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A escola de arte não vai te ensinar a sobreviver como artista

Calma, não sou contra escolas de arte. Muito pelo contrário. Amei cada segundo que passei na Escola de Belas Artes da UFRJ, embora meu tempo por lá tenha sido quebrado e inconstante. Mas isso não muda o fato de que muitas escolas de arte (e cursos similares, tanto de artes quanto em outras áreas) não vão te preparar adequadamente para sobreviver como artista – e apenas como artista. Como assim, Alliah? Falo em como lidar com orçamentos, pagamentos, gerenciamento de contas, recibos, notas fiscais (oh meu deus, preciso abrir empresa? Quando? Como? Quanto custa?), marketing pessoal, relacionamento com clientes, entender como o mercado da sua área funciona, lidar com quantidades cavalares de machismo/sexismo/intolerância, saber como agir e não ficar de boca calada, quais eventos frequentar, quais redes sociais usar, quanto cobrar (cada hora tem uma tabela de valores diferente rolando pelas interwebz e cada uma vem amarrada numa polêmica diferente), como vender, como escrever contratos, lidar com os impostos (pera, impostos? Como eu calculo isso? Alguém chama o Chapolin!), pagar as contas (tá morando com os pais? Com amigos? Sozinho? Quais são suas responsabilidades financeiras mensais?).

O castelo é de areia e a onda tá vindo com tudo lá no horizonte. Se bobear, vem até um Godzilla atrás.

Hoje cedo eu li um artigo do Chuck Wendig sobre dez coisas que ele gostaria de dizer para escritores iniciantes. Apesar do tema, as dicas também servem para outros artistas. Traduzi o trecho que me levou a fazer esse post:

Arte não é apenas Fazer Arte o tempo todo, e é por isso que você precisa aprender outras habilidades que suas aulas de escrita criativa provavelmente não vão te ensinar – marketing, edição, práticas de negócios, como fazer um orçamento e controlar suas contas bancárias e pagar seus impostos. Eu sei, argh, impostos. Mas é assim que se faz um artista. Seus pais ou sei lá quem vão te dizer pra não se preocupar. Eu tô te dizendo pra se preocupar, e reunir as habilidades necessárias – habilidades que vão muito além de escrever, pintar, cantar, ou qualquer outra prática artística.

(Uma pequena reclamação minha é que muitos programas de escrita criativa são focados demais em escrever – particularmente escrever livros literários ao invés de qualquer coisa com um tempero de ficção de gênero. Programas de arte em geral precisam ensinar mais do que apenas a parte criativa. Porque você também precisa sobreviver sendo um artista, e nessa sobrevivência, habilidades práticas são cruciais.)

Sabe quando cê tá ouvindo Maria, Maria e Milton Nascimento vem cantando que é preciso ter força, é precisa ter raça, é preciso ter gana, é preciso ter manha, é preciso ter graça, é preciso ter sonho e você já tá louco do cu gritando MELDELZ CHEGA É PRECISO TER COISA DEMAIS VOU ME ENROLAR NO EDREDON E VIRAR UM BURRITO.

Quando a gente recebe aquele chamado cósmico e uma divindade de três cabeças de tartaruga e quarenta braços tentaculares fala que de agora em diante seremos artistas – assim em negrito mesmo que é pra parecer importante – e depois vai embora rindo e gritando um se fode aí, muitas vezes não percebemos que fazer arte é uma parte do trabalho. A outra parte é aprender a se virar sozinho nessa bagunça que as pessoas chamam de vida adulta.

Mas acalmem suas éguas. A internet – essa coisa brilhante e entupida de gatos fosforecentes acomodados no meio de gloriosos peitos nus – está aqui para te ajudar.

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Estude, pesquise, pergunte, estude mais, pesquise mais, pergunte mais. Nunca interrompa esse ciclo. Preste atenção em como outros artistas vivem. Quais são suas práticas e rotinas. Converse com as pessoas. Amigos, colegas de trabalho, parceiros de projeto. Sei que pode parecer meio intimidador, mas você vai ficar surpreso em perceber que – com uma dose saudável de bom senso, empatia, respeito e educação – você chega longe. E ainda faz amizades deliciosas no meio do caminho.

Ao final do dia, as palavras de Neil Gaiman continuam verdadeiras: faça boa arte.

Faça boa arte e seja honesto, principalmente com você mesmo.

 

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