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Distinta Juventude e meia dúzia de palavras sobre a Geração Y

Fui autora convidada no Quotidianos esse sábado, dia 5. O coletivo de escritores e artistas visuais que eu fiz parte ano passado continua firme e forte agora em 2014 e voltou aos trabalhos recentemente. Meu conto da vez por lá foi uma história de um parágrafo só chamada Distinta Juventude. Mas não se preocupem, tem um TL;DR no final. Saca um trechinho:

Aveline. 20 anos, 4 meses, 13 dias e um borrão de horas esticadas lendo um tópico de creepypasta no Reddit. Sem diploma escolar. Independente à força desde os 16, quando foi empurrada pra fora de casa e tomou uma surra nas ruas estreitas do centro da cidade. Três costelas quebradas e um saco de roupas e livros pendurado no ombro. Uma cabeça afiada demais para um mundo em pedaços. Millennials sim e obrigada, mas não queremos carros, apenas um transporte público sem estupros, por favor. Geração Y. Cromossomos XY. Gênero XX. Linguagem XXX. Ctrl+Shift+N para o Xvideos porque o pc é compartilhado com o colega de quarto que divide as contas.

Clique aqui para ir ao Quotidianos e ler tudo. O conto é ilustrado por Jade Simões.

Meti alguns links ao longo do texto. É para aqueles que gostam de descer para a segunda camada da história e conhecer algumas das referências mais explícitas. Os degraus levam para mais cômodos subterrâneos, se você curte explorar por conta própria e cair de link em link. Recomendo que faça isso. Mas se você é dos que sabem tirar proveito desse tipo de coisa, recomendar é desnecessário. Já tem um porrão de abas abertas aí e você tá esfomeado por mais, que eu sei. Vem cá e me dá um abraço. Bem-vindo ao clube.

É, eu menciono minha geração no conto. Millennials. Tô pra escrever um master post sobre o assunto. Vai demorar. Por enquanto tô no processo de coletar material numa pasta do Evernote, meu hub de pesquisas e rascunhos. O que é só o começo. Pois percebi que – meio sem planejamento – eu já disseco trocentas facetas desse assunto nos meus romances em andamento. Natural, acredito. Afinal, as histórias são contemporâneas – ou em algum brevíssimo futuro incerto – e os protagonistas possuem uma faixa de idade que se encaixa na minha geração. E são marginais a seu próprio jeito. A maioria vivendo ou buscando uma educação alternativa, devo dizer. Algo que me é bastante pessoal e querido, já que larguei a faculdade de vez pra – entre outras razões pessoais e financeiras – ser freelancer e artista fulltime.

Mas até o tal master post sair, eu gosto desse monólogo da Madison Montgomery em American Horror Story: Coven. (Para os que não possuem o contexto da coisa, a personagem é uma bruxa e – nesse momento em particular – ela voltou dos mortos depois de ser assassinada quase que por acidente, but not really).

I am a millennial. Generation Y; born between the birth of AIDS and 9/11, give or take. They call us the global generation. We are known for our entitlement and narcissism. Some say it’s because we’re the first generation where every kid gets a trophy just for showing up. Others think it’s because social media allows us to post when we fart or have a sandwich for all the world to see. But it seems our one defining trait is a numbness to the world. An indifference to suffering.

I know I did anything I could to not feel; sex, drugs, booze. Just take away the pain. Take away my mother and my asshole father and the press and all the boys I loved who wouldn’t love me back. Hell, I was gang raped and two days later I was back in class like nothing had ever happened. I mean, that must have hurt like hell, right? Most people never get over stuff like that and I was like, “Let’s go get Jamba juice!”

I would give everything I have or will ever have just to feel pain again; to hurt. Thank God for Fiona and her herb garden. One advantage of being kind of dead is that you don’t have to sweat warning labels. There was this one brown liquid that I thought made my nipples tingle for a second but I think it was psychosomatic because I polished off the rest of it and didn’t feel shit. I tried every eye of nute and wing of fly until I found something that made me not look like Marilyn Manson anymore.

And that’s the rub of all this, isn’t it? I can’t feel shit. I can’t feel anything. We think that pain is the worst feeling. It isn’t. How could anything be worse than this eternal silence inside of me.

I use to not eat for days or eat like crazy then stick my fingers down my throat. Now no matter how much I binge I can’t fill this hole inside me.

I can’t take it anymore. I think I’m going batshit. I need to do something.

Superficialidades e contexto desmorto do storytelling à parte, esse monólogo é triste pra caralho. Mas a dormência que a Madison fala? É, ela tá bem aí ó. Só que não é com o mundo lá fora. É com a gente mesmo.

Agora, pra levantar os espíritos que eu acabei de estilhaçar, esse tapa aqui:

A Time pode enfiar aquela capa no cu, sabe.

Eu acho é que tem um pessoal com medo do que não entende. Porque tem uma parcela significativa da minha geração construindo sua própria trilha, cortando o caminho com uma machete na mão e uma teia de crowdpower na outra. E o gume da segunda arma é bem mais afiado.

Notas:

1. Se você não tiver tempo para checar todos os links do texto, confira pelo menos o clipe de Disparate Youth, da Santigold. É belíssimo. E se gostar do som, pode baixar os álbuns dessa mulher sem medo, que ela é um sonho. Acho que foi o Lucas Rocha que me apresentou essa artista uns tempos atrás, pela similaridade de estilo com a M.I.A., de quem sou fã. Beijo pro Lucas.

2. O trechinho sobre millennials não quererem carros? É uma parada que li recentemente. Aqui o link pra matéria. Falando por mim, não quero carros mesmo.

3. A mixtape que a Aveline pensa em fazer na história? Estou fazendo lá no 8tracks. Quando ficar pronta, faço um post aqui no blog avisando. Ainda quero criar uma cover art e tal. A mix tá pronta, clique aqui.

4. Semana passada comprei o livro Ilusões Pesadas, de Sacha Sperling. Foi num impulso. Gostei da capa. E dessa pequena entrevista com o autor no blog da Companhia das Letras. O cara favoritou um tuíte meu falando que capturei o livro com uma pokébola. Ainda não li. Quero terminar dois outros livros primeiro. Mas a contracapa do livro diz que o jovem Sacha “cutuca com altas doses de sexo e drogas o sufocante mundinho burguês parisiense”. Yep, I like it already.

5. Eu sei o quanto classificações de gerações são cegas. Cubinhos brancos, bem brancos. Fechados e polidos. Quase sem cheiro. Eu sei o quanto elas excluem a realidade social de um porrão de adolescentes e jovens adultos em outros países. Ou aqui mesmo, vivendo no topo das favelas ou em comunidades ribeirinhas na margem de um rio.

6. Eu sei. É foda, cara. É foda.

Foto de uma loja de roupas com uma placa escrito "Young, Fabulous & Broke".

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