Leituras de Fevereiro/2017

Eu costumava ler boa parte dos meus ebooks no aplicativo pra PC do Kindle (não tenho o aparelho). Era o aplicativo que eu achava mais confortável. Quando eu tinha opção de baixar .mobi ou .epub, sempre escolhia .mobi. Até que por algum motivo desconhecido, o aplicativo parou de funcionar. Cheguei a entrar em contato com o suporte técnico da Amazon, mas eles também não tinha a solução. Resultado: abandonei o aplicativo pra PC do Kindle e passei a ler ebooks no Icecream, que eu demorei pra pegar o gosto, mas tá indo. E os ebooks que adquiri pela Amazon, leio no aplicativo pra web.

Eu tinha planejado ler uma série de livros sobre violência em fevereiro e, como vários outros planejamentos que faço na vida, esse também não foi pra frente porque eu mesmo me atropelei com outras leituras abusadas que furaram a fila. Entre elas os livros do Wolfram e do Gleick, que comecei a ler ao mesmo tempo em que comecei a assistir as aulas de um curso de dinâmica não-linear.

Quebrando o ritmo de janeiro, quando li 12 livros, em fevereiro eu completei zero livros. Então essa breve lista será a das leituras em andamento e dos artigos recomendados.

Leituras em andamento

A New Kind of Science, de Stephen Wolfram. Livro de não-ficção. Publicado por Wolfram Media, 2002. [Goodreads] [Amazon]
Chaos: Making a New Science, de James Gleick. Livro de não-ficção. Publicado por Open Road Media, 2011. [Goodreads] [Amazon]
> Molecular Red: Theory for the Anthropocene, de Kenneth McKenzie Wark. Livro de não-ficção. Publicado por Verso, 2015. [Goodreads] [Amazon]
> Everything Change: An Anthology of Climate Fiction, org. Manjana Milkoreit, Meredith Martinez e Joey Eschrich. Vários autores. Livro de contos. Publicado por ASU Imagination and Climate Futures Initiative, 2016. Disponível gratuitamente aqui. [Goodreads]

Outras leituras

Seleção dos melhores artigos em revistas/jornais e posts em blogs que li durante o mês

Português:
> Vergonha da Dívida – A real sobre o endividamento: quanto mais se tenta esconder, mais ele cresce. Matéria de Juliana Carpanez. Publicado no TAB UOL.
> Oh My Glob! A não tão amável Princesa Caroço, texto de Nicoli Saft. Publicado no Headcanons em 7 de fevereiro, 2017.
> Na polêmica sobre turbantes, é a branquitude que não quer assumir seu racismo. Artigo de Ana Maria Gonçalves. Publicado no The Intercept Brasil em 15 de fevereiro, 2017.
> Para compreender o riso. Artigo de Camila Von Holdefer. Publicado no Blog do IMS em dezembro, 2016.

Inglês:
> One Girl In The Justice League, ensaio de Tansy Rayner Roberts. Publicado no Book Smugglers em 23 de janeiro, 2017.
> On Truth, Values, Knowledge, and Identity in 2017 and Beyond, de Damien Williams. Publicado em seu blog A Future Worth Thinking About em 7 de fevereiro, 2017.
> Bad things happen for a reason, and other idiocies of theodicy, ensaio de Sam Haselby. Publicado no Aeon em 31 de janeiro, 2017.
> Immaculate Heart, ensaio de Kiki Petrosino. Publicado na Poetry Magazine em 9 de fevereiro, 2017.
> Manic Pixie Cam Girls, artigo de PJ Patella-Rey. Publicado em 23 de janeiro, 2017.
> Hearing Things, ensaio de Kastalia Medrano. Publicado na Real Life em 18 de janeiro, 2017.
> The Dying Russians, matéria de Masha Gessen. Publicado no The New York Review of Books em 2 de setembro, 2014.
> None Dare Call It a Conspiracy: Who was behind the Moscow apartment bombings that accelerated Vladimir Putin’s rise to power?, matéria de Scott Anderson. Publicado no Longform (reprint da GQ, setembro de 2009).
> What Almost Every Outbreak Story Gets Wrong, artigo de Leyla Mei. Publicado na Motherboard em 24 de fevereiro, 2017.
> Rule by Nobody: Algorithms update bureaucracy’s long-standing strategy for evasion. Artigo de Adam Clair. Publicado na Real Life em 21 fevereiro, 2017.

Outra leitura importante de fevereiro foram os dois primeiros capítulos do livro Wonder Woman: Warbringer, da Leigh Bardugo, que será lançado no final do ano. Disponível para ler online aqui.

Leituras de Janeiro/2017

Estou recuperando o ritmo de leitura de literatura que eu havia perdido desde meados de 2014 e estou bem feliz. Nesse janeiro de 2017 eu consegui não só me concentrar nos textos, mas me divertir e me satisfazer com eles–diferente do ano passado quando eu me arrastava por várias leituras fragmentadas e não-concluídas enquanto devorava quadrinhos e nada grudava muito tempo na memória.

Vamos à lista.

Não sou de fazer resenhas porque não gosto de escrever sobre uma obra tendo que me preocupar em não dar spoilers. Nos próximos dias postarei notas e observações sobre algumas das leituras.

O link do Goodreads vai te levar até a página do livro na minha estante do Goodreads, onde às vezes eu posto breves comentários e, ao final, sempre dou um número X/5 de estrelas para o livro.

Livros de ficção

> A Casa de Vidro (As Estações #1), de Anna Fagundes Martino. Novela. 78 páginas. Publicado por Dame Blanche, 2016. [Goodreads] [Amazon]
> Beleza Perdida, de Amy Harmon. Traduzido por Monique D’Orazio. Romance. 332 páginas. Publicado por Verus, 2015. [Goodreads] [Amazon]
> Trasgo #12, org. Clara Madrigano. Várias autoras. Revista de contos. 103 páginas. Disponível gratuitamente aqui. [Goodreads]
> Gutshot, de Amelia Gray. Livro de contos. 224 páginas. Publicado por FSG Originals, 2015. [Goodreads] [Amazon]
> A Cabeça do Santo, de Socorro Acioli. Romance. 176 páginas. Publicado por Companhia das Letras, 2014. [Goodreads] [Amazon]
> Stone Butch Blues, por Leslie Feinberg. Romance. 386 páginas. Disponível gratuitamente aqui. [Goodreads]

Abandonado:
> Biofobia, de Santiago Nazarian. Romance. Publicado por Record, 2014. Larguei lá pelos 20% achando o protagonista babaca demais e a prosa um monte de boas oportunidades desperdiçadas por clichês.

Comecei a ler em janeiro e ainda não terminei:
> Everything Change: An Anthology of Climate Fiction, org. Manjana Milkoreit, Meredith Martinez e Joey Eschrich. Vários autores. Livro de contos. Publicado por ASU Imagination and Climate Futures Initiative, 2016. Disponível gratuitamente aqui. [Goodreads]

Contos disponíveis online

> When She Comes, de Onu-Okpara Chiamaka. Publicado na Apex Magazine, 2016.
> Hungry Daughters of Starving Mothers, de Alyssa Wong. Publicado na Nightmare Magazine, 2015.
> The Flesh Interface, de Mother Horse Eyes. Publicado na Terraform, 2016.
> The Lady of the House of Love, de Angela Carter. Publicado na Recommended Reading da Electric Lit, 2015.

Quadrinhos

> Supergirl: Being Super. #1. Texto de Mariko Tamaki e arte de Joëlle Jones.
> Wonder Woman (Rebirth). #5-#15. Texto de Greg Rucka e arte de Liam Sharp (#5, #7, #9, #11, #15), Nicola Scott (#6, #10, #12, #14), Bilquis Evely (#8) e Renato Guedes (#13).
> Superman (Rebirth). #1-#5. Texto de Peter J. Tomasi e arte de Mick Gray (#1-#4), Patrick Gleason (#1-#4),  Jaime Mendoza (#5) e Doug Mahnke (#5).

Livros de não-ficção

> The Brexit Crisis: A Verso Report. Vários autores. Livro de ensaios. 187 páginas. Publicado por Verso, 2016. [Goodreads]
> Por que gritamos Golpe?: Para entender o impeachment e a crise política no Brasil (Coleção Tinta Vermelha), org. Ivana Jinkings, Kim Doria e Murilo Cleto. Vários autores. Livro de ensaios. 176 páginas. Publicado por Boitempo, 2016. [Goodreads] [Amazon]
> Men Explain Things to Me, de Rebecca Solnit. Livro de ensaios. 130 páginas. Publicado por Haymarket Books, 2014. [Goodreads] [Amazon]
> Smarter Than Us: The Rise of Machine Intelligence, de Stuart Armstrong. Livreto. 53 páginas. Publicado por Machine Intelligence Research Institute, 2014. [Goodreads] [Amazon]
> Emergência – Este livro pode Salvar sua Vida, de Neil Strauss. Traduzido por Bruno Casotti. Livro jornalístico/Guia de sobrevivência. 396 páginas. Publicado por Best Seller, 2011. [Goodreads] [Amazon]
> Post-Scarcity Anarchism, de Murray Bookchin. Livro de ensaios. 308 páginas. Publicado por Black Rose Books, 1986. [Goodreads] [Amazon]

Comecei a ler em janeiro e ainda não terminei:
> Molecular Red: Theory for the Anthropocene, de Kenneth McKenzie Wark. Publicado por Verso, 2015. [Goodreads] [Amazon]
> 10 Dias Que Abalaram o Mundo, de John Reed. Publicado por Penguin-Companhia, 2010. [Goodreads] [Amazon]

Outras leituras

Seleção dos melhores artigos em revistas/jornais e posts em blogs que li durante o mês

Português:
> ‘Despreparo do homem heterossexual branco para lidar com fracasso o leva à violência’, entrevista com Eric Madfis por André Cabette Fábio. Publicado no Nexo em 8 de janeiro, 2017.
> A revolução brasileira de Antonio Callado, por Camilo Rocha. Publicado no Nexo em 10 de janeiro, 2017.
> Documentos da Cruz Vermelha revelam massacre de indígenas na ditadura, por Jamil Chade. Publicado na Agência Pública em 24 de outubro, 2016.

Inglês:
> The Shame of Work: Review of “The Refusal of Work: The Theory and Practice of Resistance to Work”, by David Frayne. Artigo de John Danaher. Publicado no The New Rambler em 14 de novembro, 2016.
> A Smuggling Operation: John Berger’s Theory of Art, por Robert Minto. Publicado no Los Angeles Review of Books em 2 de janeiro, 2017.
> The Spiritual Crisis of the Modern Economy: The main source of meaning in American life is a meritocratic competition that makes those who struggle feel inferior, por Victor Tan Chen. Publicado no The Atlantic em 21 de dezembro, 2016.
> M. Lamar on being your own genre, entrevista por T. Cole Rachel. Publicado no The Creative Independent em 13 de janeiro, 2017.
> I Can’t Save My Son From The Anxiety I’ve Passed On To Him, de Kevin Wilson. Publicado no Buzzfeed em 23 de janeiro, 2017.
> An Open Letter to My Sister, Miss Angela Davis, por James Baldwin. Publicado no The New York Review of Books em 7 de janeiro, 1971.
> Beyond Walking and Talking: A Post-March Postmortem with Portland Women’s March Organizer Margaret Jacobsen, entrevista por Andi Zeisler. Publicado na Bitch em 25 de janeiro, 2017.
> I’m Trying to Wreck Your Mind, That’s All, por Stacy Szymaszek. Publicado na Poetry Foundation em 16 de janeiro, 2017.
> The Full Text of ‘Bad Feminist’ Author Roxane Gay’s WI12 Speech. Transcrição da palestra de Roxane Gay, publicada na Publishers Weekly em 31 de janeiro, 2017.

Não sei como consegui ler isso tudo ao mesmo tempo em que li 80 quilômetros de fanfic (muita coisa de Lena/Kara e algumas de Root/Shaw), sem falar na horda de newsletters que eu assino. Também passei um bom tempo na Stanford Encyclopedia of Philosophy lendo sobre estética e existencialismo.

Para fevereiro as leituras que tenho planejadas são textos sobre violência (que marquei nessa tag no Goodreads). Pesquisa para um livro que estou escrevendo. Se você tiver recomendações sobre material de leitura ou vídeos sobre o tema, me manda lá no twitter.

Mães Literárias

Assino no Feedly um blog/tumblr chamado Literary Mothers (atualização: o tumblr não existe mais), uma coleção de pequenos ensaios sobre escritoras que influenciaram a vida de leitores. São textos curtos, recheados de sensibilidade e bem delicinhas de ler. Dentre os ensaios mais recentes, Caledonia Kearns escreve sobre Nora Ephron, Cora Currier escreve sobre Elizabeth Bishop, e Angela Jackson-Brown escreve sobre Maya Angelou. O blog tem chamada aberta para submissão. Penso que se fosse eu a escrever sobre uma mãe literária, escreveria sobre Virginia Woolf–existe maternidade literária mais clichê que essa?, tô cheia de irmãs e irmãos dessa mãe. Mas é que Woolf foi divisor de águas & farol em tempestade & abrigo na minha vida mesmo. O livro culpado desse marco foi Mrs. Dalloway, lido pela primeira vez no meio da adolescência, e relido incontáveis vezes ao longo dos anos tanto em português quanto em inglês. Dali para obsessões seguintes com A Room Of One’s Own e Orlando foi um pulo. Virginia Woolf é mãe que me fornece alimento inesgotável, inquietudes nutritivas, e conforto incondicional.

Mães literárias têm desse abraço infinito.

“Quando eu falo para as pessoas que os livros de Dr. Angelou salvaram minha vida, eu não estou exagerando,” diz Jackson-Brown. Continuar lendo

Um Meteoro No Meu Epitáfio

Pensando naqueles dias em que acordo no aguardo do meteoro cair em nossas cabeças, vou deixar aqui esse trecho de calamidade cósmica:

Você não precisa procurar muito para achar predições assustadoras de um holocausto global causado por asteroides. Isso é bom, porque a maioria do que você já deve ter visto, lido, ou ouvido é verdade.

As chances de que a minha ou a sua lápide terá um ‘morto por asteroide’ são as mesmas de que ela terá um ‘morto num acidente de avião’. Aproximadamente duas dúzias de pessoas morreram atingidas por asteroides nos últimos 400 anos, mas milhares pereceram em quedas de avião durante a breve história da viagem aérea. Então como essa estatística comparada pode ser verdade? Simples. O registro de impactos mostra que ao final de 10 milhões de anos, quando a soma de todas as quedas de avião tiverem matado um bilhão de pessoas (assumindo uma taxa de morte-por-avião de 100 por ano), um asteroide é mais provável de ter atingido a Terra com energia suficiente para matar um bilhão de pessoas. O que confunde a interpretação é que enquanto aviões matam algumas pessoas por vez, nosso asteroide pode não matar ninguém por milhões de anos. Mas quando ele cair, vai tirar milhares de milhões de vidas instantaneamente e muitas outras milhares de milhões no começo de uma revolta no clima global.

A taxa combinada de impactos de cometas e asteroides no sistema solar primitivo era espantosamente alta. Teorias e modelos de formação de planetas mostram que o gás quimicamente rico se condensa para formar moléculas, entao partículas de poeira, e então rochas e gelo. Depois disso, é um tiroteio. Colisões servem como meio para forças químicas e gravitacionais ligarem objetos menores em objetos maiores. Aqueles objetos que, por sorte, aglutinarem um pouco mais de massa do que a média terão gravidade ligeiramente maior e atrairão outros objetos ainda mais. Conforme a acreção continua, a gravidade molda bolhas em esferas e planetas nascem. Os planetas mais massivos possuíam gravidade suficiente para reter envelopes gasosos. Todos os planetas continuam a aglutinar pelo resto de seus dias, mas em taxas significativamente menores do que quando se formaram.

Ainda assim, bilhões (provavelmente trilhões) de cometas permanecem no extremo distante do sistema solar, até mil vezes o tamanho da órbita de Plutão, e são suscetíveis a cutucões gravitacionais de estrelas passageiras e nuvens interestelares que os colocam numa longa jornada interior em direção ao Sol. Os restos do sistema solar também incluem cometas curtos, dos quais sabe-se que vários cruzam a órbita da Terra, e milhares de asteroides que fazem o mesmo.

O termo ‘acreção’ é menos efetivo que ‘impacto destruidor-de-ecossistemas-e-matador-de-espécies’. Mas do ponto de vista da história do sistema solar, os termos são os mesmos. Nós não podemos estar simultaneamente felizes que vivemos num planeta; felizes que nosso planeta é quimicamente rico; e felizes que não somos dinossauros; porém ressentir o risco de uma catástrofe planetária. Parte da energia de colisões de asteroides com a Terra é liberada em nossa atmosfera através de fricção e numa ruptura de ondas de choque. Estrondos sônicos são ondas de choque também, mas eles são normalmente criados por aviões com velocidades entre uma e três vezes a velocidade do som. O pior dano que eles podem causar é uma sacudida nos pratos do armário da sua cozinha. Mas com velocidades de mais de 70 mil quilômetros por hora—quase setenta vezes a velocidade do som—as ondas de choque da colisão entre um asteroide e a Terra podem ser devastadoras.

Se o asteroide ou cometa é grande o suficiente para sobreviver suas próprias ondas de choque, o resto de sua energia é depositada na superfície da Terra num evento explosivo que derrete o solo e explode uma cratera que pode medir vinte vezes o diâmetro do objeto original. Se muitos objetos celetes caíssem com intervalos curtos a cada evento, a superfície da Terra não teria tempo suficiente para esfriar entre os impactos. Nós inferimos a partir do registro imaculado de crateras na superfície da Lua (nosso vizinho mais próximo no espaço) que a Terra passou por uma era de bombardeamento pesado entre 4.6 e 4 bilhões de anos atrás. A evidência fóssil de vida mais antiga data de aproximadamente 3.8 bilhões de anos atrás. Não muito antes daquilo, a superfície da Terra era impiedosamente estéril, então a formação de moléculas complexas, e portanto vida, era inibida. Apesar dessas más notícias, todos os ingredientes básicos estavam sendo entregues.

LENDO: Death by Black Hole: And Other Cosmic Quandaries, de Neil deGrasse Tyson. Publicado em 2007 pela W.W. Norton.

A Névoa Seca Que Cobre o Sudeste Asiático Há 20 Anos

Nota: Este post foi originalmente publicado no blog Cais, que não existe mais. Todos os posts de lá foram transferidos para cá do jeito que foram postados.

O sudeste da Ásia sofre há 20 anos com uma névoa seca proveniente de diversas fontes tão turvas quanto o futuro da solução desse problema. Entre os focos da poluição do ar há o fluxo intenso de emissões originadas em veículos e fábricas na China e na Índia; e queimadas na Indonésia para limpar terrenos para cultivo, mas que podem acabar destruindo plantações de produtores locais.

As emissões de uma queimada dependem da composição da turfa, da temperatura do fogo e do seu efeito no solo. Mas esses detalhes ainda não são disponibilizados pela Indonésia, cuja turfa cobre uma área do tamanho do Reino Unido. Por causa disso, disse Kuwata, “nós não temos um levantamento confiável” sobre as queimadas no país. Kuwata queima amostras da turfa indonésia em seu laboratório, na Singapura, para estudar suas propriedades químicas; no entanto, seu estudo é limitado, pois ele nunca tem certeza se suas experiências retratam a realidade.

Na matéria Por que o Sudeste Asiático está coberto de fumaça?, publicada em português na Gizmodo Brasil, o jornalista Mike Ives conta as muitas histórias cobertas pela fumaça, e o que políticos e ativistas estão fazendo para buscar soluções em meio aos desafios políticos do Sudeste Asiático, onde os integrantes da ASEAN tendem a ver o desenvolvimento econômico, a soberania nacional e a não-interferência mútua como prioridades.

É dentro desse cenário que Tan Yi Han, o consultor financeiro de Singapura e ativista autodidata, está tentando incentivar a discussão sobre a névoa. No começo de 2014, ele criou uma organização chamada Movimento do Povo Contra a Névoa, ou MP Névoa, para fomentar esse debate. “Eu sinto que precisamos de mais influência”, disse Tan em uma reunião da MP Névoa realizada num domingo à noite. A reunião só contava com outro participante: Putera Zenata, um professor indonésio que se juntou ao grupo após ler sobre o projeto de Tan na internet. O local de encontro era o apartamento modesto de Zenata em um bairro de classe média de Singapura.

Além dos prejuízos econômicos, os efeitos da fumaça podem ser devastadores para a saúde pública tanto local quanto de regiões vizinhas, já que a poluição não respeita barreiras geográficas.

Rajasekhar Balasubramanian, um engenheiro ambiental que estuda a névoa seca na Universidade da Singapura, especula que a exposição prolongada à episódios da névoa pode piorar a saúde geral da população, mesmo que as pessoas continuem a viver por muitos anos. Em um estudo de 2013, ele e seus colegas descobriram que o ar de Singapura durante um episódio de névoa seca continha arsênico, crômio, cádmio e outros elementos cancerígenos. Eles estimam que, em níveis de poluição comuns, cerca de 12 pessoas a cada milhão desenvolverão algum tipo de câncer; no entanto, se o país ficasse coberto pela névoa por 10 dias todo ano, o número de casos de câncer poderia dobrar.

Leia Por que o Sudeste Asiático está coberto de fumaça?.

A matéria foi publicada originalmente em inglês na Mosaic, e republicada traduzida na Gizmodo Brasil sob uma licença Creative Commons.

Leia também as referências (em inglês) citadas na matéria original:

Who started the fire? Burning peatlands may be the cause of South-east Asia’s haze, but who’s to blame?.

A research paper estimating global mortality attributable to smoke from landscape fires. Published in the journal Environmental Health Perspectives in 2012.

‘Wildfire Research Confirms Health Hazards of Peat Fire Smoke’ – a 2011 article from the US Environmental Protection Agency.

Bissexualidades e Bifobias

Nota: Este post foi originalmente publicado no blog Cais, que não existe mais. Todos os posts de lá foram transferidos para cá do jeito que foram postados.

A Jarid Arraes escreveu uma ótima matéria sobre bissexualidade e relacionamentos abusivos para a Revista Fórum. Jarid entrevistou Paulo Cesar Góis (@themoonymoons), integrante do coletivo Bi-Sides (@bi_sides), e Amanda Bastos, integrante do Coletivo Guarda-Sol (@GuardaSol_RJ). O texto foca em desmistificar os discursos que promovem apagamento das pessoas bissexuais e as agressões psicológicas que elas sofrem em seus relacionamentos.

“Quando um homem, em particular hétero, diz que gosta que a companheira seja bi, é um passo rumo a objetificação e a hipersexualização”, alerta Bastos. “Há bifobia aí quando essa expectativa de que a mulher bi sempre quer sexo é quebrada. A partir daí vem a deslegitimação, aparecem as desconfianças de que o homem será trocado, surgem as perguntas mais invasivas sobre experiências anteriores com outros homens e, em particular, com mulheres. Já estive nessa posição em que o homem – não consigo chamar de parceiro, porque nunca houve de fato uma cumplicidade – está na relação e começa a hipersexualizar, conta para os amigos se gabando e, quando a expectativa é frustrada, começa o processo de deslegitimação, de questionar se eu sou de fato bi, como se eu devesse provar algo. Quando a bifobia aparece em um relacionamento afetivo-sexual, inevitavelmente deixa marcas. Para mim, essas marcas foram mais profundas do que a bifobia do dia-a-dia”, relata.

A matéria também ressalta a interseccionalidade de opressões que se inserem nas bifobias:

O militante ainda explica a necessidade de se compreender a interseccionalidade entre questões como gênero, raça e classe econômica. São diversos os fatores que podem gerar vivências específicas de bifobia, onde ainda existe o racismo, a transfobia e a misoginia. “As mulheres, por exemplo, experienciam uma forma de bifobia mesclada ao machismo e à misoginia que não atinge homens cis bissexuais”, exemplifica.

Esse cruzamento de problemáticas é um aspecto que me preocupa em especial. Já comentei em outros espaços e vou repetir aqui: até o ano passado eu não fazia ideia que podia me identificar como bissexual mesmo não sentindo atração por homens. E isso veio a partir do meu entendimento de que existe uma quantidade infindável de gêneros, não apenas o sistema binário de homem e mulher. Enquanto pessoa trans de gênero fluido, minha sexualidade se encaixa no guarda-sol bissexual pois sinto atração por mulheres e pessoas não-binárias. Chegar a essa paz de identidades foi um alívio incomensurável.

Leia o texto Bissexualidade e relacionamentos abusivos e compartilhe.

Leia também “O B de LGBT poderia significar ‘banana’ que ninguém se importaria”, outra matéria sobre bissexualidade feita por Jarid Arraes, publicada em 22 de Janeiro desse ano:

A mídia carrega grande responsabilidade pelo apagamento bissexual. “Recentemente, o desenho *Avatar: A Lenda de Korra* retratou um casal de mulheres bissexuais (envolvendo a protagonista, que inclusive não é branca!) e, se de um lado o público hétero via ‘apenas amigas’ e nos chamava de exagerados, do outro a pressão para dizer que elas eram lésbicas durou até que os próprios autores da série disseram que são bissexuais de fato e que, sim, a gente existe”, conta Góis. “Mas imaginemos que isso não aconteça, afinal, pouquíssimos autores se posicionam sobre isso: continuaríamos achando que as personagens são héteros ou lésbicas quando na verdade são bissexuais. E isso acontece em grande escala, não só em ficção como no mundo real, nos deixando sem exemplos positivos”.