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Apagar & Reconfigurar

Já perdi a conta de quantas vezes fui dormir não porque estava cansado ou sonolento, mas porque precisava de algumas horas de inconsciência. Desligar a cabeça antes de derreter meus núcleos de processamento emocional. Apagar por opção. Morrer um pouquinho. A inexistência temporária na borda daquele formigamento monocromático atrás dos olhos até as negações & autonegociações na manhã seguinte para conseguir se desenlaçar dos lençois.

Tenho a sensação de que não faço muita leitura quando tô zumbi. Mas nunca parei para mensurar o quanto eu leio nesse ou naquele estado mental. Não tenho referências para comparação. Só esse incômodo intermitente da pilha de livros/artigos/posts/threads-a-ler me cutucando. Também não sei o quanto eu escrevo a cada unidade de tempo psicológico. Sei que rolam uns surtos. Às vezes não sai uma letra. Às vezes sai 50 mil palavras. É que meus pontos de HP e mana são finitos e as barrinhas vão desgastando com o trabalho de sobreviver mais do que com o trabalho de fazer arte, embora as duas lutas muitas vezes se tornem indistinguíveis.

“Quando falamos sobre ‘o trabalho’, como escritores, tantos de nós se referem ao labor da escrita,” diz Hanif Willis-Abdurraqib em seu post On Joy. “O trabalho na página, claro. Após um ano lidando com a fragilidade da minha própria vida, e da vida do meu amor humano mais próximo, eu percebi que ‘o trabalho’ é também o trabalho de viver. É o trabalho de amar aos outros quando podemos, tomar conta de nós mesmos quando podemos, e saber não deixar o primeiro nos dominar ao ponto de nos esquecermos do segundo. Para mim, esses dois tipos diferentes de trabalho são como dois rios fluindo no mesmo corpo de água. Eu não sei como escrever poemas produtivos e saudáveis se estou fazendo apenas uma parte do trabalho.”

Dia desses baixei Depression Quest, um jogo de Twine onde você–protagonista de uma vida rotineira–precisa navegar suas tarefas, trabalhos, e relacionamentos enquanto lida com depressão. É uma ficção interativa bem imersiva e muito, muito bem escrita. Eu tive que dar uns pauses no meio do jogo–que é curto–e minimizar a janela, respirar um pouco, para depois voltar à história com fôlego novo. Vários momentos ali me são bem íntimos, ressonantes, sombras de memória.

Um recurso visual que achei bem eficiente é a estática que ilustra o jogo. Ruídos surdos. Glitch preto-e-branco. Essa nebulosidade que desce sobre nossos sentidos quando tudo à nossa volta fica dormente, inócuo, insosso, denso, claustrofóbico.

Várias resenhas positivas ressaltam o aspecto educativo do jogo. Pessoas que não sofrem de depressão podem exercitar a empatia ao entrar na pele desse personagem–e talvez passar a compreender melhor amigos e parceiros que sofrem da doença.

“Você vai trabalhar ou vai dormir? Você vai à festa ou vai ficar em casa? As escolhas parecem mundanas,” diz Simon Parkin nesse artigo para o The New Yorker, “mas o protagonista, diminuído pelo ar abafado da depressão, acha cada escolha tremendamente penosa. Por exemplo, algumas opções, como “socializar entusiasticamente” na festa, estão riscadas em cinza, forçando o caminho do jogador.”

A frustração de ver as melhores possibilidades ali ao seu dispor, mas fora do seu alcance, é um elemento que simula bem a sensação de impotência, a apatia, e a sobrecarga mental que se embolam num ciclo autodestrutivo até que ir dormir e apagar se torna a única alternativa viável.

“A única promessa aqui,” diz Hanif, “é que eu acordarei amanhã e estarei tão exausto com o mundo quanto estive hoje.”

Shut down.

Shut off.

Reset.

LIDO/JOGADO: Depression Quest, de Zoe Quinn, Patrick Lindsey, e Isaac Schankler. Disponível gratuitamente ou através de pague-quanto-quiser.

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