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Mês: novembro 2012

Por onde anda o samba do bóson de Higgs?

Uns tempos atrás minha mãe me chamou querendo me mostrar um arco-íris rabiscando o céu, bem perto do nosso campo de visão. Ficamos ali olhando o fenômeno por alguns segundos – eu olhava e ela fazia meia dúzia de comentários viajantes – até que ela se virou e me perguntou como aquilo era possível. De onde vinham aquelas cores? Como nascia um arco-íris? Prontamente expliquei de forma simples e resumida a física envolvida. Ela me olhou e disse que eu tinha acabado com toda a graça da coisa. Mas como assim eu acabei com a graça se – IMHO – é ali na explicação que reside a essência poética do fenômeno? A ciência por trás só deixa tudo mais instigante, mais bonito!

Lembrei desse episódio porque estava ouvindo Lunik 9 esse fim de semana e me perguntando cadê as músicas poetizando as grandes descobertas e feitos científicos recentes. Nenhuma balada falando da exploração de Marte? Nenhum sambinha sobre o bóson de Higgs? Nada de rock pirando na Teoria-M? CADÊ?

Atentem, não estou falando de músicas que tratam sobre o objeto de estudo da ciência, e sim sobre o processo científico em si, e suas pesquisas, hipóteses, teorias, descobertas, invenções, expedições e desastres. O que mais existe por aí são letras melosas recheadas de sóis, luas e céus estrelados, mas ainda não esbarrei com nenhuma sobre a morte do sol e sua transformação numa gigante vermelha daqui a 5 bilhões de anos. Em abundância também existem as letras que só raspam em algum tema que já está impregnado no imaginário popular, como a Samba de Marte, onde Beth Carvalho diz: “O meu canto ecoou por todo universo, até em Marte o meu samba fez sucesso”. Quem vai escrever o Samba da Curiosity?

Lunik 9 é uma canção de Gilberto Gil, que eu conheci na voz de Elis Regina. A música fala nas consequências poéticas do primeiro pouso não-tripulado na lua, uma delas a possível destruição ou dispersão da aura romântica do nosso satélite. Ouçam a música e fiquem com a palavra do Gil:

Recebi o impacto da notícia do pouso (suave, segundo as avaliações) do Lunik 9 na lua com orgulho e ponderação: estávamos conquistando o espaço, mas aonde isso ia dar? Não era só o cidadão que especulava, mas também o artista, com o senso da responsabilidade de ser locutor da sociedade junto à história. Eu tinha que falar no assunto por isso – e também pelo sentido de competição. Havia uma disputa olímpica entre nós. ‘Provavelmente alguém vai fazer música sobre isso; deixa eu fazer logo a minha’, pensei.

Lunik 9 – uma suíte com vários andamentos e atmosferas, entremeada de narração, reflexões e advertências – é uma canção pretensiosa para o grau de informação que eu tinha a respeito, mas bacana também por isso: por vulgarizar, no sentido de divulgar, traduzir, em linguagem simples, um tema em princípio complexo. Nesse aspecto, é também apócrifa, em relação aos cânones da época – embora a bossa nova já tivesse dado a abertura para temas e termos (a Rolleiflex e outras coisas); e iniciática, em relação ao meu trabalho, do qual a questão do mistério do cosmos acabou se tornando uma linha mestra.

Mas frente ao significado do que a motivou, Lunik 9 apresentava um contraponto conservador, uma atitude ecológico-reativa, um temor exagerado da tecnologia e de que se inaugurava a possibilidade de extinção do próprio luar – da luz interior da lua. À época eu gostei de tê-la feito, mas no período tropicalista eu já achava a música boba, ingênua. Hoje em dia acho relevante aquilo ter-me ocorrido: a inspiração nasceu de uma profunda assunção de um sentido trágico de meu tempo.

Link para a Fonte.

O contraponto conservador, esse questionamento de pé atrás relacionado ao medo do desenrolar distópico da tecnologia, é tema caro na literatura de ficção científica. Temos à disposição toda a bibliografia mundial de FC para pesquisar as abordagens desse pensamento poético. Mas na música (e falo em especial da música popular brasileira), os exemplos são escassos. Pensar a força poética desses eventos – e, arriscaria dizer, pensar a força poética de qualquer coisa – requer certa dose de ingenuidade. E é na poética que esse fator do ingênuo empresta uma força absurda à palavra. Lembro de uma entrevista da Isadora Medella, integrante do grupo Chicas, em que ela comenta exatamente isso: sobre a força da palavra, a força de cantar em português, e em como a língua portuguesa é percussiva. É uma paulada sonora na cabeça.

Mas será que já estamos tão acostumados com as escalas grandiosas da ciência e da tecnologia que não nos importamos mais em gastar os miolos com fabulações e desmistificações românticas a ponto de cantá-las de maneira popular? Lá se vão 66 anos desde a construção do ENIAC, 55 desde o primeiro Sputnik, 43 desde que o homem pisou na lua, 16 desde a clonagem da ovelha Dolly (e 9 anos desde a morte da bichinha), 14 desde o lançamento da Estação Espacial Internacional e aproximadamente quatro meses desde o pouso da Curiosity em Marte.

Frisei ‘de maneira popular’ ali em cima porque músicas não-populares sobre ciência existem aos montes, principalmente se incluirmos aquelas feitas dentro de um contexto didático. Procurando direitinho, dá para achar de tudo, como por exemplo, uma versão do Kuduro feita por estudantes universitários para explicar a fotossíntese, melodiando a bomba de prótons, a distribuição de ATPs, entre outras biologices. Fora as criações de nerds talentosos que podem ser paródias, músicas humorísticas ou apenas ótimas canções. Um exemplo delicioso é essa paródia de Rolling in the Deep, chamada Rolling in the Higgs. O Wired fez uma lista de 10 músicas científicas, vale a pena conferir. Ah, não posso esquecer da música-tema do seriado The Big Bang Theory, que possui uma letra divertidíssima e viciante.

Mas voltando ao seio popular (e não-didático) da questão, é provável que o analfabetismo (funcional) científico tenha um papel importante aí. (Se bem que ainda estamos melhores – ou menos piores – que determinados lugares nos EUA, onde querem ensinar o design inteligente como contraponto à teoria da evolução. Design inteligente, aquele que não é design, tampouco inteligente, e é tão ciência quanto as bananas azuis imaginárias que eu planto no concreto do meu quintal). Ou vai ver as pessoas não se interessam por MPB falando de ciência porque acham chato mesmo. Quem sou eu para argumentar o contrário? Questão de paladar. Sei que boa parte da população mundial não se emociona com fósseis e paleontologigangas da mesma maneira que eu. Eu quase surtei na primeira vez que passei a mão num estromatólito (e dizendo assim a coisa toda soa até meio sexual). “Mas é só uma pedra”. É UM ESTROMATÓLITO, CARA, UM ESTROMATÓLITO, A GENTE DEVIA TÁ CULTUANDO ISSO NUM ALTAR.

Tá bom, Alliah, vai lá e escreve um paleopoema.

Sabe que eu já tentei? Anos atrás eu arrisquei escrever poeminhas falando de ciência. E claro que eu falhei miseravelmente, porque sou uma topeira com uma porta no lugar do cérebro quando o assunto é poesia. Chega a doer de tão ruim. Então prefiro continuar só na prosa mesmo. E deixo o poema, a composição, a melodia, a música, para quem entende do riscado.

Agora vão lá e escrevam uma Saudosa Maloca 2.0 para Arthur Dent.

 

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Metanfetaedro: um pouco sobre o livro, a capa e a amostra

Finalmente saiu o Metanfetaedro, meu primeiro livro solo! Estou numa superposição frenética de estados: feliz, nervosa e ansiosa. Mais ou menos como o urso do Pica-Pau. Certo, agora que deixei vocês com essa imagem mental, falemos da obra. O livro reúne oito contos e oito ilustrações que abrem cada conto. São oito histórias essencialmente New Weird, mas que não se preocupam em se encaixar de maneira impecável nesse subgênero. Não há bordas ou fronteiras aqui. Aliás, essas noções espaciais de (não)limite são parte integrante de alguns dos enredos, tanto no campo do território físico, quanto no do corpo e da mente. É difícil fazer uma sinopse geral do livro, pois os contos são bem diferentes uns dos outros. Você vai encontrar tímidas criaturas cavernícolas de corpo troglóbio e sensibilidade pictórica, gerações indígenas oprimidas por carniceiros e vermícolas e devoradas como carcaça de baleia no leito marinho, desertos vivos de salgareia e cidades que sonham com seus metais, velociraptors inteligentes e magistas, um estudante de desenho anatômico e hipergeometria responsável por uma grande criação, e muito, muito mais. Outro aspecto crucial é que o livro está recheado de mensagens anarquistas. A citação de Bakunin não está ali à toa.

Dois artigos onde eu já falei anteriormente do Metanfetaedro: o post Novos autores para se ficar de olho em 2012, no Páginas Noturnas, e esse Top 5 no blog da Editora Draco, onde converso sobre trocentas referências literárias, artísticas e musicais. Confiram que vale a pena ler e reler.

Algumas das histórias do livro vocês já conhecem. Morgana Memphis Contra a Irmandade Gravibranâmica, publicado originalmente no Volume Vermelho d’A Fantástica Literatura Queer e finalista do Prêmio Argos de Literatura Fantástica 2012, está aqui também. E junto a ele uma nova história da Morgana, intitulada Morgana Memphis Dividindo Por Zero, que trata, entre outros deliciosos terrorismos, de arte-sabotagem. Outro conto já publicado é o Moleque, que saiu na antologia Paradigmas Definitivos. Esse é o conto que abre o livro, e que você pode conferir inteirinho na amostra da obra, que também possui o prefácio escrito pela Cristina Lasaitis.

A capa é de Richard Diegues sobre ilustração de Aaron Rutten:

Capa do livro Metanfetaedro, de Alliah.
Capa cheia de lindas esquisitisses para um livro cheio de apetitosas bizarrices.
Capa aberta do livro Metanfetaedro, de Alliah.
Capa aberta.

Algo que eu gostei muito nessa figura da capa é a ausência de feições. O rosto é uma massa geométrica em retalhos, com camadas assimétricas numa floração congelada. Dialoga muito fortemente com as questões levantadas no conto que dá nome ao livro. Já a diagramação possui um aspecto ruidoso que reflete a essência da coletânea: uma salada de referências e elementos dos mais diversos que se atravessam e se misturam sem pedir licença. Ah, e para quem não pescou a referência do sumário: a imagem é da pintura De Anatomische les van Dr. Nicolaes Tulp, ou A Lição de Anatomia do Dr. Tulp, 1632, de Rembrandt. As ilustrações internas são de minha autoria e foram feitas a nanquim. Algumas são mais figurativas e outras (como a que abre o conto Uma Cidade Sonhando Seus Metais, que você vê na amostra) são mais conceituais.

O livro está à venda na Loja da Tarja no Facebook e no site da Tarja.

Página do livro no Skoob.

Abaixo, a ilustração que abre o conto Moleque:

Ilustração de Alliah em preto e branco para o conto Moleque, do livro Metanfetaedro.

Metanfetaedrizem-se!

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