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A inquietação diferencial da escrita

María Fernanda Cardoso, Woven Water: Submarine Landscape, 1994, estrelas-do-mar secas com cabos de metal. Museu de Belas Artes, Houston. Compra do museu financiada pelo Fundo de Arte Caribenho. © María Fernanda Cardoso.

Mês passado o canal da Vox postou um vídeo sobre a evolução dos filmes da Lego, mostrando como filmes de fãs foram responsáveis por moldar o visual e as decisões criativas que fizeram do The Lego Movie, de 2014, sucesso de público e crítica.

Nas palavras do designer de produção Grant Freckelton, o filme de 2014 é 99% computação gráfica, mas respeitando as regras do stop motion ao emular o estilo do stop motion. Porque eles resolveram obedecer as leis que regem a fisicalidade de uma peça de lego.

Os filmes que precederam The Lego Movie sofriam de uma indecisão existencial. A animação não sabia se obedecia às limitações físicas da peça ou se abarcava os movimentos de algum material emborrachado e, ao misturar elementos desses dois extremos do espectro, resultava em algo que não existia nem lá, nem cá. Era puro uncanny valley de plástico.

Ao estabelecer limites rígidos para a animação de 2014, as decisões criativas resultantes possuíam uma vitalidade ímpar.

Receosos de firmar limites narrativos e tomar decisões estéticas duras, muitos autores escrevem histórias que também não estão nem lá, nem cá e constroem personagens que mal sabem quem são, o que querem ou para onde estão indo. Pode parecer contra-intuitivo, mas a imaginação floresce a partir dos limites que lhe são impostos. E do ato decisivo, do trabalho que cresce iteração após iteração. Porque não adianta ficar imaginando mil possibilidades na cabeça. É preciso realizar a escrita e descobrir-se no processo, na poda de ramificações.

Como diz Anne Bogart em seu livro A Director Prepares: Seven Essays on Art and Theatre, que mencionei no post das leituras de junho, a arte é violenta porque ser decisivo é violento. Apenas quando algo é decidido, que o trabalho pode começar.

Ser articulado frente às limitações é onde a violência se estabelece. Esse ato necessário de violência, que à primeira vista parece limitar a liberdade e diminuir opções, acaba abrindo muito mais opções e pede por uma percepção de liberdade mais aprofundada do artista.

Em abril os autores da Página 7 compartilharam dicas de escrita na página da agência no Facebook. O pessoal comentou aspectos valiosos, como não cair no mito do escritor isolado, respeitar seu ritmo e não compará-lo aos dos outros. O desmiolado aqui ficou de mandar uma dica, atrasou e, no fim das contas, não mandou. Meu primeiro reflexo era responder: não escreva porque é uma dor horrível e a gente não ganha dinheiros o suficiente pra ter plano de saúde. Mas, deflexões autodepreciativas à parte, o que eu matutei sobre o assunto foi que precisamos achar nossos pontos de desconforto e cultivá-los.

Saber alimentar suas inquietações é fundamental. Porque é o estado de desassossego que vai te agitar para fora da mesmice, ao invés de ficar à espera da aparição mágica de uma musa que não existe ou das condições ideais de temperatura e mobília que nunca se alinharão. E isso inclui realizar o trabalho–pesquisa, referência, decisões violentas, adquirir novas habilidades e desbravar novos interesses. Escrever sem musa ou inspiração. Desconfortável até quebrar a resistência. Vai por mim, você fará bem em deixar sua inquietação correr selvagem e bem alimentada.

Já dizia o pintor Chuck Close que inspiração é para amadores, o resto dos desgraçados ordinários senta a bunda na cadeira e trabalha. Enganchando no que disse Gustave Flaubert ao escrever numa carta que sendo regrado e habitual em sua vida, é possível ser violento e original em seu trabalho. Austin Kleon escreveu sobre roubar como um artista para nos desavergonhar de usar e abusar de referências diversas porque é assim que todo artista aprende. Kirby Ferguson popularizou em seus ensaios em vídeo o conceito de que tudo é um remix e traçou linhagens históricas fascinantes, mostrando que fazemos parte de uma conversa coletiva de proporções colossais com obras do passado e obras do futuro. Amanda Palmer falou sobre o liquidificador de conexões inesperadas que cria a arte em níveis progressivos de complexidade (a distância entre a realidade que vivenciamos e a arte que criamos), numa escala que gosto de associar à Teoria Cuil, que mede níveis de abstração para o surreal, o bizarro, o estranho e o insólito.

Ideia é vapor barato. Criatividade não é recurso em risco de se extinguir do substrato cerebral. A gente cava, dinamita, alaga, aterra, empilha, desmonta, refaz e as ideias transbordam e se alargam e ocupam espaço e viram o próprio espaço e se vão carregando um pedaço da gente junto para depois voltar transformados–a ideia e nosso pedaço numa coisa só, nova e brilhante. O tempo é circular e estamos trombando com a gente mesmo num ciclo que não acaba nem na morte, pois continua no carbono e no fósforo e na água. A água do poço que nunca seca. Tartarugas em regressão infinita que nada. São aquíferos sobre aquíferos sobre aquíferos o caminho inteiro.

Não hesite em usar todo seu conhecimento, todo seu vocabulário, toda sua magia hoje. Amanhã seu arsenal já será diferente.

Maya Angelou falou da condição inexaurível da criatividade numa entrevista à Bell Telephone Magazine em 1982:

Não tem como você usar a criatividade até acabar. Quanto mais você usa, mais você tem.

Até uns 6 ou 7 anos atrás eu tinha essa crença de que precisava economizar ideias ou esgotaria minha criatividade. Quando somos muito novos e imaturos e nos sentimos invencíveis, também achamos que estamos parindo todas as melhores ideias ali, no ápice do nosso melodrama adolescente-pupando-para-jovem-adulto. Parece cementado, enraizado, cristalizado que estamos escrevendo as melhores histórias de todas as histórias do cosmos que orbita em gravidade distorcida ao redor do nosso umbigo. Tudo soa fatalista, definitivo e incorrigível ao mesmo tempo em que tudo flui efêmero, escorregadio e intangível.

A juventude habita um pandemônio transviado de hipérboles. É irresistível. Às vezes sinto saudades de ter tantas certezas percussivas, surgindo a quatrocentas batidas por minuto e se transformando em contrapontos incongruentes no mesmo ritmo. Mas aqui, do alto dos meus vinte e seis anos, com as asas ainda se desfolhando, entendi que o desconforto de tantas incertezas pode ser terreno fértil para a ficção quando sabemos cultivar, podar e colher.

Como diz o músico e compositor Anthony Braxton:

Cada um de vocês precisa escrever sobre sua música. “O que você tá fazendo?” “O que você acha que tá fazendo?” Se você não escrever sobre isso, seja lá o que for que você tá fazendo, você corre o risco de esquecer. Talvez você precise sentar e se perguntar “O que eu tô fazendo?” e escrever… Eu tô sempre tomando notas sobre meu sistema… Cada um de vocês, na minha opinião, faria bem em sentar e se perguntar “O que caralhos eu tô fazendo? Eu falo que gosto de música, nem tenho certeza se gosto de música, mas talvez eu goste de música. O que eu tô fazendo? Pra onde eu tô indo com isso? É só sobre um trabalho?” …Cada um de nós precisa assumir aquela responsabilidade. Isso é uma responsabilidade. Se você vai ser pobre e louco, pelo menos faça o seu melhor. E parte de fazer o seu melhor é definir as coisas de maneira que seja possível evoluir. Se não há clareza, se tudo é turvo, então você pode não estar usando todas as suas forças da melhor maneira dependendo do que você está procurando e dependendo do que você quer para você mesmo… Eu diria, “Ei, não seja uma pessoa tão gentil.” Você precisa ficar com raiva de alguma coisa… Você precisa se lembrar de que não vivemos no céu. Isto não é o céu. Isto é a realidade composta. É muito melhor que o conceito de céu. Com a realidade composta, tudo está acontecendo. É por isso que você precisa navegar pela forma. Parte da navegação é incluir você mesmo e sua vida…

Anthony Braxton fala em composite reality que é a realidade complexa por ser constituída de múltiplos elementos, distinguíveis ou misturados. Eu gosto de chamar de realidade composta mesmo porque me vem à mente algo orgânico, vivo, perecível, mutante, imperfeito, bagunçado, sempre respondendo às pressões do ambiente, em colaboração constante e sensível com outras criaturas dentro de si e interagindo com a matéria à sua volta a nível molecular.

Escrever como metabolismo, simbiose, manipulação, resposta–ou a busca incessante, ainda que vá findar em nada.

Se não há inquietação seguida de questionamento, perdemos a perspectiva.

É fácil perder a perspectiva. Eu perco a minha com frequência e só a recupero no exercício mental exaustivo que pratico ao examinar minhas vontades e motivações. É como se eu precisasse lembrar a mim mesmo por que escrevo, o que escrevo, para quem escrevo. Redescobrir-se a cada crise de desesperança. Escrever ainda que não houvesse ninguém para ler. Mas como há leitores em constante interação e emaranhamento em minha vida e em meu processo, procurar entender o que esses diálogos e essas trocas significam.

Escrever é um trabalho solitário, mas não precisa ser um trabalho isolado. Às vezes, dependendo de suas condições socioeconômicas, situações financeiras, arranjos familiares e estados neuroatípicos, pode parecer que existimos numa velocidade diferente, descolados do resto do tempo. Pode parecer que tá todo mundo correndo o mundo acelerado, vivendo mil experiências no espaço que leva para levantar da cama, andar meia dúzia de passos e sentar na cadeira em frente ao computador (ou notebook ou caderno ou placa de argila ou seja lá onde for que você escreva) carregando uma ninhada de ansiedades e agonias no colo.

É essencial ter uma rede de apoio de amigos e escritores. Porque quando a gente tá mal, não há mito romantizado do escritor sozinho atormentado que dê jeito. E que se foda a comoditização do artista falido em tempos de crise como iluminador das massas. Quando a gente tá mal, a gente só faz ficar mal. Quando a gente tá mal, a perspectiva se perde. A apatia e a anedonia desintegram os pontos de desconforto que nos agitariam e evaporam com as inquietações. Tudo se equaliza num plano cinzento e sem horizonte que nos desmotiva até a inação. A criatividade não tem onde respirar num ambiente desses e morre sufocada.

Recuar e enclausurar-se numa câmara de isolamento sensorial também não ajuda. A realidade composta não vai parar de explodir e reconfigurar-se a cada milissegundo.

Anne Bogart:

O objetivo é tentar dizer algo no correr do fluxo mesmo que você não saiba a coisa certa a ser dita. Faça uma observação. Permanecer em silêncio, evitar a violência da articulação alivia o risco de fracassar, mas ao mesmo tempo também não há possibilidade de avanço.

Avante, autores.

Sejamos violentos, selvagens, inquietos, decisivos e articulados como um filme de Lego.

 

Notas:

1. As citações de Anne Bogart são traduções livres do original em inglês:

To be articulate in the face of limitations is where the violence sets in. This act of necessary violence, which at first seems to limit freedom and close down options, in turn opens up many more options and asks for a deeper sense of freedom from the artist. (pág. 47)

To try to say something in a state of flux even if you do not know the right thing to say is the point. Make an observation. To be silent, to avoid the violence of articulation alleviates the risk of failure but at the same time there is also no possibility of advancement. (pág. 49)

2. Aqui estão todas as dicas compartilhadas pelos/as autores/as da Página 7. Clique nos links para ler a dica inteira. Pam Gonçalves: Analise como os seus escritores favoritos constroem as narrativas. / Iris Figueiredo: Respeite o seu tempo. Cada escritor tem um ritmo de escrita. / Fernanda Nia: Verifique a importância de cada parágrafo do texto para o resto da obra. / Babi Dewet: Releia o seu texto em voz alta. / Lucas Rocha: Colocar o ponto final é uma das sensações mais gratificantes durante o processo de escrita. / Bárbara Morais: É necessário compreender o espírito da história e o que ela significa para você. / Dayse Dantas: Tenha disciplina, escrever é um trabalho e você precisa estabelecer horários e responsabilidades. / Roberta Spindler: Revise o texto e procure sempre melhorar, estudando e lendo bastante. / Mareska Cruz: Não compare seu ritmo de escrita com o de ninguém. / Bel Rodrigues: Encontre a sua voz. Às vezes, o seu gênero favorito para ler não é o mesmo para escrever. / Pedro Pereira e Hugo Francioni: Deixe a imaginação fluir sem se preocupar com a perfeição. / Sofia Soter: Não caia no mito do escritor solitário. / Clara Browne: É durante o processo da escrita que você percebe o que funciona. / Lorena Piñeiro: A tristeza, o desespero e o pesar não são os únicos motores para a criatividade.

3. A citação da Maya Angelou é uma tradução livre do trecho original em inglês: You can’t use up creativity,” she stresses. “The more you use, the more you have. It is our shame and our loss when we discourage people from being creative. We set apart those people who should not be set apart, people whom we assume don’t have a so-called artistic temperament, and that is stupid.

4. A citação do Anthony Braxton é uma tradução livre do trecho que vi na edição Weird Shit International, de 14 de maio, da Orbital Operations, newsletter do Warren Ellis. A citação no original em inglês: Each of you need to write about your music. “What are you doing?” “What do you think you are doing?” If you don’t write about it, whatever you think you are doing, you might forget it. Maybe you need to sit down and ask the question “What am I doing?” and write it out…Me, I’m always taking notes on my system…Each of you, in my opinion, would do a very good thing by sitting down and asking yourself “What the f- am I doing? I say I like music, I’m not even sure if I like music, but maybe I do like music. What am I doing? Where am I going with it? Is it just about a gig?”…Each of us has to take that responsibility. That’s a RESPONSIBILITY. If you’re going to be broke and crazy, at least do your best. And part of doing your best is defining things in a way where it’s possible to EVOLVE. If there’s no clarity, if everything is murky, then you might not be using all of your forces in the best possible way depending on what you are looking at and depending on what you want for yourself…I would say, “Hey, don’t be such a nice a person.” You need to get angry about something… You need to remember that we don’t live in heaven. THIS IS NOT HEAVEN. THIS IS COMPOSITE REALITY. It’s much better than the concept of heaven. With composite reality, everything is happening. This is why you have to navigate through form. Part of navigation is including yourself and your life…

 

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