Fazendo um jogo no Twine em 10 dias

Se você me lê no blog Amanhã Não Vai Existir, cê sabe que eu tenho interesse em ficção interativa, texto digital, jogos baseados em texto, e todas as intersecções desses formatos e suas ferramentas. Tenho uma pasta chamada Twine no meu Evernote onde eu anoto ideias soltas para jogos curtos, ficções que só poderiam funcionar como texto digital, como narrativa interativa, tipografia viva, animada, carregada de energia potencial. Mas eu fico nessa de rabiscar ideias e a coisa nunca descola do talvez-algum-dia-quem-sabe. Então quando o Gumroad anunciou que faria um desafio de brainstormar, criar, e lançar um produto em 10 dias, eu pulei no barco de espada em punho gritando AYE AYE CAPTAIN.

Para quem não conhece, o Gumroad é um site que te dá espaço e ferramentas para vender seus produtos (físicos e digitais) através dele (que fica com uma pequena porcentagem das vendas). A vantagem é que o sistema deles nos oferece uma série de recursos sem cobrar a mais por isso: podemos editar landing pages, perfis, configurar emails automáticos para seguidores e/ou clientes (uma parada que é muito eficiente para converter e que pra usar em serviços como o Mailchimp, por exemplo, temos que pagar).

O nome do desafio é Small Product Lab. Continuar lendo

Apagar & Reconfigurar

Já perdi a conta de quantas vezes fui dormir não porque estava cansado ou sonolento, mas porque precisava de algumas horas de inconsciência. Desligar a cabeça antes de derreter meus núcleos de processamento emocional. Apagar por opção. Morrer um pouquinho. A inexistência temporária na borda daquele formigamento monocromático atrás dos olhos até as negações & autonegociações na manhã seguinte para conseguir se desenlaçar dos lençois.

Tenho a sensação de que não faço muita leitura quando tô zumbi. Mas nunca parei para mensurar o quanto eu leio nesse ou naquele estado mental. Não tenho referências para comparação. Só esse incômodo intermitente da pilha de livros/artigos/posts/threads-a-ler me cutucando. Também não sei o quanto eu escrevo a cada unidade de tempo psicológico. Sei que rolam uns surtos. Às vezes não sai uma letra. Às vezes sai 50 mil palavras. É que meus pontos de HP e mana são finitos e as barrinhas vão desgastando com o trabalho de sobreviver mais do que com o trabalho de fazer arte, embora as duas lutas muitas vezes se tornem indistinguíveis.

“Quando falamos sobre ‘o trabalho’, como escritores, tantos de nós se referem ao labor da escrita,” diz Hanif Willis-Abdurraqib em seu post On Joy. “O trabalho na página, claro. Após um ano lidando com a fragilidade da minha própria vida, e da vida do meu amor humano mais próximo, eu percebi que ‘o trabalho’ é também o trabalho de viver. Continuar lendo

Partiu Mundo dos Demônios

O @thegaygamer postou ontem sobre uma Visual Novel com protagonistas lésbicas que tá em processo de arrecadação no Kickstarter. (Por mais que eu assine a newsletter do Kickstarter e siga um punhado de gente que comenta e divulga projetos novos a todo momento, alguma coisa sempre me escapa e eu fico UGH, FOMO!). Visual Novel (ou Romance Visual; e ‘romance’ no sentido de livro, embora enredos de Visual Novels costumam se desenrolar entre vários relacionamentos românticos que o leitor/jogador escolhe ao longo do caminho, então leia-se romances visuais com romance) são abundantes no Japão e muito do que chega aqui é material traduzido. Esse é criação americana.

Starlight Vega é uma fantasia com toques de humor sobre duas meninas humanas que libertam, por acidente, uma mulher-demônio (cabelão vermelho, cauda pontuda, chifres curvados, o pacote completo) de uma gema-prisão & tem um livro mágico que concede acesso físico a memórias—e daí rola toda uma treta entre o mundo dos humanos e Vega, o mundo dos demônios. Como eu tô nessa de experimentar ficção interativa, baixei o demo do jogo (que é bem rudimentar, com as ilustrações de fundo ainda não finalizadas por completo e sem trilha sonora) e curti o ritmo da história. Até porque eu resolvi escolher todas as opções mais irresponsáveis para a pobre da protagonista, clicando que sim, claro, vamos dar uma volta, Mulher-Demônio, por que não, aham, pode dormir aqui no meu quarto sim, chega mais. Continuar lendo

Narrativas Interativas e Um Dedão Decepado

Eu adorava os livros juvenis da série Escolha Sua Aventura, onde eu podia decidir o que os personagens fariam em determinadas situações escolhendo um número de página que me levaria ao próximo capítulo. Perdi as contas de quantas vezes eu reli e reli e reli e reli cada livro, mapeando todos os caminhos possíveis e explorando cada nodo dessa rede narrativa. Os livros-jogo (não confundir com livros de RPG) parece que saíram de moda. Pelo menos não conheço alguma série nova do tipo que seja famosa hoje em dia. Se houver, por favor me avisem.

Em termos de narrativa interativa, atualmente temos os jogos independentes do Twine como expoentes. O Twine é uma ferramenta open source de criação de jogos baseados em texto, com um script próprio e a possibilidade de incluir estilização CSS, códigos javascript, imagens e efeitos de som. Eu comecei a estudar javascript para poder criar um jogo que não me saía da cabeça. E que agora já virou uma pequena trilogia. E mais sobre isso não falo porque ainda vai levar algum tempo até eu terminar essas belezinhas. Continuar lendo