em Ideias, Lendo Ficção

A bruxaria que rege a mão esquerda da ciência

Jaime Murray no papel de H. G. Wells no seriado Warehouse 13.

Meu autor de ficção científica favorito da infância foi Jules Verne. Eram dele os livros que eu mais pegava na biblioteca do colégio quando ainda era um pingo de gente. Boa parte das histórias que eu escrevia era fortemente derivada inspirada em Vinte Mil Léguas Submarinas e Viagem Ao Centro Da Terra, os dois extremos–mar a fundo e vulcão adentro–que eu gostaria de explorar. Mas H. G. Wells também se enfiou num cantinho do meu coração antes mesmo que eu pudesse ler algo do autor. Ainda criança, comprei o livro Doenças Mortais da coleção infanto-juvenil Saber Horrível numa feira do colégio. E foi ali, num capítulo sobre infecções, que eu descobri a história de Guerra dos Mundos (onde alienígenas são aniquilados por micróbios terrestres), e fui apresentado a H. G. Wells.

Mas não demorou muito e minha atenção infantil foi capturada por Michael Crichton e Philip Pullman e mais tarde na adolescência por William Gibson e China Miéville. Meu fascínio com H. G. Wells só renasceu esse ano, graças ao seriado Warehouse 13, onde H. G. Wells é uma mulher bissexual e agente da Warehouse que volta à ativa depois de passar mais de um século num estado aprisionado de hibernação. Desde Doctor Who que eu não recuperava meu interesse por histórias de viagem no tempo. Mas como resistir a uma H. G. Wells mulher? Mesmo que no seriado a viagem seja mais uma projeção astral ou possessão mental em vez de viagem temporal corpórea.

No episódio 10 da segunda temporada de Warehouse 13, H. G. Wells explica que a viagem física no tempo é uma impossibilidade e o que sua máquina faz é transferir consciências temporariamente. É um modo de atravessar o continuum do espaço-tempo usando a mente. Ela diz que estava intrigada pela ideia da gestalt, de um coletivo inconsciente, quando teve a ideia para a invenção. E se alguém conseguisse se conectar com a mente de uma pessoa que viveu séculos atrás?, ela indagou. A máquina permite que você use o corpo de uma pessoa do passado, como uma possessão, para ver e sentir o que essa pessoa viu e sentiu. Mas o viajante temporal não pode alterar o passado e a pessoa possuída apaga por 22 horas e 19 minutos.

É um método insólito, que parece prestes a escorregar para um conto de horror. Feitiço que corre destilado nos tubos de uma máquina e adquire características peculiares sem motivo. Fantasia ou ciência fantástica.

Mas viagem no tempo é ficção científica?

No artigo Is Time Travel Science Fiction or Fantasy?, de Natalie Zutter, ela menciona histórias de viagem no tempo que não possuem teoria científica ou aparato tecnológico algum como explicação:

Em Outlander, visitar os monolitos de Craigh na Dun num momento específico é o que manda Claire de volta no tempo em 200 anos, para o ano de 1743 e um novo interesse romântico, apesar dela ser casada em 1946. Em Kindred, sempre que Dana se machuca em 1976, ela retorna à mesma plantação no começo dos anos 1800, compelida a interferir na rotina de uma família escravocrata. E The Ancient One tem uma jovem Kate encontrando por acaso a Cratera Perdida e seu incrível bosque de sequoias vermelhas, sendo propelida 500 anos para o passado, onde ela possui uma vara mágica e ajuda uma civilização extinta a rechaçar uma criatura vulcânica gigante prestes a explodir.

No livro Time Travel: A History [1], de James Gleick, ele traça a história do gênero enquanto literatura e da ideia de tempo na cultura em geral, desde antes da obra de Wells. A noção moderna que possuímos de viagem no tempo nasceu com H. G. Wells, mas o conceito é muito mais antigo, desde os mitos de civilizações ancestrais que poderiam ser classificados como tendo um pé na viagem no tempo em suas interpretações mais fantásticas.

Gleick menciona as tecnologias industriais das máquinas a vapor, as consequências nascidas da possibilidade de viagens a velocidades nunca antes vistas, assim como o estabelecimento do fuso horário no século XIX devido à proliferação das estradas de ferro, como elementos responsáveis por borbulhar o imaginário das pessoas e mexer profundamente com suas noções de tempo. A Máquina do Tempo (The Time Machine) foi publicado em 1895. Em 1905 Einstein publicou um artigo sobre a eletrodinâmica de corpos em movimento, que mais tarde ficaria conhecido como a Teoria Especial da Relatividade. Os anos 20 trouxeram o modo narrativo do fluxo de consciência com obras como Ulysses, de James Joyce e Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf. Era um zeitgeist de especulações temporais e manipulações da nossa percepção da realidade.

A viagem no tempo na literatura da ficção de gênero pode ter tantas explicações esdrúxulas, maquinações estranhas ou ser apenas justificada com magia, sem maiores floreios. Talvez cada pessoa esteja falando de uma coisa diferente quando conversamos sobre viagem no tempo, ou possuímos todo o leque de ideias contraditórias simultâneas na cabeça, existindo em múltiplos universos narrativos. Já dizia o Doctor (que em breve será a Doctor *solta fogos*), que o tempo é um troço wibbly-wobbly timey-wimey. Se você perguntar a um grupo de pessoas como cada um entende o conceito de tempo, as respostas serão as mais diversas, passando por definições sobre a duração de uma vida, intervalos entre eventos, tipos de relógios, ritmos e frequências, velocidades de transporte, revoluções e translações, as mudanças das estações do ano, a meia-vida de elementos radioativos, o tecido cósmico do espaço-tempo, períodos históricos, noções psicológicas, percepções alteradas e alucinações insones.

Uma das sintonias mais divertidas entre a ficção científica e a ciência são que ambos discutem com fervor e seriedade os temas mais longínquos da realidade ou de se tornarem teorias falsificáveis, dos paradoxos da viagem no tempo às trocentas dimensões espaciais extras que a matemática aponta na Teoria das Cordas.

Para o físico e professor Richard Feynman, se ele não fosse capaz de explicar algo num nível em que calouros pudessem entender, isso significava que o fenômeno ainda não era bem compreendido pela comunidade científica [2]. Feynman era conhecido por ser capaz de explicar os temas mais complexos das formas mais simples e intuitivas. Construir essa ponte entre as convoluções da torre acadêmica, seus andares interconectados pela história de instituições e movimentos culturais e o chão de terra batida do conhecimento popular é ferramenta essencial na dissolução da ignorância e na desmistificação da ciência

Nesse vídeo da série Fun to Imagine, de 1983, Feynman explica por que um pedaço de madeira pega fogo a partir da relação entre moléculas de oxigênio e carbono. Ele pausa a explicação bem no ponto em que começaria a falar do funcionamento do sol. Porque faltariam aparatos linguísticos simples o suficiente para explicar o fenômeno aos leigos ou porque a coisa ainda residia no campo da bruxaria, quem sabe? Quando perguntado sobre o comportamento dos ímãs, ele deixou bem claro que não haveria clareza alguma em tentar enveredar por ali também:

Eu não posso fazer um bom trabalho, ou qualquer trabalho, explicando a força magnética em termos de algo que você tenha familiaridade, porque eu não a entendo em termos de algo que você tenha familiaridade.

Desde então nosso entendimento de tópicos nebulosos evoluiu. Sem falar na confirmação do que antes era apenas possibilidade, como as ondas gravitacionais. Mas talvez há temas complicados demais para serem desembrulhados a nível introdutório.

Num quadrinho do XKCD em que uma personagem fala do sol ser governado por forças magnetoidrodinâmicas, a legenda diz: sempre que eu ouço a palavra “magnetoidrodinâmica”, meu cérebro a substitui por “magia”.

Nos dias de hoje, até mesmo a magia do cosmos se mescla ao horror do estranho, desde o comportamento inexplicável da estrela KIC 8462852 (que levantou conspirações sobre uma megaestrutrura alienígena), plantas que comunicam sinais de defesa através de uma rede de parasitas, até os glitches de casas conectadas que parecem ter despertado poltergeists digitais.

Como disse Tobias Revell revisitando a lei de Arthur C. Clarke (que diz que toda tecnologia suficientemente avançada é indistinguível de magia): todo hacking suficientemente avançado é indistinguível de uma assombração e toda renderização suficientemente avançada é indistinguível da realidade.

Criar histórias nos interstícios da ficção científica, da fantasia e do horror é transitar em terreno fértil, instável e carregado de bruxaria.

Se você vai escrever algo como: O céu é uma abóbada de vidro que separa a atmosfera terrestre de um oceano cósmico de éter habitado por demônios de gelo e irídio; primeiro, me manda o livro que eu quero ler; e segundo, você pode focar tanto na fantasia dos demônios estelares quanto na ciência inventada para amarrar a coerência interna de um mundo desses. E cair fundo na magnetoidrodinâmica do éter, nas temperaturas de transição vítrea da abóbada ou nas minúcias químicas sobre troca de gases e pressões nas zonas porosas da fronteira. A ficção científica pode transpassar a fantasia sem que a ciência seja diminuída por isso. O new weird e o sci-fi strange são dois subgêneros que sabem dançar nessa bagunça com maestria.

E nem precisamos ir tão longe.

A radiação eletromagnética é elemento recorrente em histórias que mesclam a fantasia, a ficção científica e o horror. Exemplos recentes de destaque são os pisca-pisca em Stranger Things e as tomadas elétricas em Twin Peaks, que funcionam como membranas de passagem entre realidades inumanas ou mundos opostos ao mesmo tempo em que servem de canais de comunicação. Podemos traçar esse legado até a reanimação da criatura de Victor Frankenstein (ainda que o uso da eletricidade seja um elemento popularizado pelos filmes e não pela obra original) [3].

A dualidade onda-partícula da luz, a imaterialidade da luminosidade ao mesmo tempo em que sentimos o calor de um feixe de luz entrando pela janela, a capacidade de fibras ópticas de transmitir informação a velocidades que nos parecem instantâneas cruzando o fundo de oceanos continente a continente. As propriedades da luz são fantásticas e fantasmagóricas. Enquanto autores de ficção especulativa, fazemos uso de toda sua estranheza científica e todo seu imaginário místico. Hoje falamos em computação quântica, servidores colossais em localizações escondidas, vigilância de câmeras camufladas e coleta de dados perniciosa e na interconectividade assombrada da Internet das Coisas–tudo ainda enraizado na grade elétrica que rege o funcionamento do mundo contemporâneo, ou entraríamos em colapso, de volta a uma nova instância da Idade das Trevas.

Uma máquina do tempo dependeria de eletricidade para funcionar ou seria alimentada por fontes alternativas de energia? Ou o próprio fluxo do tempo, processado e distribuído adulterado por conglomerados corruptos? Queima de combustível temporal até o desmantelamento do universo. Engenharia entrópica. Erosão do continuum. Vai ver algum dia detectaremos a existência de uma viajante do tempo misteriosa através dos rastros que sua máquina deixa no vácuo quântico, como as pegadas de dióxido de carbono mapeiam a ação humana no agravamento do aquecimento global.

 

Notas:

1. Ainda não li o livro, mas esse papo no Talks at Google é bem elucidativo.

2. Li essa anedota no artigo “Feynman’s Lost Lecture – The Motion of Planets Around the Sun“, de David L. Goodstein e Judith R. Goodstein, publicado na Engineering & Science/No. 3, de 1996. Tradução livre do original em inglês: Feynman era um professor excelente. Ele se orgulhava de ser capaz de inventar maneiras de explicar aos calouros até mesmo as ideias mais profundas. Uma vez eu perguntei: “Dick, me explica isso para que eu entenda, por que partículas de meio spin obedecem às estatísticas de Fermi-Dirac?” Julgando seu público corretamente, Feynman disse: “Vou preparar uma aula introdutória sobre isso.” Mas ele voltou alguns dias depois e disse: “Não consegui. Não pude reduzir ao nível [de entendimento] de um calouro. Isso significa que não entendemos realmente o assunto.”

3. É curioso que a imagem que temos na cabeça de elementos/personagens de historias clássicas costumam ser a imagem popularizada por filmes e não o elemento como foi descrito na obra original. A máquina do tempo de H. G. Wells que todo mundo visualiza provavelmente é aquela da adaptação cinematográfica de 1960, o trenó com uma cadeira vermelha cheio de luzes coloridas e um disco enorme na parte traseira. A máquina do tempo do livro era mais um tipo de bicicleta ou triciclo. H. G. Wells era fascinado por bicicletas, que foram inventadas em 1817 e passaram por várias mudanças de engenharia nas décadas seguintes. Outra imagem que grudou na cabeça das pessoas é a da Bruxa Má do Oeste, do Mágico de Oz, ser uma bruxa verde. Ela é verde apenas na adaptação cinematográfica de 1939, não no livro original de L. F. Baum. E, dali em diante, ela seria verde em tudo quanto é adaptação nova.

 

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