é contratado por uma editora e o autor não está satisfeito com as transformações sugeridas, ele pode mudar de editora e procurar uma casa editorial que coincida com suas visões. Ou publicar de maneira independente. Não faltam opções. O que o autor precisa entender é que ninguém é obrigado a publicá-lo e ninguém é obrigado a lê-lo. O autor é livre para escrever o que quiser e os leitores são livres para reagir ao texto ou ignorá-lo.

Como resumiu a autora Jana P. Bianchi:

E o autor Eric Novello:

Aqui uma thread da autora Iris Figueiredo sobre o assunto:

A função do leitor sensível é trabalhar em manuscritos de maneira que os autores não machuquem e incomodem seus leitores?

O incômodo é sempre bem-vindo na arte quando ele incomoda o grupo que detém o poder, seja ele econômico, social ou político. A subversão acontece nesse espaço. Se um trabalho de ficção perpetua um discurso de ódio sem questioná-lo, desafiá-lo ou oferecer um contraponto, o texto não faz nada mais do que causar danos a quem o lê e se vê mal representado como uma caricatura de papelão (o imigrante muçulmano terrorista), uma pessoa incompleta (a mulher que existe apenas em função do personagem masculino) ou um estereótipo ofensivo (a mulher negra hipersexualizada que serve ao olhar do homem branco). Isso é literatura preguiçosa, rasa, unidimensional. E pode ter um forte impacto negativo em leitores que crescem com histórias que ignoram sua existência ou que os tratam como criaturas subhumanas ou piadas imaturas. Em contraste, boa representação–feita com inventividade, responsabilidade e o envolvimento de pessoas do grupo representado–trata seus leitores como as pessoas complexas que são, multidimensionais, espertas, engajadas e merecedoras de uma boa história.

Existe um limite para a liberdade de expressão na literatura?

O limite é a vontade da artista. A escritora é livre para escrever e publicar o que ela quiser. Isso não significa que o texto publicado estará isento de ser analisado, questionado, criticado e discutido.

Se eu pudesse responder com uma imagem, responderia com esse quadrinho do XKCD:

Tradução: “Aviso de Utilidade Pública: O direito à liberdade de expressão significa que o governo não pode te prender pelo que você fala. Não significa que todo mundo tem que ouvir as merdas que você diz ou hospedar seu evento. A 1ª Emenda não te protege de críticas e consequências. Se gritam, te boicotam, cancelam seu show ou te banem de uma comunidade na internet, seu direito à liberdade de expressão não está sendo violado. Significa apenas que as pessoas que estavam ouvindo te acham um babaca. E estão te mostrando a porta de saída.”

Para ler mais sobre o tema, recomendo o artigo Is My Novel Offensive? How “sensitivity readers” are changing the publishing ecosystem—and raising new questions about what makes a great book que foi publicado na Slate em fevereiro desse ano.

E como disse o Neil Gaiman, não importa o que aconteça, mesmo que o cosmos entre em colapso ou seu gato exploda em confetes fosforescentes: faça boa arte.

Faça boa arte

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Para me contratar como leitor sensível, clique aqui para saber mais detalhes sobre o serviço e pedir sua leitura.

Também estou com uma promoção de leitura crítica lá no Facebook que vai até o fim de julho.

Qualquer dúvida, pode entrar em contato comigo no Twitter, no Facebook ou por email.

 

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