Apagar & Reconfigurar

Já perdi a conta de quantas vezes fui dormir não porque estava cansado ou sonolento, mas porque precisava de algumas horas de inconsciência. Desligar a cabeça antes de derreter meus núcleos de processamento emocional. Apagar por opção. Morrer um pouquinho. A inexistência temporária na borda daquele formigamento monocromático atrás dos olhos até as negações & autonegociações na manhã seguinte para conseguir se desenlaçar dos lençois.

Tenho a sensação de que não faço muita leitura quando tô zumbi. Mas nunca parei para mensurar o quanto eu leio nesse ou naquele estado mental. Não tenho referências para comparação. Só esse incômodo intermitente da pilha de livros/artigos/posts/threads-a-ler me cutucando. Também não sei o quanto eu escrevo a cada unidade de tempo psicológico. Sei que rolam uns surtos. Às vezes não sai uma letra. Às vezes sai 50 mil palavras. É que meus pontos de HP e mana são finitos e as barrinhas vão desgastando com o trabalho de sobreviver mais do que com o trabalho de fazer arte, embora as duas lutas muitas vezes se tornem indistinguíveis.

“Quando falamos sobre ‘o trabalho’, como escritores, tantos de nós se referem ao labor da escrita,” diz Hanif Willis-Abdurraqib em seu post On Joy. “O trabalho na página, claro. Após um ano lidando com a fragilidade da minha própria vida, e da vida do meu amor humano mais próximo, eu percebi que ‘o trabalho’ é também o trabalho de viver. Continuar lendo

Partiu Mundo dos Demônios

O @thegaygamer postou ontem sobre uma Visual Novel com protagonistas lésbicas que tá em processo de arrecadação no Kickstarter. (Por mais que eu assine a newsletter do Kickstarter e siga um punhado de gente que comenta e divulga projetos novos a todo momento, alguma coisa sempre me escapa e eu fico UGH, FOMO!). Visual Novel (ou Romance Visual; e ‘romance’ no sentido de livro, embora enredos de Visual Novels costumam se desenrolar entre vários relacionamentos românticos que o leitor/jogador escolhe ao longo do caminho, então leia-se romances visuais com romance) são abundantes no Japão e muito do que chega aqui é material traduzido. Esse é criação americana.

Starlight Vega é uma fantasia com toques de humor sobre duas meninas humanas que libertam, por acidente, uma mulher-demônio (cabelão vermelho, cauda pontuda, chifres curvados, o pacote completo) de uma gema-prisão & tem um livro mágico que concede acesso físico a memórias—e daí rola toda uma treta entre o mundo dos humanos e Vega, o mundo dos demônios. Como eu tô nessa de experimentar ficção interativa, baixei o demo do jogo (que é bem rudimentar, com as ilustrações de fundo ainda não finalizadas por completo e sem trilha sonora) e curti o ritmo da história. Até porque eu resolvi escolher todas as opções mais irresponsáveis para a pobre da protagonista, clicando que sim, claro, vamos dar uma volta, Mulher-Demônio, por que não, aham, pode dormir aqui no meu quarto sim, chega mais. Continuar lendo

Margens da Palavra

Outro dia tuitei que sempre que eu ouço Milton Nascimento fico
pensando que é o nome dele que eu indicaria pros alienígenas quando eles aterrissarem aqui na esquina e me perguntarem quem é o líder da nossa espécie. Agora esse imaginário voltou à minha cabeça enquanto eu ouvia a canção A Terceira Margem do Rio depois de reler A Terceira Margem do Rio, conto de Guimarães Rosa–uma história que sempre me assombrou, mas num assombro moleque de quem só fica ali largado na canoa como quem se joga numa rede e balança e flui e contorna e atravessa.

Nosso pai não voltou,” diz Isadora Medella (integrante do grupo
Chicas) recitando as palavras de Terceira Margem em meio a uma performance musical em que sua voz encorpa tanto trechos de Guimarães quanto trechos de Milton. “Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não voltar, nunca mais.”

Os instrumentos retumbantes de sopro e percussão adensam o cenário em que pisamos e nos vemos ali, agachados na margem do rio, barra da calça suja de lama, pés descalços na água gelada–“água da palavra, água calada, pura, água da palavra, água de rosa, dura”–mãos calejadas estendidas para alguém além de nosso alcance; a voz de Isadora mais navalha afiada e gruta em penumbra que a gravação sussa ensolarada de Caetano Veloso em 1991.

“Sofri o grave frio dos medos, adoeci. Sei que ninguém soube mais dele. Sou homem, depois desse falimento?,” ela grita em dor e nos retraímos instintivamente. “Sou o que não foi, o que vai ficar calado. Sei que agora é tarde, e temo abreviar com a vida, nos rasos do mundo. Mas, então, ao menos, que, no artigo da morte, peguem em mim, e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água que não pára, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro — o rio.”

RELIDO: A Terceira Margem Do Rio, conto de Guimarães Rosa.

Lendo e Ficando Com Fome

Uma das delícias de ler fanfics em universos alternativos (os chamados AU) é que você consegue alimentar sua obsessão do momento sem saturar o paladar dos mesmos cenários e eventos. Depois de destrinchar todas as possibilidades e encruzilhadas do roteiro canônico, os escritores de fanfic transportam os personagens para solos alternativos—aventuras originais ou criações de outras obras e outros autores misturadas num crossover.

Desde o final de The Legend of Korra que ando lendo praticamente tudo que postam no AO3 envolvendo o par Korra & Asami–o famigerado ship canônico interracial bissexual Korrasami. Dentre os AUs que leio, há um com referências fortes a Orange Is The New Black—mas a prisão é no espaço, Asami é trans, e Korra é uma caçadora de recompensas. Só pelo NO ESPAÇO eu já leria, porque qualquer coisa que você adicione NO ESPAÇO é maravilhosa e digna de atenção, não importa o que seja. Pode ser, sei lá, coçando a bunda NO ESPAÇO. Funciona também com a adição de EM CHAMAS. Coçando a bunda EM CHAMAS. Agora, bota Coçando a Bunda EM CHAMAS NO ESPAÇO como título da sua história e eu já vou querer ler para saber como funciona a logística da coisa—como alcançar a área da coceira através da roupa de astronauta & o fogo tá queimando na bunda ou na roupa ou no espaço & se tá consumindo o oxigênio e como isso vai afetar suas capacidades motoras de manusear os dedos enluvados para conseguir coçar a bunda E QUE HORRORES DO VÁCUO CÓSMICO ESPREITAM QUANDO A COCEIRA NÃO É SACIADA. Continuar lendo

Narrativas Interativas e Um Dedão Decepado

Eu adorava os livros juvenis da série Escolha Sua Aventura, onde eu podia decidir o que os personagens fariam em determinadas situações escolhendo um número de página que me levaria ao próximo capítulo. Perdi as contas de quantas vezes eu reli e reli e reli e reli cada livro, mapeando todos os caminhos possíveis e explorando cada nodo dessa rede narrativa. Os livros-jogo (não confundir com livros de RPG) parece que saíram de moda. Pelo menos não conheço alguma série nova do tipo que seja famosa hoje em dia. Se houver, por favor me avisem.

Em termos de narrativa interativa, atualmente temos os jogos independentes do Twine como expoentes. O Twine é uma ferramenta open source de criação de jogos baseados em texto, com um script próprio e a possibilidade de incluir estilização CSS, códigos javascript, imagens e efeitos de som. Eu comecei a estudar javascript para poder criar um jogo que não me saía da cabeça. E que agora já virou uma pequena trilogia. E mais sobre isso não falo porque ainda vai levar algum tempo até eu terminar essas belezinhas. Continuar lendo

As Mortes de Mina

Ela nos conta no primeiro capítulo das suas quase-mortes. Sophie. A adolescente nos conta do acidente de carro que espatifou seus ossos da perna e rendeu um vício em opiáceos; e do ataque do homem de máscara de esquí na beira de um precipício. A terceira quase-morte viria nos últimos capítulos, no confronto entre Sophie e o homem da máscara—o assassino de Mina. O corpo ensanguentado de Mina nos é oferecido logo na abertura da história, mas sua presença vibrante no desenrolar da trama é uma força vital.

Em Far From You, de Tess Sharpe, Mina é personagem, cenário, motivo, tempo, tato.

Há algo de espectral na presença de Mina, talvez porque a narrativa em primeira pessoa de Sophie nos coloque no mesmo nível de intimidade obscena e admiração alucinada da protagonista. Durante toda a leitura, minha cabeça deu pulos involuntários a cada aparição de Mina, a cada flashback saudoso, a cada lembrança da infalibilidade de seus charmes, do gosto de lágrimas em seus beijos, ou da agonia de sua sexualidade reprimida. Continuar lendo