Um Meteoro No Meu Epitáfio

Pensando naqueles dias em que acordo no aguardo do meteoro cair em nossas cabeças, vou deixar aqui esse trecho de calamidade cósmica:

Você não precisa procurar muito para achar predições assustadoras de um holocausto global causado por asteroides. Isso é bom, porque a maioria do que você já deve ter visto, lido, ou ouvido é verdade.

As chances de que a minha ou a sua lápide terá um ‘morto por asteroide’ são as mesmas de que ela terá um ‘morto num acidente de avião’. Aproximadamente duas dúzias de pessoas morreram atingidas por asteroides nos últimos 400 anos, mas milhares pereceram em quedas de avião durante a breve história da viagem aérea. Então como essa estatística comparada pode ser verdade? Simples. O registro de impactos mostra que ao final de 10 milhões de anos, quando a soma de todas as quedas de avião tiverem matado um bilhão de pessoas (assumindo uma taxa de morte-por-avião de 100 por ano), um asteroide é mais provável de ter atingido a Terra com energia suficiente para matar um bilhão de pessoas. O que confunde a interpretação é que enquanto aviões matam algumas pessoas por vez, nosso asteroide pode não matar ninguém por milhões de anos. Mas quando ele cair, vai tirar milhares de milhões de vidas instantaneamente e muitas outras milhares de milhões no começo de uma revolta no clima global.

A taxa combinada de impactos de cometas e asteroides no sistema solar primitivo era espantosamente alta. Teorias e modelos de formação de planetas mostram que o gás quimicamente rico se condensa para formar moléculas, entao partículas de poeira, e então rochas e gelo. Depois disso, é um tiroteio. Colisões servem como meio para forças químicas e gravitacionais ligarem objetos menores em objetos maiores. Aqueles objetos que, por sorte, aglutinarem um pouco mais de massa do que a média terão gravidade ligeiramente maior e atrairão outros objetos ainda mais. Conforme a acreção continua, a gravidade molda bolhas em esferas e planetas nascem. Os planetas mais massivos possuíam gravidade suficiente para reter envelopes gasosos. Todos os planetas continuam a aglutinar pelo resto de seus dias, mas em taxas significativamente menores do que quando se formaram.

Ainda assim, bilhões (provavelmente trilhões) de cometas permanecem no extremo distante do sistema solar, até mil vezes o tamanho da órbita de Plutão, e são suscetíveis a cutucões gravitacionais de estrelas passageiras e nuvens interestelares que os colocam numa longa jornada interior em direção ao Sol. Os restos do sistema solar também incluem cometas curtos, dos quais sabe-se que vários cruzam a órbita da Terra, e milhares de asteroides que fazem o mesmo.

O termo ‘acreção’ é menos efetivo que ‘impacto destruidor-de-ecossistemas-e-matador-de-espécies’. Mas do ponto de vista da história do sistema solar, os termos são os mesmos. Nós não podemos estar simultaneamente felizes que vivemos num planeta; felizes que nosso planeta é quimicamente rico; e felizes que não somos dinossauros; porém ressentir o risco de uma catástrofe planetária. Parte da energia de colisões de asteroides com a Terra é liberada em nossa atmosfera através de fricção e numa ruptura de ondas de choque. Estrondos sônicos são ondas de choque também, mas eles são normalmente criados por aviões com velocidades entre uma e três vezes a velocidade do som. O pior dano que eles podem causar é uma sacudida nos pratos do armário da sua cozinha. Mas com velocidades de mais de 70 mil quilômetros por hora—quase setenta vezes a velocidade do som—as ondas de choque da colisão entre um asteroide e a Terra podem ser devastadoras.

Se o asteroide ou cometa é grande o suficiente para sobreviver suas próprias ondas de choque, o resto de sua energia é depositada na superfície da Terra num evento explosivo que derrete o solo e explode uma cratera que pode medir vinte vezes o diâmetro do objeto original. Se muitos objetos celetes caíssem com intervalos curtos a cada evento, a superfície da Terra não teria tempo suficiente para esfriar entre os impactos. Nós inferimos a partir do registro imaculado de crateras na superfície da Lua (nosso vizinho mais próximo no espaço) que a Terra passou por uma era de bombardeamento pesado entre 4.6 e 4 bilhões de anos atrás. A evidência fóssil de vida mais antiga data de aproximadamente 3.8 bilhões de anos atrás. Não muito antes daquilo, a superfície da Terra era impiedosamente estéril, então a formação de moléculas complexas, e portanto vida, era inibida. Apesar dessas más notícias, todos os ingredientes básicos estavam sendo entregues.

LENDO: Death by Black Hole: And Other Cosmic Quandaries, de Neil deGrasse Tyson. Publicado em 2007 pela W.W. Norton.

A Névoa Seca Que Cobre o Sudeste Asiático Há 20 Anos

Nota: Este post foi originalmente publicado no blog Cais, que não existe mais. Todos os posts de lá foram transferidos para cá do jeito que foram postados.

O sudeste da Ásia sofre há 20 anos com uma névoa seca proveniente de diversas fontes tão turvas quanto o futuro da solução desse problema. Entre os focos da poluição do ar há o fluxo intenso de emissões originadas em veículos e fábricas na China e na Índia; e queimadas na Indonésia para limpar terrenos para cultivo, mas que podem acabar destruindo plantações de produtores locais.

As emissões de uma queimada dependem da composição da turfa, da temperatura do fogo e do seu efeito no solo. Mas esses detalhes ainda não são disponibilizados pela Indonésia, cuja turfa cobre uma área do tamanho do Reino Unido. Por causa disso, disse Kuwata, “nós não temos um levantamento confiável” sobre as queimadas no país. Kuwata queima amostras da turfa indonésia em seu laboratório, na Singapura, para estudar suas propriedades químicas; no entanto, seu estudo é limitado, pois ele nunca tem certeza se suas experiências retratam a realidade.

Na matéria Por que o Sudeste Asiático está coberto de fumaça?, publicada em português na Gizmodo Brasil, o jornalista Mike Ives conta as muitas histórias cobertas pela fumaça, e o que políticos e ativistas estão fazendo para buscar soluções em meio aos desafios políticos do Sudeste Asiático, onde os integrantes da ASEAN tendem a ver o desenvolvimento econômico, a soberania nacional e a não-interferência mútua como prioridades.

É dentro desse cenário que Tan Yi Han, o consultor financeiro de Singapura e ativista autodidata, está tentando incentivar a discussão sobre a névoa. No começo de 2014, ele criou uma organização chamada Movimento do Povo Contra a Névoa, ou MP Névoa, para fomentar esse debate. “Eu sinto que precisamos de mais influência”, disse Tan em uma reunião da MP Névoa realizada num domingo à noite. A reunião só contava com outro participante: Putera Zenata, um professor indonésio que se juntou ao grupo após ler sobre o projeto de Tan na internet. O local de encontro era o apartamento modesto de Zenata em um bairro de classe média de Singapura.

Além dos prejuízos econômicos, os efeitos da fumaça podem ser devastadores para a saúde pública tanto local quanto de regiões vizinhas, já que a poluição não respeita barreiras geográficas.

Rajasekhar Balasubramanian, um engenheiro ambiental que estuda a névoa seca na Universidade da Singapura, especula que a exposição prolongada à episódios da névoa pode piorar a saúde geral da população, mesmo que as pessoas continuem a viver por muitos anos. Em um estudo de 2013, ele e seus colegas descobriram que o ar de Singapura durante um episódio de névoa seca continha arsênico, crômio, cádmio e outros elementos cancerígenos. Eles estimam que, em níveis de poluição comuns, cerca de 12 pessoas a cada milhão desenvolverão algum tipo de câncer; no entanto, se o país ficasse coberto pela névoa por 10 dias todo ano, o número de casos de câncer poderia dobrar.

Leia Por que o Sudeste Asiático está coberto de fumaça?.

A matéria foi publicada originalmente em inglês na Mosaic, e republicada traduzida na Gizmodo Brasil sob uma licença Creative Commons.

Leia também as referências (em inglês) citadas na matéria original:

Who started the fire? Burning peatlands may be the cause of South-east Asia’s haze, but who’s to blame?.

A research paper estimating global mortality attributable to smoke from landscape fires. Published in the journal Environmental Health Perspectives in 2012.

‘Wildfire Research Confirms Health Hazards of Peat Fire Smoke’ – a 2011 article from the US Environmental Protection Agency.

Bissexualidades e Bifobias

Nota: Este post foi originalmente publicado no blog Cais, que não existe mais. Todos os posts de lá foram transferidos para cá do jeito que foram postados.

A Jarid Arraes escreveu uma ótima matéria sobre bissexualidade e relacionamentos abusivos para a Revista Fórum. Jarid entrevistou Paulo Cesar Góis (@themoonymoons), integrante do coletivo Bi-Sides (@bi_sides), e Amanda Bastos, integrante do Coletivo Guarda-Sol (@GuardaSol_RJ). O texto foca em desmistificar os discursos que promovem apagamento das pessoas bissexuais e as agressões psicológicas que elas sofrem em seus relacionamentos.

“Quando um homem, em particular hétero, diz que gosta que a companheira seja bi, é um passo rumo a objetificação e a hipersexualização”, alerta Bastos. “Há bifobia aí quando essa expectativa de que a mulher bi sempre quer sexo é quebrada. A partir daí vem a deslegitimação, aparecem as desconfianças de que o homem será trocado, surgem as perguntas mais invasivas sobre experiências anteriores com outros homens e, em particular, com mulheres. Já estive nessa posição em que o homem – não consigo chamar de parceiro, porque nunca houve de fato uma cumplicidade – está na relação e começa a hipersexualizar, conta para os amigos se gabando e, quando a expectativa é frustrada, começa o processo de deslegitimação, de questionar se eu sou de fato bi, como se eu devesse provar algo. Quando a bifobia aparece em um relacionamento afetivo-sexual, inevitavelmente deixa marcas. Para mim, essas marcas foram mais profundas do que a bifobia do dia-a-dia”, relata.

A matéria também ressalta a interseccionalidade de opressões que se inserem nas bifobias:

O militante ainda explica a necessidade de se compreender a interseccionalidade entre questões como gênero, raça e classe econômica. São diversos os fatores que podem gerar vivências específicas de bifobia, onde ainda existe o racismo, a transfobia e a misoginia. “As mulheres, por exemplo, experienciam uma forma de bifobia mesclada ao machismo e à misoginia que não atinge homens cis bissexuais”, exemplifica.

Esse cruzamento de problemáticas é um aspecto que me preocupa em especial. Já comentei em outros espaços e vou repetir aqui: até o ano passado eu não fazia ideia que podia me identificar como bissexual mesmo não sentindo atração por homens. E isso veio a partir do meu entendimento de que existe uma quantidade infindável de gêneros, não apenas o sistema binário de homem e mulher. Enquanto pessoa trans de gênero fluido, minha sexualidade se encaixa no guarda-sol bissexual pois sinto atração por mulheres e pessoas não-binárias. Chegar a essa paz de identidades foi um alívio incomensurável.

Leia o texto Bissexualidade e relacionamentos abusivos e compartilhe.

Leia também “O B de LGBT poderia significar ‘banana’ que ninguém se importaria”, outra matéria sobre bissexualidade feita por Jarid Arraes, publicada em 22 de Janeiro desse ano:

A mídia carrega grande responsabilidade pelo apagamento bissexual. “Recentemente, o desenho *Avatar: A Lenda de Korra* retratou um casal de mulheres bissexuais (envolvendo a protagonista, que inclusive não é branca!) e, se de um lado o público hétero via ‘apenas amigas’ e nos chamava de exagerados, do outro a pressão para dizer que elas eram lésbicas durou até que os próprios autores da série disseram que são bissexuais de fato e que, sim, a gente existe”, conta Góis. “Mas imaginemos que isso não aconteça, afinal, pouquíssimos autores se posicionam sobre isso: continuaríamos achando que as personagens são héteros ou lésbicas quando na verdade são bissexuais. E isso acontece em grande escala, não só em ficção como no mundo real, nos deixando sem exemplos positivos”.

Ler Antes de Ler

Eu me encontrei lendo mais um texto sobre o livro The Argonauts, de Maggie Nelson, através de um link da newsletter de hoje do Literary Hub. (Eles têm uma seleção diária recheada de recomendações de leitura com não-ficção, ficção, e notícias do rolê literário). Eis o trecho do artigo Is Radical Queerness Possible Anymore? Poet Maggie Nelson’s New Memoir, de Christian Lorentzen, que me chamou a atenção:

O título vem de uma passagem em Roland Barthes by Roland Barthes: o crítico francês escreve que alguém que diz ‘Eu te amo’ é como ‘o Argonauta renovando seu barco durante a viagem sem mudar o nome do barco.’ Então o Argo é sempre o Argo não importa quantas partes foram trocadas, e, de acordo com Barthes, ‘a própria tarefa do amor e da linguagem é dar a alguém e às mesmas inflexões de frase aquilo que será sempre novo.’ É uma marca do estilo intelectual de Nelson que ela toma apenas aquilo que precisa da ideia do Argonauta—isto é, a ideia de Barthes sobre o barco de Jasão–e deixa o resto do mito de Argo de lado. Não há expedição pelo Velo de Ouro em seu livro, nem Orfeu, Héracles, ou Filoctetes entre seus Argonautas, certamente nenhuma Medeia na história.

É o terceiro texto sobre esse livro que leio. E o livro mesmo eu ainda não botei as mãos–ou a seta, porque quando eu pegar, vai ser um ebook. Mas fiquei pensando nesse costume que eu tenho de ler artigos, resenhas, entrevistas, críticas, antes de ler a obra em questão. Continuar lendo

Um Manifesto do Leitor

Grant Snider postou um quadrinho novo hoje entitulado A Reader’s Manifesto (Um Manifesto do Leitor), que ele fez para o jornal colombiano El Espectador. A série Incidental Comics de Snider possui uma estrutura e um traço muito particulares (e prontinhos para caber num poster e sharear pelas interwebz), e ele aborda com frequência e com maestria os prazeres bibliófilos, mas o que me fez adicionar o blog na minha pastinha de webcomics do Feedly é a sensibilidade de seu texto.

O quadrinho do Manifesto do Leitor diz:

Eu gosto de livros grandes com palavras longas. Livros pequenos com palavras curtas. Livros ilustrados sem nenhuma palavra. Livros do futuro com novas palavras. Eu leio livros em tardes ensolaradas. Em manhãs chuvosas. Em noites insones. No meio de conversas. Eu uso livros como portais para um mundo novo. Como oportunidades para conhecer pessoas novas. Como escadas para novo conhecimento. Como peso de porta, peso de papel, e espanta-moscas. Eu procurarei livros novos. Lerei os que eu já tenho (algum dia). Emprestarei meus livros para outras pessoas. E sonharei com livros que ainda não foram escritos.

Assino embaixo.

Corpos de Autoteoria

“Eu quero começar com a palavra ‘autoteoria’, que você introduz logo no começo de The Argonauts,” diz Micah McCrary no começo de sua entrevista com a escritora Maggie Nelson para o Los Angeles Review of Books. “Como você espera que seus leitores vão interpretar esse conceito?”

Eu roubei esse termo do maravilhoso “Testo Junkie”, de Paul Preciado. Eu não sei de outros lugares em que o termo tenha aparecido. Eu tô sempre procurando por termos que não são ‘memória’ para descrever a escrita autobiográfica que excede as fronteiras do ‘pessoal’, e já que esse livro tem mais teoria que outros livros meus, parecia uma descrição adequada, mesmo que sua forma, ou seu investimento particular em teoria, seja bem distinto do experimento de Preciado. Eu me emocionei e senti uma tremenda afinidade com as linhas iniciais de Testo Junkie, que são:

“Esse livro não é uma memória. Esse livro é um protocolo de intoxicação voluntária baseado em testosterona, que diz respeito ao corpo e às influências de BP. Um corpo-ensaio. […] Se as coisas precisam ser empurradas ao extremo, isso é uma ficção somato-política, uma teoria do si-mesmo, uma autoteoria.”

Eu senti que “The Argonauts” seria um projeto similar, não em termos de ser um protocolo baseado em T, mas em relação a esse mapeamento dos vetores e vicissitudes de meu próprio corpo: seu ângulo na direção de meu amade Harry, suas experiências de carregar e cuidar de uma criança, e assim em diante.

Eu me encontro num conflito perpétuo com minhas próprias linguagens do português brasileiro e seus dialetos e seu brasinglês para conseguir falar do si-mesmo que habita minha carne–e nem termos apropriados para a carne eu ainda tenho. Continuar lendo