Visita ao Terminal de Links

Arte de Soey Milk.

O pessoal que colabora com R$ 5 ou mais por mês no APOIA.se do Alliahverso tem acesso à Estação Transdimensional do Avesso do Infinito, nosso grupo fechado lá no Facebook. Uma das coisas que posto no grupo é uma seleção quase-semanal de links intitulada Terminal de Links. Já postei mais de 100 links desde o começo do grupo, então resolvi reunir alguns aqui como amostra. Cada post também é ilustrado pela arte de um artista diferente e sempre com o link para os portfolios. Essa arte da Soey Milk aí em cima, por exemplo, eu escolhi para ilustrar o Terminal de Links #01 em 26 de março.

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Bem-vindo/a ao mostruário do Terminal! Cuidado com o espaço entre os degraus somatolográficos. Pode sentar nas nuvens e se conectar sem fios e sem medo que nossa ciberlinfa é criptografada.

Terminal de Links

// Descobri o site/zine Heterotopias pelo Twitter através de uma chamada para submissão de pitches. O foco da revista são textos sobre arquitetura e espaço em jogos eletrônicos e o contexto cultural desses jogos. Como leitor ávido do BLDGBLOG, blog do Geoff Manaugh sobre tecnologias, ecossistemas e futurismos relacionados à arquitetura e paisagens/cenários, imagino que o conteúdo da Heterotopias atinge uma série de intersecções do meu interesse. Ainda não comprei uma edição da revista para conferir (o material do zine é longo e mais experimental do que os posts curtos do site). De qualquer maneira, fica aqui a recomendação. Só os textos do site já são ótimos.

// The Ship Breakers, ensaio fotográfico de navios de carga velhos sendo desmontados e despedaçados.

// Série de tuítes do Guillermo del Toro sobre a criação de monstros.

// Science fiction horror wriggles into reality with discovery of giant sulfur-powered shipworm, matéria do Phys.org.
Eu adoro que essas chamadas do Phys.org já valem a máteria inteira. Se quebrar uns trechos, dá pra compartimentalizar a loucura em contos:
> HORROR WRIGGELS INTO REALITY
> GIANT SULFUR-POWERED SHIPWORM
Não é à toa que o Warren Ellis comentou numa palestra sobre essas headlines serem a prova concreta da realidade científica ter superado o estranho da ficção.

// Show da Andra Day no NPR Music Tiny Desk (13:18 min).
Depois de assistir o show de Tank and the Bangas que a Tassi recomendou aqui no grupo, eu caí no buraco negro de assistir outros shows do Tiny Desk–a lista tem mais de 400 vídeos–e tô recomendando esse da Andra Day porque meu encanto com ela é recente (desde o ano passado). Daí fui ver o canal dela também e me deparei com esse mashup delicioso de He Can Only Hold Her vs. Doo-Wop (Amy Winehouse & Lauryn Hill) que foi postado em 2012.

// ‘Carandiru’ a ‘Prisioneiras’, entrevista com Drauzio Varella no canal do Nexo Jornal (25:06 min).

// PBDB Navigator, site interativo bem legal onde você pode explorar um banco de dados de paleobiologia e ver, por exemplo, quais fósseis foram descobertos em quais localizações geográficas.

// Para entender um pouco mais sobre o clima, nossas ansiedades ecológicas vivendo no antropoceno e o aquecimento global em cinco artigos:
1. The Uninhabitable Earth, artigo longo de David Wallace-Wells na New York Mag que é mais especulação dos horrores do que ciência exata, mas que vale a pena ler por inteiro.
A resposta Do not believe New York Mag’s climate change doomsday scenario, por Andrew Freedman e cientistas que refutaram os erros e exageros do texto.
E este pequeno artigo Stop scaring people about climate change. It doesn’t work., de Eric Holthaus.
2. Short Answers to Hard Questions About Climate Change, artigo de Justin Gillis em formato de perguntas & respostas publicado no The New York Times.
3. ‘A reckoning for our species’: the philosopher prophet of the Anthropocene, artigo longo de Alex Blasdel no The Guardian sobre o Timothy Morton, um dos meus filósofos contemporâneos favoritos (lá no mesmo patamar que considero o Eugene Thacker).

// Clipe da música Stars, de Connie Constance (3:12 min).
Descobri essa cantora recentemente quando pesquisava músicas para montar a playlist de um dos contos que estou escrevendo.

// Canal do artista de xilogravura japonesa David Bull, com vários vídeos que mostram como ele cria as gravuras, do começo ao fim.
As partes dele fazendo os entalhes na madeira são minhas favoritas. Trabalhar com madeira é daqueles ofícios que ainda quero aprender em algum futuro–e tocar bateria, também sempre quis aprender a tocar bateria.

Bônus: remember when abercrombie and fitch hired slavoj zizek to write copy for their back to school catalog.

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Considere virar apoiador/a do Alliahverso e me ajudar a continuar criando mundos estranhos e alucinações coletivas.

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Conto “Curvas batimétricas e outros afetos”, publicado no NUPE

A galere linda do blog Nem Um Pouco Épico publicou Curvas Batimétricas E Outros Afetos, um conto que escrevi para o especial sobre relacionamentos que eles tão fazendo esse mês.

Um trecho:

Era manhã cedo de segunda-feira quando Agni me encontrou ainda de pijamas chorando no sofá da sala.

Ela tinha acabado de voltar de uma corrida, uma visão sempre deslumbrante, sua camiseta grudada no top com o suor brilhando sobre a pele, seus cabelos crespos amarrados no topo da cabeça e o Fitbit Surge abóbora disputando o centro de atenção com o Adidas verde-água. Em dois segundos, ela estava ajoelhada na minha frente, com meu rosto entre suas mãos, enxugando as lágrimas e perguntando o que tinha acontecido. Eu tentei explicar sobre a garrafa branca de 42 Below que alguém da Matilha (nosso grupo de amigos que costumava morar junto – é uma longa história que conto noutra newsletter) deve ter esquecido da festa de ontem, e como eu deveria ter sido capaz de me livrar da vodka sem maiores problemas, mas os dois dedos de bebida restantes visíveis dentro da garrafa me sugaram para um buraco negro de memórias pré-sobriedade e eu tive um ataque de pânico e “não precisa se justificar”, ela me acalmou.

Agni pegou a garrafa, andou até a área de serviço e arremessou a 42 Below pela janela. Eu só ouvi o barulho do vidro se espatifando contra a parede de concreto do prédio vizinho, que está com a construção interditada, e os cachorros da vizinhança largarem a latir numa reação em cadeia.

“Cê podia ter só esvaziado a garrafa na pia”, comentei fungando quando ela voltou triunfante e Agni deu de ombros dizendo que assim ela exorcizava os demônios do apartamento.

A gente vai precisar quebrar a louça toda, pensei. E desatei a rir sozinha até ela me apertar num abraço melecado de suor dizendo que eu precisava de transferência de calor humano (ou um incentivo para tomarmos banho juntas) e me inundar de conforto com um sorriso iluminado.

Leia o conto inteiro no blog.

E se você curte mixtapes, eu fiz uma para cada personagem: Ísis, Agni e Lira/Jake.

O NUPE também já publicou outros dois contos, Status De Relacionamento: Enrolados de Lavínia Rocha, e Conexões de Sofia Soter. Bora seguir que eles vão postar mais histórias! 😀

Fazendo um jogo no Twine em 10 dias

Se você me lê no blog Amanhã Não Vai Existir, cê sabe que eu tenho interesse em ficção interativa, texto digital, jogos baseados em texto, e todas as intersecções desses formatos e suas ferramentas. Tenho uma pasta chamada Twine no meu Evernote onde eu anoto ideias soltas para jogos curtos, ficções que só poderiam funcionar como texto digital, como narrativa interativa, tipografia viva, animada, carregada de energia potencial. Mas eu fico nessa de rabiscar ideias e a coisa nunca descola do talvez-algum-dia-quem-sabe. Então quando o Gumroad anunciou que faria um desafio de brainstormar, criar, e lançar um produto em 10 dias, eu pulei no barco de espada em punho gritando AYE AYE CAPTAIN.

Para quem não conhece, o Gumroad é um site que te dá espaço e ferramentas para vender seus produtos (físicos e digitais) através dele (que fica com uma pequena porcentagem das vendas). A vantagem é que o sistema deles nos oferece uma série de recursos sem cobrar a mais por isso: podemos editar landing pages, perfis, configurar emails automáticos para seguidores e/ou clientes (uma parada que é muito eficiente para converter e que pra usar em serviços como o Mailchimp, por exemplo, temos que pagar).

O nome do desafio é Small Product Lab. Continuar lendo

Saiu resenha nova do Metanfetaedro

Esse sábado a Lady Sybylla, Capitã Cósmica do blog de ficção especulativa Momentum Saga, postou uma resenha para meu livro de contos Metanfetaedro:

Alliah tem um jeito intenso de descrição, muito vívido, colorido, intenso, algumas vezes sendo até repulsivo, tamanho o nível de detalhe em que sua narrativa chega. Você se sente, profundamente, integrado com as sensações dos personagens, com a atmosfera das cidades e com os odores dos corpos, das cidades, dos objetos.

Leia a resenha inteira. Muito obrigado, Sybylla!

É sempre uma boa surpresa quando aparece alguém falando do Metanfetaedro em 2015, porque o livro saiu em 2012 e eu tenho essa noção (impulsiva, sem nenhum embasamento) de que obras de nicho publicadas por editoras pequenas têm uma vida curtinha e depois evaporam para o éter.

Ou pode ser só uma insegurança moleca mesmo.

Sabe que não lembro a última vez que reli o Metanfetaedro? Rola um medinho. Tava comentando lá no twitter esses dias. Ainda gosto muito do que escrevi naqueles contos, mas hoje percebo o quanto o livro é afobado—e entendo isso no contexto d’eu ter escrito aquelas histórias com 19/20 anos e publicado com 21. As entrelinhas são bem pessoais também. Há um pouco de autobiográfico aqui, e um muito ali—o conto do Jardim de Nenúfares Suspensos, que escrevi imediatamente após receber a notícia da morte de um amigo, que me fez repensar minha própria mortalidade e meu histórico suicida. Acho que ainda não tenho conhecimento do escopo de eviscerações emocionais que meti naquele livro. Talvez mais alguns anos de distanciamento e eu posso voltar àqueles mundos hiperfractais.

Se você quiser comprar um exemplar, só me pedir por email. Tá R$35 com frete incluso para qualquer lugar do país. Mais dedicatória e autógrafo. Posso mandar também para endereços internacionais, mas nesse caso a gente negocia o valor do frete.

Ah, e ainda tenho exemplares do livro Paradigmas Definitivos também. Esse sai por R$25. Só mandar email.

Distinta Juventude e meia dúzia de palavras sobre a Geração Y

Fui autora convidada no Quotidianos esse sábado, dia 5. O coletivo de escritores e artistas visuais que eu fiz parte ano passado continua firme e forte agora em 2014 e voltou aos trabalhos recentemente. Meu conto da vez por lá foi uma história de um parágrafo só chamada Distinta Juventude. Mas não se preocupem, tem um TL;DR no final. Saca um trechinho:

Aveline. 20 anos, 4 meses, 13 dias e um borrão de horas esticadas lendo um tópico de creepypasta no Reddit. Sem diploma escolar. Independente à força desde os 16, quando foi empurrada pra fora de casa e tomou uma surra nas ruas estreitas do centro da cidade. Três costelas quebradas e um saco de roupas e livros pendurado no ombro. Uma cabeça afiada demais para um mundo em pedaços. Millennials sim e obrigada, mas não queremos carros, apenas um transporte público sem estupros, por favor. Geração Y. Cromossomos XY. Gênero XX. Linguagem XXX. Ctrl+Shift+N para o Xvideos porque o pc é compartilhado com o colega de quarto que divide as contas.

Clique aqui para ir ao Quotidianos e ler tudo. O conto é ilustrado por Jade Simões.

Meti alguns links ao longo do texto. É para aqueles que gostam de descer para a segunda camada da história e conhecer algumas das referências mais explícitas. Os degraus levam para mais cômodos subterrâneos, se você curte explorar por conta própria e cair de link em link. Recomendo que faça isso. Mas se você é dos que sabem tirar proveito desse tipo de coisa, recomendar é desnecessário. Já tem um porrão de abas abertas aí e você tá esfomeado por mais, que eu sei. Vem cá e me dá um abraço. Bem-vindo ao clube. Continuar lendo

“Não é homofobia, mas…”

Essa segunda saiu um episódio novo do podcast feminista We Can Cast It, capitaneado por Aline Valek e Gizelli Souza. O episódio – com Clara Averbuck de convidada – fala sobre representação e visibilidade de mulheres na literatura, mulheres como escritoras e personagens. O papo é excelente e tem uma trilha sonora bem gostosinha. Mas o que quero destacar aqui é um post de Olivia Maia que foi citado na conversa, chamado Ser escritora. Quero destacar dois parágrafos, mas leia o texto inteiro no site da autora, que é um tapa muito bem dado:

ora, porque a maioria dos protagonistas da literatura universal são sempre homens, de forma que o normal da literatura é o protagonista homem, e toda protagonista mulher precisa ser justificada, estar ali para provar alguma coisa ou demonstrar qualquer questão muito exclusivamente feminina. ela não pode ser mulher simplesmente porque nasceu assim, cazzo, e o livro não precisa ser sobre questões femininas, como se todo livro com um protagonista homem fosse sobre questões masculinas.

o foda de ser escritora mulher é o tempo todo precisar se justificar. dizer que aquela personagem não é seu alter-ego. é cansar de fazer personagens homens, para se desviar desse monte de dedo apontado. e afinal também esses a gente tem que justificar, e até parece que uma escritora mulher poderia escrever de forma convincente sobre um homem.

Essa realização é tão verdadeira que dói. E assim que eu li essas palavras, percebi que algo bastante similar acontece com personagens queer. Continuar lendo