Minha Lista de Leituras Para a Maratona Literária de Inverno 2015

Nunca fui de participar de maratonas literárias. Mal tenho noção da quantidade de livros que leio—às vezes quase nada, às vezes me afogo. Quando eu ainda tinha Skoob, catalogava os volumes por lá. Já abandonei a rede tem algum tempo—muito spam, interface bugada, sociabilidade ineficiente. Mas curto falar pelas interwebz das leituras que me empolgaram e faço isso pelas esquinas do Twitter e através de posts espalhados e não muito organizados. Agora que estabeleci essa nuvem como cenário dos meus hábitos literários, resolvi que tentar dar aquela entropizada e injetar ordem nem que seja por um mês poderia ser divertido. Daí aderi à Maratona Literária de Inverno desse ano e estou seguindo exatamente: zero regras (que estão explicadas aqui). Mas como o núcleo da maratona é ler mais do que o seu costume, fiz uma listinha com mais livros de ficção porque ando lendo muita não-ficção.

Vamos à lista: Continuar lendo

O Tempo de Validade do Texto & o Ponto de Silêncio

Desde 28 de Dezembro de 2014 que eu quero escrever sobre Leelah Alcorn. E dia após dia eu não consigo digitar nem uma letra sequer sobre o assunto. São 161 dias de tentativas fracassadas. São 161 dias de querer contribuir para a conversação em torno da dor de jovens trans com palavras de valor que realizariam parte do que Leelah desejou em sua última nota. São 161 dias de não conseguir apagar da cabeça a brutalidade do ato, a violência do choque de um caminhão contra o corpo de uma adolescente.

Esse texto não é um texto sobre Leelah Alcorn. Também não é um texto sobre querer escrever um texto sobre Leelah Alcorn. Esse texto é sobre o tempo de validade que carimbamos em determinados assuntos e sobre nossa necessidade ignorada de deixar essa data artificial se desintegrar sozinha. Porque às vezes precisamos tomar conta de nós mesmos em nossos momentos de silêncio antes de sair às ruas digitais do ativismo com argumentos erguidos. Porque existe um abuso pernicioso que nem todo mundo percebe que sofre, nem todo mundo percebe que comete; Continuar lendo

Aloprando os Algoritmos do Facebook

Lembro de ter criado meu primeiro perfil no Facebook na época do colégio, no meio da adolescência, quando o Orkut ainda tava a todo vapor e o Facebook era um matagal abandonado entupido de badges de resultados de testes desgraçaralhos desses que hoje em dia a gente faz no Buzzfeed. Fiquei com aquele perfil por anos e anos, cultivando o bicho com novas amizades, achando amizades antigas, stalkeando alguém aqui, esfregando algo na cara de alguém ali. Era divertido no começo. Depois o espaço ficou tão tóxico, tão abarrotado de discursos de ódio e elementos supérfluos. Mas aí eu já tinha feito uma página para divulgar meus trabalhos e não queria abandonar aquele meio. Até que mudaram as políticas do site e agora a gente precisava pagar pelo espaço e pela visibilidade, senão os algoritmos engoliriam seus posts para dentro do cu do Zuckerberg. A efetividade tava zero, a eficiência tava zero, a paciência tava zero. Deletei tudo. Deletei post por post antes de deletar o perfil em si, porque senão seu histórico não é devidamente apagado.

A vida pós-Facebook é uma boa vida. Meu estresse caiu pela metade. E meu cérebro não tava mais sendo ocupado com detalhes da vida dos outros que nunca interessou mesmo a ninguém a não ser à própria pessoa.

Pensei: ‘não volto nunca mais’.

Err, só que eu voltei. Continuar lendo

As Ferramentas do Trabalho

Eu adoro papear sobre as ferramentas, dispositivos, e gadgets que usamos para executar nosso trabalho—principalmente se o trabalho envolve escrever quantidades obscenas de texto e produzir algum tipo de arte visual que passa pelo digital. Mas eu sou um tecnófilo pobre, então muito eu só conheço de ler/ouvir falar e não de botar as mãos na coisa e experimentar em primeiro plano.

Daí é sempre interessante dar uma espiada no que os artistas que curto estão usando. Mês passado o Warren Ellis apareceu lá no LifeHacker falando das ferramentas que utiliza e dos seus hábitos de trabalho. Computadores, por exemplo, ele usa um Lenovo T440 com touchscreen, um Dell XPS 13 edição de 2015, e um Chromebook Pixel (que eu acho que surpreendeu muita gente). Entra nesse conjunto também um monitor ASUS de 21 polegadas. Um gadget que me chamou a atenção foi o TextBlade (que no momento em que a entrevista foi publicada, ele já tinha comprado o produto e tava esperando chegar). O TextBlade é um teclado portátil, desmontável/reconfigurável, levinho, fininho, wireless, de aço e policarbonato, ímãs de neodímio, com base de silicone. Eu quase babei descobrindo a existência disso.

Eu tô na mesma velha mesa de madeira que eu comprei vinte anos atrás. Não mando uma foto porque ela tá uma bagunça do caralho que me faz parecer um hoarder porque tem um monte de lixo que eu desovei uns meses atrás aqui e ainda não tive tempo de processar.

Compartilho essa dor, Warren. Continuar lendo

Textos em Trânsito

Quase não saio de casa, então não preciso me preocupar com flexibilidade de dispositivos de leitura (já que minha leitura é majoritariamente digital). Mas gosto de responsividade no browser e nos aplicativos que uso aqui nesse notebook (e usava no pc que permanece semimorto). Imagino que se eu saísse com frequência, leria os mesmos textos longos através de diferentes aparelhos ao longo do dia, cada um adequado a determinado ambiente e habilidade motora.

O texto que cai em trânsito normalmente não foi criado para ser essa criatura em movimento. Ele foi criado para ficar sossegado num substrato único e imperturbável. Bicho séssil que a gente arranca sem dó nem pena, desenraíza e sai carregando debaixo do braço.

O livro físico de capa mole e dimensões confortáveis é bom de amassar até se despedaçar por entre os dedos ou cair numa poça d’água no meio da rua–mais tarde salvo pelo bafo quente de um secador, deixando as páginas meio rugosas, meio frisadas. Durabilidade mesmo acho que é só vontade. Nem o físico, nem o digital–que corrompe, quebra, racha, deleta, buga. Continuar lendo

Um Dia Frio

Um bom lugar para ler um livro dormir até afundar no travesseiro babado.

Eu funciono melhor em tempo fresco, portanto, leio mais e melhor quando não tô me derretendo todo numa poça enquanto meu fígado ferve acebolado nas minha entranhas. Mas há um equilíbrio delicado aí. Se eu precisar calçar minhas meias de lã e ser engolido por um moletom largo, a preguiça me arrasta para as cobertas e eu entro num estado de hibernação que me impede de fazer esforço até pra ler. Sempre que vejo pelos tumblrs essas ilustrações em tom pastel de personagens rocamboleados numa concha entre almofadas e uma janela chuvosa com um livro nas mãos, bate aquele desejo de entrar na imagem e curtir aquela sensação com uma caneca de chocolate quente e um suspiro. Cinco segundos depois eu percebo que se fosse eu ali, já teria largado o livro na beira do colchão e me esparramado nos lençois. (O chocolate eu teria bebido todo primeiro, claro, que desperdiçar chocolate é uma heresia intergaláctica).

Precisamos de uma variável de desconforto físico ao ler. Continuar lendo