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Mês: Abril 2015

Margens da Palavra

Outro dia tuitei que sempre que eu ouço Milton Nascimento fico
pensando que é o nome dele que eu indicaria pros alienígenas quando eles aterrissarem aqui na esquina e me perguntarem quem é o líder da nossa espécie. Agora esse imaginário voltou à minha cabeça enquanto eu ouvia a canção A Terceira Margem do Rio depois de reler A Terceira Margem do Rio, conto de Guimarães Rosa–uma história que sempre me assombrou, mas num assombro moleque de quem só fica ali largado na canoa como quem se joga numa rede e balança e flui e contorna e atravessa.

Nosso pai não voltou,” diz Isadora Medella (integrante do grupo
Chicas) recitando as palavras de Terceira Margem em meio a uma performance musical em que sua voz encorpa tanto trechos de Guimarães quanto trechos de Milton. “Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não voltar, nunca mais.”

Os instrumentos retumbantes de sopro e percussão adensam o cenário em que pisamos e nos vemos ali, agachados na margem do rio, barra da calça suja de lama, pés descalços na água gelada–“água da palavra, água calada, pura, água da palavra, água de rosa, dura”–mãos calejadas estendidas para alguém além de nosso alcance; a voz de Isadora mais navalha afiada e gruta em penumbra que a gravação sussa ensolarada de Caetano Veloso em 1991.

“Sofri o grave frio dos medos, adoeci. Sei que ninguém soube mais dele. Sou homem, depois desse falimento?,” ela grita em dor e nos retraímos instintivamente. “Sou o que não foi, o que vai ficar calado. Sei que agora é tarde, e temo abreviar com a vida, nos rasos do mundo. Mas, então, ao menos, que, no artigo da morte, peguem em mim, e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água que não pára, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro — o rio.”

RELIDO: A Terceira Margem Do Rio, conto de Guimarães Rosa.

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Adoradores Anônimos de Prólogos

Sabe quando você vai cortar o bife à milanesa e o garfo afunda num pedaço que só tem massinha? Aquele lingote molenga, que muita gente deve achar um desperdício a ser camuflado com arroz e feijão, eu mando para dentro com a mesma fome do pedaço de bife devidamente envelopado na massa—em suas proporções, espessuras, escalas, matematicamente respeitadas. Há quem trate os prólogos como massinhas extras de um bife à milanesa. E só tô fazendo essa comparação avoada porque eu acabei de comer um bife desses que sobrou de dois dias atrás—e nesses últimos meses secos aprendi na marra a não desperdiçar nem um grão de trigo.

Prólogo é aquilo que o escritor bota antes da história começar, embora a história comece no prólogo se houver um, mas não exatamente, só que sim. Se você é um escritor iniciante, já deve ter ouvido o conselho de evitar prólogos em seu romance porque ninguém suporta abrir o livro e dar essa garfada numa folhada sem carne. Leitores possuem essa fama de serem impacientes, de quererem a consistência, a densidade, a eletrização, direto na primeira bocada. Eu curto prólogos. E falando assim eu até me sinto largado numa cadeira fria de metal, cabeça baixa e perna inquieta, admitindo essa barbaridade para um círculo de Adoradores Anônimos de Prólogos (essa substância marginal também conhecida nas ruas como prelúdio ou prefácio). Curto com o mesmo interesse que estendo para epílogos, notas de rodapé que tomam metade da página, galerias de imagens entre uma seção e outra, textos anexados entre capítulos, digressões quaisquer. Por mim o autor pode enfiar o que quiser na história, onde quiser, do jeito que quiser. Nem importa se é só enrolação, se for uma enrolação divertida, eu vou me enrolar todinha na enrolação e sair girando nela com os braços pro alto. Só tem uma coisa que eu não leio: aquilo que eu não gosto. Chateou? Fecho o livro, ou aba, ou aplicativo. Sem culpa, sem dor, sem discutir o relacionamento. Chateou além dos níveis saudáveis de chateação e ainda ofendeu de tanta ruinzisse ou babaqueísmos? Faço que nem aquela citação que atribuem erroneamente à Dorothy Parker:

Esse não é um livro para ser deixado de lado. É um livro para ser tacado fora com toda força.

Arremesso de Livros Odiosos é uma atividade recreativa que acontece todas as quintas e sextas às 19:30 após a reunião dos Adoradores Anônimos de Prólogos.

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Lendo Sobre Não Ler

Existe uma horda de textos à solta pelas interwebz dissecando as razões e os demônios de quem não lê com muita frequência, ou com a frequência que gostaria, ou mal lê um livreto mirrado sequer por ano. Um milharal inteirinho de palavras tentando responder essa questão do ‘por que não lemos mais?’. E lemos vorazmente todos os artigos explicando porque não estamos lendo. Ou porque não estamos lendo os livros do autor do artigo esperneando que não estamos lendo literatura de verdade—licença para dar uma vomitadinha na boca. Ou porque ler na tela não vale tanto quanto ler no papel—licença para dar uma reviradinha no pâncreas. Ou porque não estamos escrevendo. Ou porque não estamos escrevendo o suficiente. E que o romance está morto, esquartejado, revivido, vampirizado, zumbizante, frankensteiniano pós-elétrico. Esse papo me soa deslocado daqui. Fui ler esse artigo no Medium e o cara já começa falando que tá penando horrores para se concentrar em palavras, frases, parágrafos, capítulos—putaquepariu os capítulos, essas bestas colossais inalcançáveis! E eu fiquei MAS MAS MAS. Esse martírio é tão estrangeiro ao meu corpo, que meu sistema imunológico até reage. Talvez meu conforto de cair facilmente no ritmo de uma leitura prazerosa e não sair mais também seja alienígena para várias pessoas. Amanhã Não Vai Existir nasceu dessa minha gana de querer uma boa história a qualquer momento, virando a noite, rasgando o dia, vendo o sol nascer—e acumulando culpas das responsabilidades chutadas para uma quina perdida.

Mas não estou imune ao aleatório das timelines e à ansiedade da caixa de emails.

Eu me distraio fácil, fácil.

Só que eu também me concentro fácil, fácil.

Desde que eu tenha ruídos de fundo em alto volume no meu headphone e vários nada de interrupções parentais.

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Lendo e Ficando Com Fome

Uma das delícias de ler fanfics em universos alternativos (os chamados AU) é que você consegue alimentar sua obsessão do momento sem saturar o paladar dos mesmos cenários e eventos. Depois de destrinchar todas as possibilidades e encruzilhadas do roteiro canônico, os escritores de fanfic transportam os personagens para solos alternativos—aventuras originais ou criações de outras obras e outros autores misturadas num crossover.

Desde o final de The Legend of Korra que ando lendo praticamente tudo que postam no AO3 envolvendo o par Korra & Asami–o famigerado ship canônico interracial bissexual Korrasami. Dentre os AUs que leio, há um com referências fortes a Orange Is The New Black—mas a prisão é no espaço, Asami é trans, e Korra é uma caçadora de recompensas. Só pelo NO ESPAÇO eu já leria, porque qualquer coisa que você adicione NO ESPAÇO é maravilhosa e digna de atenção, não importa o que seja. Pode ser, sei lá, coçando a bunda NO ESPAÇO. Funciona também com a adição de EM CHAMAS. Coçando a bunda EM CHAMAS. Agora, bota Coçando a Bunda EM CHAMAS NO ESPAÇO como título da sua história e eu já vou querer ler para saber como funciona a logística da coisa—como alcançar a área da coceira através da roupa de astronauta & o fogo tá queimando na bunda ou na roupa ou no espaço & se tá consumindo o oxigênio e como isso vai afetar suas capacidades motoras de manusear os dedos enluvados para conseguir coçar a bunda E QUE HORRORES DO VÁCUO CÓSMICO ESPREITAM QUANDO A COCEIRA NÃO É SACIADA.

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Um Misticismo Do Inumano

Existem livros que grudam numa engrenagem qualquer da nossa cabeça e a cada giro completado, uma sinapse é deflagrada inundando nossos raminhos neuronais de estímulos & memórias & reinterpretações & a cada reencontro, somos alguém diferente, e o livro também se transforma diante de nossos olhos. Pensa numa máquina bibliocerebral de Dia da Marmota–com plasticidade semântica. Ontem postei uma citação do livro In The Dust Of This Planet, primeiro numa série do Eugene Thacker chamada Horror of Philosophy. O segundo volume é intitulado Starry Speculative Corpse, e o terceiro, Tentacles Longer Than Night. Queria o talento do Eugene Thacker para construir títulos. Até agora só li (e reli) o primeiro. Tá lá girando na minha máquina de Dia da Marmota. Lubrifico periodicamente com gotas de cultura pop. Niilismos, pessimismos, absurdos, agonias, formas inomináveis, costumam me atrair. Vai ver o vazio é tão vazio que é vácuo e me suga para dentro dele—e depois me cospe só com meia mastigadinha e o cabelo emplastrado de baba. Ainda não atravessei para o outro lado desse objeto hiperdimensional. Algum dia eu chego lá, de mãos dadas com Glycon, o deus serpente do Alan Moore que se move em espaços superiores e mancha nossa realidade com borrões efêmeros que se apresentam à nossa percepção como glitches na matrix–as três cabeças de Cérbero, os dez braços de Nataraja no templo de Melakadambur, as cem mãos e as cinquenta cabeças dos Hecatônquiros, o corpo sinuoso de Quetzalcoatl serpenteando em sombras pela pirâmide de Chichén Itzá quando o sol se posiciona no ângulo certo.

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Pessimismo Cósmico

Nesse sentido, o exemplo mais forte de Pessimismo Cósmico vem completamente de fora do gênero musical do metal. É pelo multi-instrumentalista japonês, poeta, e místico Keiji Haino. O álbum de Haino ‘So, Black is Myself’ emprega um minimalismo subtrativo que vai além daquele de Sunn O))) ou de artistas de dark ambient como Lustmord. A abordagem de Haino é eclética, pegando emprestado técnicas de tudo, desde o teatro Noh até o canto Troubadour. Fechando em pouco menos de 70 minutos, ‘So, Black is Myself’ utiliza apenas voz e um gerador de tons. Sua única letra é o próprio título da peça: ‘Sabedoria que me abençoará, eu que vivo na alegria espiral nascida no final absoluto de uma oração negra.’ A peça é melancólica, estrondosa, profundamente sonora, e meditativa. Algumas vezes o gerador de tons e a voz de Haino se fundem em um, enquanto em outros momentos eles divergem e se tornam dissonantes. A própria voz de Haino abrange todo o espectro tonal, desde quase cantos subharmônicos a um falsetto desconfortável talvez introduzido apenas por banshees famintas. A performance de Haino é um exemplo do aspecto radicalmente inumano do Pessimismo Cósmico, a influência impessoal do horror descrito por Kierkegaard como ‘simpatia antipática e antipatia simpática’. ‘So, Black is Myself’ também consegue ser místico ao mesmo tempo em que o artista individual é dissolvido numa malha de tons–voz, espaço, e instrumento existindo em consonância e dissonância uns com os outros. ‘So, Black is Myself’ é um lembrete da negação metafísica que também está no núcleo do black metal, como se o nihil negativum de Schopenhauer fosse renderizado em forma musical, negando até a si mesmo num tipo de antiforma musical.

RELENDO: In The Dust of This Planet, de Eugene Thacker.

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