A bruxaria que rege a mão esquerda da ciência

Jaime Murray no papel de H. G. Wells no seriado Warehouse 13.

Meu autor de ficção científica favorito da infância foi Jules Verne. Eram dele os livros que eu mais pegava na biblioteca do colégio quando ainda era um pingo de gente. Boa parte das histórias que eu escrevia era fortemente derivada inspirada em Vinte Mil Léguas Submarinas e Viagem Ao Centro Da Terra, os dois extremos–mar a fundo e vulcão adentro–que eu gostaria de explorar. Mas H. G. Wells também se enfiou num cantinho do meu coração antes mesmo que eu pudesse ler algo do autor. Ainda criança, comprei o livro Doenças Mortais da coleção infanto-juvenil Saber Horrível numa feira do colégio. E foi ali, num capítulo sobre infecções, que eu descobri a história de Guerra dos Mundos (onde alienígenas são aniquilados por micróbios terrestres), e fui apresentado a H. G. Wells.

Mas não demorou muito e minha atenção infantil foi capturada por Michael Crichton e Philip Pullman e mais tarde na adolescência por William Gibson e China Miéville. Meu fascínio com H. G. Wells só renasceu esse ano, graças ao seriado Warehouse 13, onde H. G. Wells é uma mulher bissexual e agente da Warehouse que volta à ativa depois de passar mais de um século num estado aprisionado de hibernação. Desde Doctor Who que eu não recuperava meu interesse por histórias de viagem no tempo. Mas como resistir a uma H. G. Wells mulher? Mesmo que no seriado a viagem seja mais uma projeção astral ou possessão mental em vez de viagem temporal corpórea.

No episódio 10 da segunda temporada de Warehouse 13, H. G. Wells explica que a viagem física no tempo é uma impossibilidade e o que sua máquina faz é transferir consciências temporariamente. É um modo de atravessar o continuum do espaço-tempo usando a mente. Ela diz que estava intrigada pela ideia da gestalt, de um coletivo inconsciente, quando teve a ideia para a invenção. E se alguém conseguisse se conectar com a mente de uma pessoa que viveu séculos atrás?, ela indagou. A máquina permite que você use o corpo de uma pessoa do passado, como uma possessão, para ver e sentir o que essa pessoa viu e sentiu. Mas o viajante temporal não pode alterar o passado e a pessoa possuída apaga por 22 horas e 19 minutos.

É um método insólito, que parece prestes a escorregar para um conto de horror. Feitiço que corre destilado nos tubos de uma máquina e adquire características peculiares sem motivo. Fantasia ou ciência fantástica.

Mas viagem no tempo é ficção científica?

No artigo Is Time Travel Science Fiction or Fantasy?, de Natalie Zutter, ela menciona histórias de viagem no tempo que não possuem teoria científica ou aparato tecnológico algum como explicação:

Em Outlander, visitar os monolitos de Craigh na Dun num momento específico é o que manda Claire de volta no tempo em 200 anos, para o ano de 1743 e um novo interesse romântico, apesar dela ser casada em 1946. Em Kindred, sempre que Dana se machuca em 1976, ela retorna à mesma plantação no começo dos anos 1800, compelida a interferir na rotina de uma família escravocrata. E The Ancient One tem uma jovem Kate encontrando por acaso a Cratera Perdida e seu incrível bosque de sequoias vermelhas, sendo propelida 500 anos para o passado, onde ela possui uma vara mágica e ajuda uma civilização extinta a rechaçar uma criatura vulcânica gigante prestes a explodir.

No livro Time Travel: A History [1], de James Gleick, ele traça a história do gênero enquanto literatura e da ideia de tempo na cultura em geral, desde antes da obra de Wells. A noção moderna que possuímos de viagem no tempo nasceu com H. G. Wells, mas o conceito é muito mais antigo, desde os mitos de civilizações ancestrais que poderiam ser classificados como tendo um pé na viagem no tempo em suas interpretações mais fantásticas.

Gleick menciona as tecnologias industriais das máquinas a vapor, as consequências nascidas da possibilidade de viagens a velocidades nunca antes vistas, assim como o estabelecimento do fuso horário no século XIX devido à proliferação das estradas de ferro, como elementos responsáveis por borbulhar o imaginário das pessoas e mexer profundamente com suas noções de tempo. A Máquina do Tempo (The Time Machine) foi publicado em 1895. Em 1905 Einstein publicou um artigo sobre a eletrodinâmica de corpos em movimento, que mais tarde ficaria conhecido como a Teoria Especial da Relatividade. Os anos 20 trouxeram o modo narrativo do fluxo de consciência com obras como Ulysses, de James Joyce e Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf. Era um zeitgeist de especulações temporais e manipulações da nossa percepção da realidade.

A viagem no tempo na literatura da ficção de gênero pode ter tantas explicações esdrúxulas, maquinações estranhas ou ser apenas justificada com magia, sem maiores floreios. Talvez cada pessoa esteja falando de uma coisa diferente quando conversamos sobre viagem no tempo, ou possuímos todo o leque de ideias contraditórias simultâneas na cabeça, existindo em múltiplos universos narrativos. Já dizia o Doctor (que em breve será a Doctor *solta fogos*), que o tempo é um troço wibbly-wobbly timey-wimey. Se você perguntar a um grupo de pessoas como cada um entende o conceito de tempo, as respostas serão as mais diversas, passando por definições sobre a duração de uma vida, intervalos entre eventos, tipos de relógios, ritmos e frequências, velocidades de transporte, revoluções e translações, as mudanças das estações do ano, a meia-vida de elementos radioativos, o tecido cósmico do espaço-tempo, períodos históricos, noções psicológicas, percepções alteradas e alucinações insones.

Uma das sintonias mais divertidas entre a ficção científica e a ciência são que ambos discutem com fervor e seriedade os temas mais longínquos da realidade ou de se tornarem teorias falsificáveis, dos paradoxos da viagem no tempo às trocentas dimensões espaciais extras que a matemática aponta na Teoria das Cordas.

Para o físico e professor Richard Feynman, se ele não fosse capaz de explicar algo num nível em que calouros pudessem entender, isso significava que o fenômeno ainda não era bem compreendido pela comunidade científica [2]. Feynman era conhecido por ser capaz de explicar os temas mais complexos das formas mais simples e intuitivas. Construir essa ponte entre as convoluções da torre acadêmica, seus andares interconectados pela história de instituições e movimentos culturais e o chão de terra batida do conhecimento popular é ferramenta essencial na dissolução da ignorância e na desmistificação da ciência

Nesse vídeo da série Fun to Imagine, de 1983, Feynman explica por que um pedaço de madeira pega fogo a partir da relação entre moléculas de oxigênio e carbono. Ele pausa a explicação bem no ponto em que começaria a falar do funcionamento do sol. Porque faltariam aparatos linguísticos simples o suficiente para explicar o fenômeno aos leigos ou porque a coisa ainda residia no campo da bruxaria, quem sabe? Quando perguntado sobre o comportamento dos ímãs, ele deixou bem claro que não haveria clareza alguma em tentar enveredar por ali também:

Eu não posso fazer um bom trabalho, ou qualquer trabalho, explicando a força magnética em termos de algo que você tenha familiaridade, porque eu não a entendo em termos de algo que você tenha familiaridade.

Desde então nosso entendimento de tópicos nebulosos evoluiu. Sem falar na confirmação do que antes era apenas possibilidade, como as ondas gravitacionais. Mas talvez há temas complicados demais para serem desembrulhados a nível introdutório.

Num quadrinho do XKCD em que uma personagem fala do sol ser governado por forças magnetoidrodinâmicas, a legenda diz: sempre que eu ouço a palavra “magnetoidrodinâmica”, meu cérebro a substitui por “magia”.

Nos dias de hoje, até mesmo a magia do cosmos se mescla ao horror do estranho, desde o comportamento inexplicável da estrela KIC 8462852 (que levantou conspirações sobre uma megaestrutrura alienígena), plantas que comunicam sinais de defesa através de uma rede de parasitas, até os glitches de casas conectadas que parecem ter despertado poltergeists digitais.

Como disse Tobias Revell revisitando a lei de Arthur C. Clarke (que diz que toda tecnologia suficientemente avançada é indistinguível de magia): todo hacking suficientemente avançado é indistinguível de uma assombração e toda renderização suficientemente avançada é indistinguível da realidade.

Criar histórias nos interstícios da ficção científica, da fantasia e do horror é transitar em terreno fértil, instável e carregado de bruxaria.

Se você vai escrever algo como: O céu é uma abóbada de vidro que separa a atmosfera terrestre de um oceano cósmico de éter habitado por demônios de gelo e irídio; primeiro, me manda o livro que eu quero ler; e segundo, você pode focar tanto na fantasia dos demônios estelares quanto na ciência inventada para amarrar a coerência interna de um mundo desses. E cair fundo na magnetoidrodinâmica do éter, nas temperaturas de transição vítrea da abóbada ou nas minúcias químicas sobre troca de gases e pressões nas zonas porosas da fronteira. A ficção científica pode transpassar a fantasia sem que a ciência seja diminuída por isso. O new weird e o sci-fi strange são dois subgêneros que sabem dançar nessa bagunça com maestria.

E nem precisamos ir tão longe.

A radiação eletromagnética é elemento recorrente em histórias que mesclam a fantasia, a ficção científica e o horror. Exemplos recentes de destaque são os pisca-pisca em Stranger Things e as tomadas elétricas em Twin Peaks, que funcionam como membranas de passagem entre realidades inumanas ou mundos opostos ao mesmo tempo em que servem de canais de comunicação. Podemos traçar esse legado até a reanimação da criatura de Victor Frankenstein (ainda que o uso da eletricidade seja um elemento popularizado pelos filmes e não pela obra original) [3].

A dualidade onda-partícula da luz, a imaterialidade da luminosidade ao mesmo tempo em que sentimos o calor de um feixe de luz entrando pela janela, a capacidade de fibras ópticas de transmitir informação a velocidades que nos parecem instantâneas cruzando o fundo de oceanos continente a continente. As propriedades da luz são fantásticas e fantasmagóricas. Enquanto autores de ficção especulativa, fazemos uso de toda sua estranheza científica e todo seu imaginário místico. Hoje falamos em computação quântica, servidores colossais em localizações escondidas, vigilância de câmeras camufladas e coleta de dados perniciosa e na interconectividade assombrada da Internet das Coisas–tudo ainda enraizado na grade elétrica que rege o funcionamento do mundo contemporâneo, ou entraríamos em colapso, de volta a uma nova instância da Idade das Trevas.

Uma máquina do tempo dependeria de eletricidade para funcionar ou seria alimentada por fontes alternativas de energia? Ou o próprio fluxo do tempo, processado e distribuído adulterado por conglomerados corruptos? Queima de combustível temporal até o desmantelamento do universo. Engenharia entrópica. Erosão do continuum. Vai ver algum dia detectaremos a existência de uma viajante do tempo misteriosa através dos rastros que sua máquina deixa no vácuo quântico, como as pegadas de dióxido de carbono mapeiam a ação humana no agravamento do aquecimento global.

 

Notas:

1. Ainda não li o livro, mas esse papo no Talks at Google é bem elucidativo.

2. Li essa anedota no artigo “Feynman’s Lost Lecture – The Motion of Planets Around the Sun“, de David L. Goodstein e Judith R. Goodstein, publicado na Engineering & Science/No. 3, de 1996. Tradução livre do original em inglês: Feynman era um professor excelente. Ele se orgulhava de ser capaz de inventar maneiras de explicar aos calouros até mesmo as ideias mais profundas. Uma vez eu perguntei: “Dick, me explica isso para que eu entenda, por que partículas de meio spin obedecem às estatísticas de Fermi-Dirac?” Julgando seu público corretamente, Feynman disse: “Vou preparar uma aula introdutória sobre isso.” Mas ele voltou alguns dias depois e disse: “Não consegui. Não pude reduzir ao nível [de entendimento] de um calouro. Isso significa que não entendemos realmente o assunto.”

3. É curioso que a imagem que temos na cabeça de elementos/personagens de historias clássicas costumam ser a imagem popularizada por filmes e não o elemento como foi descrito na obra original. A máquina do tempo de H. G. Wells que todo mundo visualiza provavelmente é aquela da adaptação cinematográfica de 1960, o trenó com uma cadeira vermelha cheio de luzes coloridas e um disco enorme na parte traseira. A máquina do tempo do livro era mais um tipo de bicicleta ou triciclo. H. G. Wells era fascinado por bicicletas, que foram inventadas em 1817 e passaram por várias mudanças de engenharia nas décadas seguintes. Outra imagem que grudou na cabeça das pessoas é a da Bruxa Má do Oeste, do Mágico de Oz, ser uma bruxa verde. Ela é verde apenas na adaptação cinematográfica de 1939, não no livro original de L. F. Baum. E, dali em diante, ela seria verde em tudo quanto é adaptação nova.

 

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Visita ao Terminal de Links

Arte de Soey Milk.

O pessoal que colabora com R$ 5 ou mais por mês no APOIA.se do Alliahverso tem acesso à Estação Transdimensional do Avesso do Infinito, nosso grupo fechado lá no Facebook. Uma das coisas que posto no grupo é uma seleção quase-semanal de links intitulada Terminal de Links. Já postei mais de 100 links desde o começo do grupo, então resolvi reunir alguns aqui como amostra. Cada post também é ilustrado pela arte de um artista diferente e sempre com o link para os portfolios. Essa arte da Soey Milk aí em cima, por exemplo, eu escolhi para ilustrar o Terminal de Links #01 em 26 de março.

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Bem-vindo/a ao mostruário do Terminal! Cuidado com o espaço entre os degraus somatolográficos. Pode sentar nas nuvens e se conectar sem fios e sem medo que nossa ciberlinfa é criptografada.

Terminal de Links

// Descobri o site/zine Heterotopias pelo Twitter através de uma chamada para submissão de pitches. O foco da revista são textos sobre arquitetura e espaço em jogos eletrônicos e o contexto cultural desses jogos. Como leitor ávido do BLDGBLOG, blog do Geoff Manaugh sobre tecnologias, ecossistemas e futurismos relacionados à arquitetura e paisagens/cenários, imagino que o conteúdo da Heterotopias atinge uma série de intersecções do meu interesse. Ainda não comprei uma edição da revista para conferir (o material do zine é longo e mais experimental do que os posts curtos do site). De qualquer maneira, fica aqui a recomendação. Só os textos do site já são ótimos.

// The Ship Breakers, ensaio fotográfico de navios de carga velhos sendo desmontados e despedaçados.

// Série de tuítes do Guillermo del Toro sobre a criação de monstros.

// Science fiction horror wriggles into reality with discovery of giant sulfur-powered shipworm, matéria do Phys.org.
Eu adoro que essas chamadas do Phys.org já valem a máteria inteira. Se quebrar uns trechos, dá pra compartimentalizar a loucura em contos:
> HORROR WRIGGELS INTO REALITY
> GIANT SULFUR-POWERED SHIPWORM
Não é à toa que o Warren Ellis comentou numa palestra sobre essas headlines serem a prova concreta da realidade científica ter superado o estranho da ficção.

// Show da Andra Day no NPR Music Tiny Desk (13:18 min).
Depois de assistir o show de Tank and the Bangas que a Tassi recomendou aqui no grupo, eu caí no buraco negro de assistir outros shows do Tiny Desk–a lista tem mais de 400 vídeos–e tô recomendando esse da Andra Day porque meu encanto com ela é recente (desde o ano passado). Daí fui ver o canal dela também e me deparei com esse mashup delicioso de He Can Only Hold Her vs. Doo-Wop (Amy Winehouse & Lauryn Hill) que foi postado em 2012.

// ‘Carandiru’ a ‘Prisioneiras’, entrevista com Drauzio Varella no canal do Nexo Jornal (25:06 min).

// PBDB Navigator, site interativo bem legal onde você pode explorar um banco de dados de paleobiologia e ver, por exemplo, quais fósseis foram descobertos em quais localizações geográficas.

// Para entender um pouco mais sobre o clima, nossas ansiedades ecológicas vivendo no antropoceno e o aquecimento global em cinco artigos:
1. The Uninhabitable Earth, artigo longo de David Wallace-Wells na New York Mag que é mais especulação dos horrores do que ciência exata, mas que vale a pena ler por inteiro.
A resposta Do not believe New York Mag’s climate change doomsday scenario, por Andrew Freedman e cientistas que refutaram os erros e exageros do texto.
E este pequeno artigo Stop scaring people about climate change. It doesn’t work., de Eric Holthaus.
2. Short Answers to Hard Questions About Climate Change, artigo de Justin Gillis em formato de perguntas & respostas publicado no The New York Times.
3. ‘A reckoning for our species’: the philosopher prophet of the Anthropocene, artigo longo de Alex Blasdel no The Guardian sobre o Timothy Morton, um dos meus filósofos contemporâneos favoritos (lá no mesmo patamar que considero o Eugene Thacker).

// Clipe da música Stars, de Connie Constance (3:12 min).
Descobri essa cantora recentemente quando pesquisava músicas para montar a playlist de um dos contos que estou escrevendo.

// Canal do artista de xilogravura japonesa David Bull, com vários vídeos que mostram como ele cria as gravuras, do começo ao fim.
As partes dele fazendo os entalhes na madeira são minhas favoritas. Trabalhar com madeira é daqueles ofícios que ainda quero aprender em algum futuro–e tocar bateria, também sempre quis aprender a tocar bateria.

Bônus: remember when abercrombie and fitch hired slavoj zizek to write copy for their back to school catalog.

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Considere virar apoiador/a do Alliahverso e me ajudar a continuar criando mundos estranhos e alucinações coletivas.

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Esse bicho que é a rotina de escrita

Stephen King em seu cantinho da escrita.

O episódio #019: Rotinas de Escrita, do podcast Curta Ficção trouxe um papo bem legal entre Thiago Lee, Jana Bianchi, Rodrigo Assis Mesquita e o autor convidado André Timm.

Muito do que eles falam sobre o mito da inspiração e a necessidade de uma rotina de escrita dialoga com o que escrevi no post A inquietação diferencial da escrita. Então, se você curtiu o post, pode separar 30 min para ouvir esse episódio que será bem proveitoso e divertido.

Para muita gente a rotina é algo detestável que deve ser evitado. Ou uma criatura críptica que só foi avistada em fotografias borradas em preto-e-branco e pertence ao salão da fama do Abominável Homem das Neves e do Chupacabra. Mas ela não é esse bicho de sete cabeças todo. Uma rotina bem estruturada é o alicerce da criatividade. Eu sinto com muita força a falta que ela faz nos meus dias ruins. E o sopro de vida que ela traz quando retorna.

Ainda não consegui firmar uma rotina de fato. Daquelas que você pode dizer que faz as coisas assim e assado há mais de três anos ou período do tipo. Quando penso que engatei numa, o universo enfia uma chave de fenda entre os dentes da engrenagem e descaralha a harmonia toda. Mas quando estou em sincronia, faço escolhas bem conscientes e disciplinadas que caberiam numa rotina. A principal delas é: dormir cedo e acordar cedo. E quando eu falo cedo, é cedo mesmo. Dormir entre 8 e 9 da noite e acordar entre 4 e 4:30 da manhã. Eu sou outra pessoa quando sigo esses horários: me sinto revigorado, bem disposto e minha cabeça funciona com uma clareza e uma agilidade sem igual.

Minha parte favorita de qualquer dia é aquele trecho da manhã antes do sol nascer, que é pra gente se erguer e se iluminar juntos.

Moro com meus pais e tios numa casa bastante barulhenta, agitada, estressada e com um entra e sai constante de gente, entre parentes, vizinhos e clientes dos meus tios. Volta e meia alguém me chama para resolver alguma coisa. Não tenho como fugir de interrupções e a privacidade é zero. Ao longo dos anos aprendi a escrever em meio ao caos. Mas meus momentos solitários e silenciosos de manhã bem cedo ainda são as horas mais preciosas que possuo.

Tenho a vantagem de trabalhar em casa, então posso estruturar meu dia da maneira que quiser, o que também significa que a responsabilidade é toda minha quando sou abocanhado pela besta-fera da procrastinação.

Manter o foco às vezes parece um desafio intransponível. Fico irrequieto de fazer uma coisa de cada vez, embora tenha plena consciência de que fazer uma coisa de cada vez é a única maneira frutuosa de fazer as coisas. Multitasking é a maior bobagem da vertigem contemporânea. Fragmentar a atenção desgasta seu depósito de energia, dissipa ela todinha na fumaça que sai pelas orelhas quando você se estressa porque tá perdido na confusão que você mesmo conjurou.

E ainda assim escrevo pulando entre notas no Evernote (para textos de blogs e newsletters) e abas do Google Docs (para textos de ficção). Acaba funcionando para mim através de alguma mecânica alquímica que foge à minha compreensão.

Rascunhar, desenhar, pintar, inventar em papel também flui com muito mais prazer de manhã cedo. Nos meus melhores dias consigo fazer tudo entre as 4 ou 4:30 da manhã e meio-dia: desenhar e escrever em alternância ou emaranhamento. As tardes são boas para ler. Os fins de tarde combinam melhor com seriados e filmes. Se eu morasse num lugar bacana, tentaria encaixar caminhadas e banhos de rio. Ou sairia com o sketchbook debaixo do braço para algum café e passaria horas no grafite, no nanquim, no conté, na aquarela. Ou levaria um notebook para mergulhar na escrita do livro nos lugares mais diversos e variar um pouco das paredes lilás-azuladas do meu quarto. Eu viveria um romance com meus próprios hábitos.

Acho que a única rotina que sigo religiosamente é sonhar com a rotina ideal.

 

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Garotas mortas por todos os lados

Gillian Anderson como Stella Gibson no seriado The Fall.

Às 2:25 de uma madrugada tranquila de sexta-feira, numa rua deserta no interior do sudeste da Pensilvânia, a primeira garota morta saiu de sua geladeira.

Assim começa o conto eyes I dare not meet in dreams, de Sunny Moraine, publicado em junho desse ano no Tor.

A história narra o fenômeno de dezenas, centenas, milhares de garotas mortas saindo de suas geladeiras. Dizem que as geladeiras caíram aqui através de alguma fenda no tecido da realidade. No meio da rua, na beira da calçada, na porta de casa, no corredor de um avião em pleno voo. Garotas mortas por todos os lados. Deixando todo mundo atordoado e desconfortável e sem saber o que fazer porque elas só encaram e ocupam espaço e insistem em existir com seus corpos ensanguentados e putrefatos–exigindo em silêncio que sejam notadas, vistas, reconhecidas. Na morte, ainda que tarde.

Dos 27 comentários na página do conto, logo o primeiro é alguém questionando por que apenas garotas mortas? Por que não garotos? Afinal, eles também são assassinados. E de todos os exemplos que a pessoa poderia dar, ela tira do vórtex da aleatoriedade as vítimas do serial killer Jeffrey Dahmer. Parece mais um comentário arquitetado para descarrilar a seção de comentários para a troca de ofensas do que uma dúvida genuína. Not today, pomo da discórdia, not today. Alguns respondem com calma, explicando que o conto claramente se refere ao tropo das Mulheres na Geladeira (Women in Refrigerators). E, por isso, o foco é em garotas. Como se houvesse a necessidade de um motivo para focar o conto em garotas além da vontade de quem escreveu de focar o conto em garotas.

A história de Sunny foi originalmente escrita para o blog Cyborgology (que sigo no Feedly há tempos e recomendo muito para quem curte ler sobre os impactos sociais de tecnologias). Em suas palavras, o texto era mais um rant do que um conto, nascido do acúmulo de raiva sobre a overdose do tropo das Mulheres na Geladeira em tantas mídias na cultura pop.

Às vezes eu não consigo mensurar até onde estou dessensibilizado para o uso gráfico, desproporcional, desnecessário e sem contrapontos da violência misógina naquilo que leio ou assisto. E naquilo que escrevo. Já escrevi minha parcela de garotas mortas, estupradas, mutiladas, descartadas. Sem realizar o exame necessário na construção dessas narrativas, sem questionar toda cultura de desvalorização e culpabilização internalizadas desde a infância, desde os primeiros assédios, desde que aprendemos que as coisas são assim mesmo e cai em nossas mãos a responsabilidade de criar estratégias de evasão e sobrevivência.

Nunca fui de ler romances policiais. Minha única memória de Agatha Christie foi quandoi li E no final a morte (Death Comes as the End no original em inglês) na adolescência. Lembro de ter escolhido esse livro na biblioteca da escola só porque ele se passava no Egito Antigo. Mas tenho assistido seriados policiais demais. Estou cercado de garotas mortas. E digo garotas em vez de mulheres porque tantas são tão novas em idade. Ou seus cadáveres são dispostos de forma a parecer que uma ingênua estátua disfarçada de gente foi violada, despida, coberta de sangue ou dilacerada da garganta ao umbigo. Inocência maquiada a mãos masculinas, distorcida sob uma visão misógina que não condiz com a realidade de um corpo de mulher autônomo, dono de si, resiliente mesmo quando vulnerável.

Não resisto ao modelo do detetive obcecado com um caso difícil, aparentemente insolúvel, espalhando pistas e referências pelas paredes, rabiscando fotografias e traçando conexões com linhas de costura num mural da piração. Costurando teorias mirabolantes, hipercafeinado até vibrar para uma dimensão paralela. Talvez eu me reconheça um pouco na obsessão. Escorrego no óleo dos trilhos várias vezes ao longo do caminho quando estou absorvido na criação de alguma história que dá nó nos meus miolos. Daí fui à caça de seriados policiais. E me vi cercado de garotas mortas.

Estou farto de tantas garotas mortas.

Também não consigo ficar saciado de tantas garotas mortas.

Os seriados que mais me sacudiram foram aqueles com protagonistas detetives mulheres lidando com os crimes mais brutais contra outras mulheres e, em algum momento da investigação, lidando com tentativas de agressão e assassinato contra elas mesmas. Isso sem falar nos dramas familiares com doses cavalares de relações se despedaçando e solidão e no escrutínio que os olhares masculinos lançam às vidas sexuais das detetives. Destaco The Fall, com Gillian Anderson no papel de Stella Gibson e The Killing, com Mireille Enos no papel de Sarah Linden. Se você quiser ficar destruído que nem eu fiquei, esses dois seriados são o que há de melhor. E estão cheios de garotas mortas. Elas me encaram incessantes. Acho que passei a encarar de volta numa tentativa inconsciente de me comunicar.

 

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A inquietação diferencial da escrita

María Fernanda Cardoso, Woven Water: Submarine Landscape, 1994, estrelas-do-mar secas com cabos de metal. Museu de Belas Artes, Houston. Compra do museu financiada pelo Fundo de Arte Caribenho. © María Fernanda Cardoso.

Mês passado o canal da Vox postou um vídeo sobre a evolução dos filmes da Lego, mostrando como filmes de fãs foram responsáveis por moldar o visual e as decisões criativas que fizeram do The Lego Movie, de 2014, sucesso de público e crítica.

Nas palavras do designer de produção Grant Freckelton, o filme de 2014 é 99% computação gráfica, mas respeitando as regras do stop motion ao emular o estilo do stop motion. Porque eles resolveram obedecer as leis que regem a fisicalidade de uma peça de lego.

Os filmes que precederam The Lego Movie sofriam de uma indecisão existencial. A animação não sabia se obedecia às limitações físicas da peça ou se abarcava os movimentos de algum material emborrachado e, ao misturar elementos desses dois extremos do espectro, resultava em algo que não existia nem lá, nem cá. Era puro uncanny valley de plástico.

Ao estabelecer limites rígidos para a animação de 2014, as decisões criativas resultantes possuíam uma vitalidade ímpar.

Receosos de firmar limites narrativos e tomar decisões estéticas duras, muitos autores escrevem histórias que também não estão nem lá, nem cá e constroem personagens que mal sabem quem são, o que querem ou para onde estão indo. Pode parecer contra-intuitivo, mas a imaginação floresce a partir dos limites que lhe são impostos. E do ato decisivo, do trabalho que cresce iteração após iteração. Porque não adianta ficar imaginando mil possibilidades na cabeça. É preciso realizar a escrita e descobrir-se no processo, na poda de ramificações.

Como diz Anne Bogart em seu livro A Director Prepares: Seven Essays on Art and Theatre, que mencionei no post das leituras de junho, a arte é violenta porque ser decisivo é violento. Apenas quando algo é decidido, que o trabalho pode começar.

Ser articulado frente às limitações é onde a violência se estabelece. Esse ato necessário de violência, que à primeira vista parece limitar a liberdade e diminuir opções, acaba abrindo muito mais opções e pede por uma percepção de liberdade mais aprofundada do artista.

Em abril os autores da Página 7 compartilharam dicas de escrita na página da agência no Facebook. O pessoal comentou aspectos valiosos, como não cair no mito do escritor isolado, respeitar seu ritmo e não compará-lo aos dos outros. O desmiolado aqui ficou de mandar uma dica, atrasou e, no fim das contas, não mandou. Meu primeiro reflexo era responder: não escreva porque é uma dor horrível e a gente não ganha dinheiros o suficiente pra ter plano de saúde. Mas, deflexões autodepreciativas à parte, o que eu matutei sobre o assunto foi que precisamos achar nossos pontos de desconforto e cultivá-los.

Saber alimentar suas inquietações é fundamental. Porque é o estado de desassossego que vai te agitar para fora da mesmice, ao invés de ficar à espera da aparição mágica de uma musa que não existe ou das condições ideais de temperatura e mobília que nunca se alinharão. E isso inclui realizar o trabalho–pesquisa, referência, decisões violentas, adquirir novas habilidades e desbravar novos interesses. Escrever sem musa ou inspiração. Desconfortável até quebrar a resistência. Vai por mim, você fará bem em deixar sua inquietação correr selvagem e bem alimentada.

Já dizia o pintor Chuck Close que inspiração é para amadores, o resto dos desgraçados ordinários senta a bunda na cadeira e trabalha. Enganchando no que disse Gustave Flaubert ao escrever numa carta que sendo regrado e habitual em sua vida, é possível ser violento e original em seu trabalho. Austin Kleon escreveu sobre roubar como um artista para nos desavergonhar de usar e abusar de referências diversas porque é assim que todo artista aprende. Kirby Ferguson popularizou em seus ensaios em vídeo o conceito de que tudo é um remix e traçou linhagens históricas fascinantes, mostrando que fazemos parte de uma conversa coletiva de proporções colossais com obras do passado e obras do futuro. Amanda Palmer falou sobre o liquidificador de conexões inesperadas que cria a arte em níveis progressivos de complexidade (a distância entre a realidade que vivenciamos e a arte que criamos), numa escala que gosto de associar à Teoria Cuil, que mede níveis de abstração para o surreal, o bizarro, o estranho e o insólito.

Ideia é vapor barato. Criatividade não é recurso em risco de se extinguir do substrato cerebral. A gente cava, dinamita, alaga, aterra, empilha, desmonta, refaz e as ideias transbordam e se alargam e ocupam espaço e viram o próprio espaço e se vão carregando um pedaço da gente junto para depois voltar transformados–a ideia e nosso pedaço numa coisa só, nova e brilhante. O tempo é circular e estamos trombando com a gente mesmo num ciclo que não acaba nem na morte, pois continua no carbono e no fósforo e na água. A água do poço que nunca seca. Tartarugas em regressão infinita que nada. São aquíferos sobre aquíferos sobre aquíferos o caminho inteiro.

Não hesite em usar todo seu conhecimento, todo seu vocabulário, toda sua magia hoje. Amanhã seu arsenal já será diferente.

Maya Angelou falou da condição inexaurível da criatividade numa entrevista à Bell Telephone Magazine em 1982:

Não tem como você usar a criatividade até acabar. Quanto mais você usa, mais você tem.

Até uns 6 ou 7 anos atrás eu tinha essa crença de que precisava economizar ideias ou esgotaria minha criatividade. Quando somos muito novos e imaturos e nos sentimos invencíveis, também achamos que estamos parindo todas as melhores ideias ali, no ápice do nosso melodrama adolescente-pupando-para-jovem-adulto. Parece cementado, enraizado, cristalizado que estamos escrevendo as melhores histórias de todas as histórias do cosmos que orbita em gravidade distorcida ao redor do nosso umbigo. Tudo soa fatalista, definitivo e incorrigível ao mesmo tempo em que tudo flui efêmero, escorregadio e intangível.

A juventude habita um pandemônio transviado de hipérboles. É irresistível. Às vezes sinto saudades de ter tantas certezas percussivas, surgindo a quatrocentas batidas por minuto e se transformando em contrapontos incongruentes no mesmo ritmo. Mas aqui, do alto dos meus vinte e seis anos, com as asas ainda se desfolhando, entendi que o desconforto de tantas incertezas pode ser terreno fértil para a ficção quando sabemos cultivar, podar e colher.

Como diz o músico e compositor Anthony Braxton:

Cada um de vocês precisa escrever sobre sua música. “O que você tá fazendo?” “O que você acha que tá fazendo?” Se você não escrever sobre isso, seja lá o que for que você tá fazendo, você corre o risco de esquecer. Talvez você precise sentar e se perguntar “O que eu tô fazendo?” e escrever… Eu tô sempre tomando notas sobre meu sistema… Cada um de vocês, na minha opinião, faria bem em sentar e se perguntar “O que caralhos eu tô fazendo? Eu falo que gosto de música, nem tenho certeza se gosto de música, mas talvez eu goste de música. O que eu tô fazendo? Pra onde eu tô indo com isso? É só sobre um trabalho?” …Cada um de nós precisa assumir aquela responsabilidade. Isso é uma responsabilidade. Se você vai ser pobre e louco, pelo menos faça o seu melhor. E parte de fazer o seu melhor é definir as coisas de maneira que seja possível evoluir. Se não há clareza, se tudo é turvo, então você pode não estar usando todas as suas forças da melhor maneira dependendo do que você está procurando e dependendo do que você quer para você mesmo… Eu diria, “Ei, não seja uma pessoa tão gentil.” Você precisa ficar com raiva de alguma coisa… Você precisa se lembrar de que não vivemos no céu. Isto não é o céu. Isto é a realidade composta. É muito melhor que o conceito de céu. Com a realidade composta, tudo está acontecendo. É por isso que você precisa navegar pela forma. Parte da navegação é incluir você mesmo e sua vida…

Anthony Braxton fala em composite reality que é a realidade complexa por ser constituída de múltiplos elementos, distinguíveis ou misturados. Eu gosto de chamar de realidade composta mesmo porque me vem à mente algo orgânico, vivo, perecível, mutante, imperfeito, bagunçado, sempre respondendo às pressões do ambiente, em colaboração constante e sensível com outras criaturas dentro de si e interagindo com a matéria à sua volta a nível molecular.

Escrever como metabolismo, simbiose, manipulação, resposta–ou a busca incessante, ainda que vá findar em nada.

Se não há inquietação seguida de questionamento, perdemos a perspectiva.

É fácil perder a perspectiva. Eu perco a minha com frequência e só a recupero no exercício mental exaustivo que pratico ao examinar minhas vontades e motivações. É como se eu precisasse lembrar a mim mesmo por que escrevo, o que escrevo, para quem escrevo. Redescobrir-se a cada crise de desesperança. Escrever ainda que não houvesse ninguém para ler. Mas como há leitores em constante interação e emaranhamento em minha vida e em meu processo, procurar entender o que esses diálogos e essas trocas significam.

Escrever é um trabalho solitário, mas não precisa ser um trabalho isolado. Às vezes, dependendo de suas condições socioeconômicas, situações financeiras, arranjos familiares e estados neuroatípicos, pode parecer que existimos numa velocidade diferente, descolados do resto do tempo. Pode parecer que tá todo mundo correndo o mundo acelerado, vivendo mil experiências no espaço que leva para levantar da cama, andar meia dúzia de passos e sentar na cadeira em frente ao computador (ou notebook ou caderno ou placa de argila ou seja lá onde for que você escreva) carregando uma ninhada de ansiedades e agonias no colo.

É essencial ter uma rede de apoio de amigos e escritores. Porque quando a gente tá mal, não há mito romantizado do escritor sozinho atormentado que dê jeito. E que se foda a comoditização do artista falido em tempos de crise como iluminador das massas. Quando a gente tá mal, a gente só faz ficar mal. Quando a gente tá mal, a perspectiva se perde. A apatia e a anedonia desintegram os pontos de desconforto que nos agitariam e evaporam com as inquietações. Tudo se equaliza num plano cinzento e sem horizonte que nos desmotiva até a inação. A criatividade não tem onde respirar num ambiente desses e morre sufocada.

Recuar e enclausurar-se numa câmara de isolamento sensorial também não ajuda. A realidade composta não vai parar de explodir e reconfigurar-se a cada milissegundo.

Anne Bogart:

O objetivo é tentar dizer algo no correr do fluxo mesmo que você não saiba a coisa certa a ser dita. Faça uma observação. Permanecer em silêncio, evitar a violência da articulação alivia o risco de fracassar, mas ao mesmo tempo também não há possibilidade de avanço.

Avante, autores.

Sejamos violentos, selvagens, inquietos, decisivos e articulados como um filme de Lego.

 

Notas:

1. As citações de Anne Bogart são traduções livres do original em inglês:

To be articulate in the face of limitations is where the violence sets in. This act of necessary violence, which at first seems to limit freedom and close down options, in turn opens up many more options and asks for a deeper sense of freedom from the artist. (pág. 47)

To try to say something in a state of flux even if you do not know the right thing to say is the point. Make an observation. To be silent, to avoid the violence of articulation alleviates the risk of failure but at the same time there is also no possibility of advancement. (pág. 49)

2. Aqui estão todas as dicas compartilhadas pelos/as autores/as da Página 7. Clique nos links para ler a dica inteira. Pam Gonçalves: Analise como os seus escritores favoritos constroem as narrativas. / Iris Figueiredo: Respeite o seu tempo. Cada escritor tem um ritmo de escrita. / Fernanda Nia: Verifique a importância de cada parágrafo do texto para o resto da obra. / Babi Dewet: Releia o seu texto em voz alta. / Lucas Rocha: Colocar o ponto final é uma das sensações mais gratificantes durante o processo de escrita. / Bárbara Morais: É necessário compreender o espírito da história e o que ela significa para você. / Dayse Dantas: Tenha disciplina, escrever é um trabalho e você precisa estabelecer horários e responsabilidades. / Roberta Spindler: Revise o texto e procure sempre melhorar, estudando e lendo bastante. / Mareska Cruz: Não compare seu ritmo de escrita com o de ninguém. / Bel Rodrigues: Encontre a sua voz. Às vezes, o seu gênero favorito para ler não é o mesmo para escrever. / Pedro Pereira e Hugo Francioni: Deixe a imaginação fluir sem se preocupar com a perfeição. / Sofia Soter: Não caia no mito do escritor solitário. / Clara Browne: É durante o processo da escrita que você percebe o que funciona. / Lorena Piñeiro: A tristeza, o desespero e o pesar não são os únicos motores para a criatividade.

3. A citação da Maya Angelou é uma tradução livre do trecho original em inglês: You can’t use up creativity,” she stresses. “The more you use, the more you have. It is our shame and our loss when we discourage people from being creative. We set apart those people who should not be set apart, people whom we assume don’t have a so-called artistic temperament, and that is stupid.

4. A citação do Anthony Braxton é uma tradução livre do trecho que vi na edição Weird Shit International, de 14 de maio, da Orbital Operations, newsletter do Warren Ellis. A citação no original em inglês: Each of you need to write about your music. “What are you doing?” “What do you think you are doing?” If you don’t write about it, whatever you think you are doing, you might forget it. Maybe you need to sit down and ask the question “What am I doing?” and write it out…Me, I’m always taking notes on my system…Each of you, in my opinion, would do a very good thing by sitting down and asking yourself “What the f- am I doing? I say I like music, I’m not even sure if I like music, but maybe I do like music. What am I doing? Where am I going with it? Is it just about a gig?”…Each of us has to take that responsibility. That’s a RESPONSIBILITY. If you’re going to be broke and crazy, at least do your best. And part of doing your best is defining things in a way where it’s possible to EVOLVE. If there’s no clarity, if everything is murky, then you might not be using all of your forces in the best possible way depending on what you are looking at and depending on what you want for yourself…I would say, “Hey, don’t be such a nice a person.” You need to get angry about something… You need to remember that we don’t live in heaven. THIS IS NOT HEAVEN. THIS IS COMPOSITE REALITY. It’s much better than the concept of heaven. With composite reality, everything is happening. This is why you have to navigate through form. Part of navigation is including yourself and your life…

 

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Entendendo a leitura sensível

No dia 30 de junho de 2017 a Folha publicou uma reportagem sobre leitura de sensibilidade chamada Mercado editorial adota função do ‘leitor sensível’ para evitar boicotes, assinada pela jornalista Amanda Ribeiro Marques. Como eu não olho mais timelines de redes sociais, só fiquei sabendo das reações através de comentários de amigos. Para a surpresa de absolutamente ninguém, determinados grupos de autores acharam a coisa toda um absurdo, escorando-se na opinião de que a leitura sensível é um tipo de censura do politicamente correto.

O serviço ainda é relativamente novo ao mesmo tempo em que é algo que sempre existiu no mercado literário antes que fosse compartimentalizado e nomeado como tal. Ainda há uma torrente de dúvidas e desentendimentos sobre a leitura sensível, então resolvi postar alguns esclarecimentos aqui.

A Amanda Ribeiro Marques (que, por sinal, foi muito simpática e mostrou interesse genuíno no assunto) entrou em contato comigo antes da matéria ser publicada para entender melhor como esse serviço funciona aqui no Brasil e quais são minhas opiniões sobre esse papo todo de censura.

Abaixo eu reproduzo as respostas que dei. Modifiquei um pouco as perguntas para se adequarem melhor ao post, adicionei algumas informações às respostas e incluí tuítes de amigos que comentaram o tema nos últimos dias.

Quando comecei a trabalhar como leitor sensível?

De certa maneira, desde que comecei a trabalhar como leitor crítico de ficção em 2012. A partir de 2014, depois que comecei a falar abertamente sobre transgeneridade e não-binariedade, alguns amigos e leitores entraram em contato comigo com dúvidas sobre personagens trans que eles estavam escrevendo ou queriam escrever, receosos de cometer algum erro ofensivo ou reproduzir estereótipos. Em 2015 eu ministrei um minicurso virtual gratuito sobre como escrever personagens trans e, desde então, ofereço meus serviços como leitor sensível para analisar histórias com personagens trans/não-binários e/ou bissexuais, que são as identidades que vivo, além de serem temas que estudo como escritor e artista.

Quando esse tipo de revisão começou a se difundir aqui no Brasil?

Esse tipo de revisão já vem sendo feita há muito tempo dentro dos serviços de leitura beta, leitura crítica e consultoria, mas só nos últimos anos que ganhou o nome de leitura de sensibilidade ou leitura sensível e destacou-se como um serviço à parte. Pelo que observo através do meio literário da ficção especulativa, que é a ficção que escrevo e acompanho mais de perto, a leitura sensível começou a se difundir no Brasil há poucos anos, depois que a autora americana Justina Ireland popularizou o assunto na internet e a discussão no mercado anglófono fluiu para o mercado nacional.

Como bem disse o autor JM Trevisan:

Como funciona o processo de revisão de um manuscrito?

Eu leio a história à procura de problemas de representação quanto ao grupo ou personagem que estou analisando, como perpetuação de discursos de ódio sem motivo relevante para a narrativa, caracterizações estereotipadas, linguagem ofensiva ou problemática que foi incluída sem contraponto ou questionamento, questões desse tipo onde os preconceitos e pontos cegos da escritora transparecem no texto. Ao final, eu escrevo um relatório apontando todos os problemas que encontrei e sugerindo mudanças. Dependendo das questões levantadas pela análise, também posso sugerir fontes de pesquisa sobre o assunto ou outras pessoas para a escritora consultar. O que será mudado no texto, se for mudado, e como será mudado, fica nas mãos da escritora.

Antes de aceitar o trabalho, eu faço questão de garantir que minha análise será essencial para o texto, que aquilo que eu posso oferecer se encaixa nas necessidades do texto e no orçamento da escritora. Por exemplo, uma vez uma escritora quis me contratar para ler seu conto com uma garota trans como protagonista. Eu disse que poderia analisar a representação trans, mas, como pessoa não-binária transmasculina, detalhes importantes sobre a vivência da personagem poderiam me escapar. Então sugeri que ela procurasse também a leitura sensível de uma mulher trans. Ou, se ela tivesse condições de pagar apenas uma leitura, que ela priorizasse a leitura de uma mulher trans.

Qual é o preço médio cobrado por uma revisão desse tipo?

Depende. O site Writing In The Margins, da autora Justina Ireland, que abriga um banco de dados com vários leitores de sensibilidade, recomenda 250 dólares para a leitura de romances (mais de 60 mil palavras). Há muitos leitores que analisam ficção curta, como noveletas e contos, e cobram uma fração desse valor, dependendo do número de palavras do texto. Uma noveleta pode sair a 50 dólares, por exemplo. Para o mercado nacional, para textos escritos em português, o valor em reais é certamente mais barato do que o preço médio em dólares do mercado anglófono.

Eu cobro meus serviços de leitura sensível da seguinte maneira:

Conto (até 8.000 palavras): R$ 80
Noveleta (8.000 até 18.000 palavras): R$ 150
Novela (18.001 até 60.000 palavras): R$ 300
Romance (60.001 palavras ou mais): R$ 500

Outros leitores dividem de maneiras diferentes quanto ao número de palavras. Há leitores que categorizam romance como textos de 40 mil palavras ou mais e outros como textos de 50 mil palavras ou mais, por exemplo, então os valores podem variar bastante de um leitor para outro por causa disso também.

Há outros leitores sensíveis brasileiros?

Sei que há outros brasileiros fazendo esse trabalho no mercado anglófono.

Acho que o mercado para leitores sensíveis no Brasil ainda tá no começo. A própria ideia da leitura de sensibilidade, o que ela é e qual sua importância, é algo que precisa ser divulgado e popularizado. Até serviços que já estão bem estabelecidos no mercado nacional como a leitura crítica e o agenciamento de autores ainda são ideias meio desconhecidas ou confusas para muitos escritores. A leitura sensível ainda é bem nova e estranha para muita gente.

Sei que há leitores que fazem algo do tipo e talvez nem saibam, talvez façam esse tipo de análise durante uma leitura beta ou ajudando amigos escritores. Mas leitores que fazem esse trabalho de forma profissional mesmo, por enquanto só conheço os que atuam no mercado anglófono.

Felizmente a discussão recente animou uma galera muito boa a começar a oferecer esse serviço, como a autora Olivia Pilar (que escreve contos fofíssimos com personagens negras e queer que vão deixar seu coração quentinho).

Qual é a importância do trabalho do leitor sensível dentro da produção literária brasileira?

É ajudar a escritora a criar histórias melhores. O artista é livre para explorar todas as possibilidades que sua imaginação conjurar e isso inclui escrever personagens que fogem ao seu dia-a-dia, às suas experiências pessoais, ao seu círculo de amizades e aos seus limites de classe, profissão, gênero, sexualidade, etnia, o que for. Se o autor quer escrever uma personagem que é uma geofísica trabalhando com prospecção mineral, ele irá pesquisar sobre o assunto e consultar alguém que trabalha com isso. Ele terá que consultar uma mulher geofísica não apenas para saber sobre seu trabaho, mas também para entender a misoginia que ela enfrenta no meio, algo que será crucial para sua personagem. O leitor sensível oferece esse mesmo tipo de ajuda, mas analisando o texto depois que ele está escrito.

Falando da área em que atuo, concordo com a autora Cheryl Morgan quando ela disse num artigo publicado na Strange Horizons que ela rejeita a ideia de que personagens trans devem ser escritos apenas por autores trans porque autores cis estão fadados a errar. Não há autores trans o suficiente no mundo para realizar essa tarefa. E nós merecemos fazer parte de toda ficção, não apenas aquela escrita por nós mesmos. Eu quero que cada vez mais gente, cis e trans, escreva personagens trans. E quero ajudar nessa tarefa sempre que possível, sempre que necessário.

O leitor sensível não é inimigo do autor, nem está à caça de textos problemáticos para destruí-los por esporte. No fim do dia nós temos o mesmo interesse: fazer boa literatura e construir histórias que vão desafiar, instigar e encantar os leitores.

E sobre esse papo de que leitura sensível é censura?

Considerando o histórico violento de repressão política e social em nosso país durante os anos da ditadura, essa comparação é desonesta e ignorante. O Estado não possui um Conselho Secreto de Leitores Sensíveis que aprova ou veta textos literários. O leitor sensível tampouco possui o poder de censurar o trabalho de outra pessoa. Na maioria das vezes o leitor sensível é alguém que pertence a grupos que ainda sofrem uma longa história de opressão sistêmica e institucional, violência e apagamento. Compará-lo à figura do censor, à autoridade que costuma ter as botas sobre seu pescoço, seria irônico, se não fosse absurdo. O autor pode ignorar completamente a análise do leitor sensível e não modificar seu texto. Ou pode aceitar apenas parte das mudanças sugeridas. Se o leitor sensível é contratado por uma editora e o autor não está satisfeito com as transformações sugeridas, ele pode mudar de editora e procurar uma casa editorial que coincida com suas visões. Ou publicar de maneira independente. Não faltam opções. O que o autor precisa entender é que ninguém é obrigado a publicá-lo e ninguém é obrigado a lê-lo. O autor é livre para escrever o que quiser e os leitores são livres para reagir ao texto ou ignorá-lo.

Como resumiu a autora Jana P. Bianchi:

E o autor Eric Novello:

Aqui uma thread da autora Iris Figueiredo sobre o assunto:

A função do leitor sensível é trabalhar em manuscritos de maneira que os autores não machuquem e incomodem seus leitores?

O incômodo é sempre bem-vindo na arte quando ele incomoda o grupo que detém o poder, seja ele econômico, social ou político. A subversão acontece nesse espaço. Se um trabalho de ficção perpetua um discurso de ódio sem questioná-lo, desafiá-lo ou oferecer um contraponto, o texto não faz nada mais do que causar danos a quem o lê e se vê mal representado como uma caricatura de papelão (o imigrante muçulmano terrorista), uma pessoa incompleta (a mulher que existe apenas em função do personagem masculino) ou um estereótipo ofensivo (a mulher negra hipersexualizada que serve ao olhar do homem branco). Isso é literatura preguiçosa, rasa, unidimensional. E pode ter um forte impacto negativo em leitores que crescem com histórias que ignoram sua existência ou que os tratam como criaturas subhumanas ou piadas imaturas. Em contraste, boa representação–feita com inventividade, responsabilidade e o envolvimento de pessoas do grupo representado–trata seus leitores como as pessoas complexas que são, multidimensionais, espertas, engajadas e merecedoras de uma boa história.

Existe um limite para a liberdade de expressão na literatura?

O limite é a vontade da artista. A escritora é livre para escrever e publicar o que ela quiser. Isso não significa que o texto publicado estará isento de ser analisado, questionado, criticado e discutido.

Se eu pudesse responder com uma imagem, responderia com esse quadrinho do XKCD:

Tradução: “Aviso de Utilidade Pública: O direito à liberdade de expressão significa que o governo não pode te prender pelo que você fala. Não significa que todo mundo tem que ouvir as merdas que você diz ou hospedar seu evento. A 1ª Emenda não te protege de críticas e consequências. Se gritam, te boicotam, cancelam seu show ou te banem de uma comunidade na internet, seu direito à liberdade de expressão não está sendo violado. Significa apenas que as pessoas que estavam ouvindo te acham um babaca. E estão te mostrando a porta de saída.”

Para ler mais sobre o tema, recomendo o artigo Is My Novel Offensive? How “sensitivity readers” are changing the publishing ecosystem—and raising new questions about what makes a great book que foi publicado na Slate em fevereiro desse ano.

E como disse o Neil Gaiman, não importa o que aconteça, mesmo que o cosmos entre em colapso ou seu gato exploda em confetes fosforescentes: faça boa arte.

Faça boa arte

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Para me contratar como leitor sensível, clique aqui para saber mais detalhes sobre o serviço e pedir sua leitura.

Também estou com uma promoção de leitura crítica lá no Facebook que vai até o fim de julho.

Qualquer dúvida, pode entrar em contato comigo no Twitter, no Facebook ou por email.

 

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