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Minha Lista de Leituras Para a Maratona Literária de Inverno 2015

Nunca fui de participar de maratonas literárias. Mal tenho noção da quantidade de livros que leio—às vezes quase nada, às vezes me afogo. Quando eu ainda tinha Skoob, catalogava os volumes por lá. Já abandonei a rede tem algum tempo—muito spam, interface bugada, sociabilidade ineficiente. Mas curto falar pelas interwebz das leituras que me empolgaram e faço isso pelas esquinas do Twitter e através de posts espalhados e não muito organizados. Agora que estabeleci essa nuvem como cenário dos meus hábitos literários, resolvi que tentar dar aquela entropizada e injetar ordem nem que seja por um mês poderia ser divertido. Daí aderi à Maratona Literária de Inverno desse ano e estou seguindo exatamente: zero regras (que estão explicadas aqui). Mas como o núcleo da maratona é ler mais do que o seu costume, fiz uma listinha com mais livros de ficção porque ando lendo muita não-ficção.

Vamos à lista:

The Girl On The Train, de Paula Hawkins
336 páginas
Editora: Riverhead Books
Ficção

A Safe Girl To Love, de Casey Plett
216 páginas
Editora: Topside Press
Ficção

Dragnet Nation: A Quest For Privacy, Security, And Freedom In A World of Relentless Surveillance, de Julia Angwin
304 páginas
Editora: Times Books
Não-Ficção

An Untamed State, de Roxane Gay
368 páginas
Editora: Grove Press
Ficção

Sacred Games, de Vikram Chandra
992 páginas
Editora: Harper Perennial
Ficção

Rise of The Videogame Zinesters: How Freaks, Normals, Amateurs, Artists, Dreamers, Drop-outs, Queers, Housewives, And People Like You Are Taking Back An Art Form, de Anna Anthropy
208 páginas
Editora: Seven Stories Press
Não-Ficção

Little Brother, de Cory Doctorow
416 páginas
Editora: Tor Teen
Ficção

Nevada, de Imogen Binnie
264 páginas
Editora: Topside Press
Ficção

The Long Way to a Small, Angry Planet, de Becky Chambers
518 páginas
Publicação Independente
Ficção

E adicionei três bem curtinhos para dar aquela respirada entre um tijolo baiano e outro:

Born Free, de Feminista Jones
Os Anões, de Veronica Stigger
Guide to Future-Present Archetypes, de Adam Rothstein

Os títulos com links são títulos que foram disponibilizados gratuitamente pelas interwebz pelos próprios autores (Cory Doctorow libera tudo de graça em trocentos formatos diferentes, a Feminista Jones oferece download gratuito de Born Free, o Adam Rothstein oferece download gratuito dos seus ensaios) ou pela editora (a Topside Press oferece torrents de alguns de seus livros).

Montei essa listinha hoje de manhã e estou satisfeito com ela. An Untamed State e Little Brother são dois livros que eu tô pra ler há séculos e nunca começo. Agora vai. Note: a diversidade da lista foi totalmente intencional. Dos 12 livros, 9 são de mulheres e entre essas mulheres, três são mulheres trans (Casey Plett, Imogen Binnie, e Anna Anthropy). Também não tem só gente branca, tem Roxane Gay, Feminista Jones, e Vikram Chandra.

Lerei todos esses livros em ebook.

As regras da #MLI2015 estipulam o dia 3 de Agosto como data final. Como eu não tô seguindo nada mesmo, minha data final será 11 de Agosto, que é pra contar um mês a partir de hoje. Durante esse período, vou postar sobre as leituras aqui e no Amanhã Não Vai Existir.

Muito provavelmente não vou conseguir ler tudo dentro do prazo. Mas o importante é começar. Onward.


Fazendo um jogo no Twine em 10 dias

Se você me lê no blog Amanhã Não Vai Existir, cê sabe que eu tenho interesse em ficção interativa, texto digital, jogos baseados em texto, e todas as intersecções desses formatos e suas ferramentas. Tenho uma pasta chamada Twine no meu Evernote onde eu anoto ideias soltas para jogos curtos, ficções que só poderiam funcionar como texto digital, como narrativa interativa, tipografia viva, animada, carregada de energia potencial. Mas eu fico nessa de rabiscar ideias e a coisa nunca descola do talvez-algum-dia-quem-sabe. Então quando o Gumroad anunciou que faria um desafio de brainstormar, criar, e lançar um produto em 10 dias, eu pulei no barco de espada em punho gritando AYE AYE CAPTAIN.

Para quem não conhece, o Gumroad é um site que te dá espaço e ferramentas para vender seus produtos (físicos e digitais) através dele (que fica com uma pequena porcentagem das vendas). A vantagem é que o sistema deles nos oferece uma série de recursos sem cobrar a mais por isso: podemos editar landing pages, perfis, configurar emails automáticos para seguidores e/ou clientes (uma parada que é muito eficiente para converter e que pra usar em serviços como o Mailchimp, por exemplo, temos que pagar).

O nome do desafio é Small Product Lab. Todo dia de manhã cedo recebemos um email com uma tarefa para ser realizada naquele dia. E discutimos & papeamos num grupo fechado no Facebook. Já rolou também um chat no Twitter e vão rolar mais dois até o final.

Eu entrei no desafio já com uma ideia de jogo na cabeça. Eu tinha uma nota no Evernote com o Help Is On The Way rabiscado em meia dúzia de linhas, só alguns panoramas inacabados, uns adjetivos emocionais soltos pela página, um contorno fluido do que eu queria abordar sobre ansiedade e depressão. Com o prazo apertado de 10 dias e uma série de tarefas que nos obrigam a postar nossos resultados e processos no grupo com os outros participantes, eu acho que finalmente engatei num ritmo que funciona. Já no começo eu saí cortando tudo que era supérfluo. Eu tinha pensado em implementar alguns efeitos de som durante o jogo, por exemplo, mas acabei cortando áudio por completo—seria desnecessário, o foco tá na história, no texto, nas animações da tipografia. As cores também foram reduzidas. A paleta ficou em branco e vermelho—estou manipulando os tons de vermelho nas imagens de fundo de acordo com o andamento da história e com as escolhas do jogador; o texto é branco. Com detalhes desse tipo já planejados e firmados no terceiro dia, minha to-do list ficou com espaço para respirar e eu pude distribuir as tarefas sem enforcar nenhum passo.

Dá uma olhada:

17/06: Planejar o tamanho, a estrutura, e o visual do jogo. Coletar recursos. Começar a escrever a história.

18/06: Continuar escrevendo a história.

19/06: Terminar de escrever a história. Revisar.

20/06: Começar a escrever o jogo no Twine e testar a cada passagem. Entrar em contato com beta-testers.

21/06: Terminar de escrever o jogo no Twine. Revisar. Testar. Mandar a versão beta para os beta-testers.

22/06: Ler e analizar o feedback dos beta-testers. Fazer as mudanças necessárias. Testar.

23/06: Criar material de marketing.

24/06: Publicar o jogo no Gumroad. Postar o link em meus perfis sociais, postar sobre o lançamento no meu blog principal, mandar uma newsletter para minha lista.

Se quiser acompanhar a lista, aqui uma nota pública do meu Evernote.

Mas, Alliah, é tudo em inglês mesmo?

Yep, eu tô fazendo o jogo todo em inglês primeiro para dar tempo de focar só nisso e lançar o bendito no dia 24 sem atrasos. Mas não se preocupe. Depois que esse desafio acabar, eu farei uma versão em português do jogo.

A tarefa de ontem foi criar uma landing page para o produto. Não precisava ser necessariamente dentro do site do Gumroad, mas eu quis fazer lá mesmo justamente por causa desse foco em inglês. Meus outros espaços na web são todos focados em conteúdo em português; não quis fazer uma mistureba. E como eu quero dar ossos e carne às outras ideias espectrais que tão assombrando meu caderno de Twine no Evernote, num futuro próximo faço uma página bilíngue só de jogos e linko no meu site principal.

Para fazer a landing page, dei aquela sofrida-relâmpago para escrever o call to action e fazer as pessoas se interessarem o suficiente para dar follow; catei uma foto no Unsplash (que oferece fotos maravilhosas em alta resolução para uso pessoal e comercial livre), editei a imagem no Photoshop com uns quatro filtros diferentes até chegar no que eu queria, mexi de leve no CSS da página do Gumroad e pronto, soltei o bicho na selva. Aqui ó, dá uma olhada, e me segue por lá que cê vai receber um email avisando assim que o jogo tiver disponível.

E sim, tu não leu errado, só vai custar um dólar.

Hoje estamos no Dia 5 do desafio e a tarefa é compartilhar lá no grupo do FB o que a gente aprendeu nesses últimos dias, como tem sido o processo até agora, e postar também algo público que fale desse processo. Esse post é parte das tarefas do dia.

No primeiro dia eu tava naquele milkshake de ficar animado com o projeto e me remoer pelas bordas do pâncreas achando que pffff não vou completar a tempo nunca, mas agora que tá tudo engrenando, e que as restrições me obrigaram a tomar decisões que facilitaram meu processo, eu acho que vou chegar lá. Rola também uma vontade muito pessoal em querer terminar esse jogo—além da vaidade artística, além da curiosidade técnica, além do orgulho em cheque ao ter firmado um compromisso em público. É que o jogo fala de ansiedade e depressão, e eu tô escrevendo isso sob um ponto de vista muito pessoal. Depois que joguei Depression Quest e percebi a força que uma ficção interativa dessas pode ter, eu precisava fazer algo assim. E nada melhor para botar isso em funcionamento do que criar uma ficção científica fantástica cheia das entranhezas com uma protagonista que é uma menina queer matemágica perdida num planeta hostil.

Como disse Joss Whedon:

“Make it dark, make it grim, make it tough, but then, for the love of God, tell a joke.”

E agora chega de post que eu tenho que terminar de escrever a história hoje.

 

PS.: Se você curte playlists, eu fiz uma no Spotify (curtinha, com 8 músicas) temática do meu jogo para deixar tocando em looping durante esse desafio e me ajudar a entrar na atmosfera da história.

Atualização: O jogo já está disponível e você pode comprar no original em inglês nesse link e a versão em português nesse link.


O Tempo de Validade do Texto & o Ponto de Silêncio

Desde 28 de Dezembro de 2014 que eu quero escrever sobre Leelah Alcorn. E dia após dia eu não consigo digitar nem uma letra sequer sobre o assunto. São 161 dias de tentativas fracassadas. São 161 dias de querer contribuir para a conversação em torno da dor de jovens trans com palavras de valor que realizariam parte do que Leelah desejou em sua última nota. São 161 dias de não conseguir apagar da cabeça a brutalidade do ato, a violência do choque de um caminhão contra o corpo de uma adolescente.

Esse texto não é um texto sobre Leelah Alcorn. Também não é um texto sobre querer escrever um texto sobre Leelah Alcorn. Esse texto é sobre o tempo de validade que carimbamos em determinados assuntos e sobre nossa necessidade ignorada de deixar essa data artificial se desintegrar sozinha. Porque às vezes precisamos tomar conta de nós mesmos em nossos momentos de silêncio antes de sair às ruas digitais do ativismo com argumentos erguidos. Porque existe um abuso pernicioso que nem todo mundo percebe que sofre, nem todo mundo percebe que comete; aquela fome que temos de ler um texto opinativo do nosso autor ou autora favoritos sobre um tema que é íntimo a eles de algum ângulo (porque somos leitores engajados, e somos fãs, e somos sedentos por discutir, e somos velozes em compartilhar um texto de qualidade para enterrar os textos de merda); e não reconhecemos que talvez, naquela situação, naquele dia, naquele átimo, a dor engole todo o resto; e talvez dali a 161 dias, a dor ainda não terá diminuído.

O texto não tem data de validade. (Quem possui essa característica perecível é o marketing do texto que visa extrair algum lucro do calor do momento; o que não é necessariamente errado, mas não deixa de ser intrinsecamente agridoce).

Nossos pontos de silêncio também não possuem data de validade e não são estanques como pontos de não retorno. São bolsões de introspecção nascidos em meio à turbulência de uma tempestade.

Nódulos de resistência.

Momentos de cura.

Ainda não consigo escrever sobre Leelah Alcorn.

Não faço ideia se algum dia conseguirei.


Aloprando os Algoritmos do Facebook

Lembro de ter criado meu primeiro perfil no Facebook na época do colégio, no meio da adolescência, quando o Orkut ainda tava a todo vapor e o Facebook era um matagal abandonado entupido de badges de resultados de testes desgraçaralhos desses que hoje em dia a gente faz no Buzzfeed. Fiquei com aquele perfil por anos e anos, cultivando o bicho com novas amizades, achando amizades antigas, stalkeando alguém aqui, esfregando algo na cara de alguém ali. Era divertido no começo. Depois o espaço ficou tão tóxico, tão abarrotado de discursos de ódio e elementos supérfluos. Mas aí eu já tinha feito uma página para divulgar meus trabalhos e não queria abandonar aquele meio. Até que mudaram as políticas do site e agora a gente precisava pagar pelo espaço e pela visibilidade, senão os algoritmos engoliriam seus posts para dentro do cu do Zuckerberg. A efetividade tava zero, a eficiência tava zero, a paciência tava zero. Deletei tudo. Deletei post por post antes de deletar o perfil em si, porque senão seu histórico não é devidamente apagado.

A vida pós-Facebook é uma boa vida. Meu estresse caiu pela metade. E meu cérebro não tava mais sendo ocupado com detalhes da vida dos outros que nunca interessou mesmo a ninguém a não ser à própria pessoa.

Pensei: ‘não volto nunca mais’.

Err, só que eu voltei.

Calma. Explico. O Jim Anotsu me chamou para participar de um grupo lá no Facebook, onde estamos conversando sobre a organização de um evento. Então eu criei um perfil novo só para isso.

Daí pensei: ‘e agora? Posto alguma coisa no perfil? Deixo a parede em branco? Interajo com alguém? Adiciono alguém?’. E me decidi por usar o perfil novo que nem um perfil de Tumblr. Postando um tipo específico de imagens e pouquíssimo texto: material focado em tecnologia, computação, hikikomoris, cyberespaço, internet. Muito são gifs. Frames de animações. Recortes de mangás. Uma piadoca com jQuery. Citações de um Spider Jerusalem aqui, de um Cory Doctorow ali. Isso não é pretensão de fazer uma performance na parede do Facebook, embora a ideia seja tentadora pela ironia de postar material crítico da rede dentro da própria rede. Ainda mais material antisocial numa rede social. Adicionei alguns amigos e conhecidos das interwebz. Mas não olho o que esse povo posta. Entrei num grupo de escrita asêmica e as submissões de lá aparecem na minha timeline como se fosse uma exposição de glossolalias.

Nada disso deve tá aparecendo para ninguém, mas eu sou desses de me divertir sozinho comigo mesmo.

Agora que tô usando o Facebook como se fosse um Tumblr, é provável que em pouco tempo os algoritmos da rede aloprem com o meu perfil. Porque eles não vão saber o que fazer comigo. Lembro do Warren Ellis falando disso na edição de 26/04/2015 da sua newsletter Orbital Operations:

“Eu não uso Facebook do jeito que o Facebook gostaria que eu usasse, então ele me pune. É fácil me achar lá, eu acho, mas eu tenho menos de cinquenta ‘amigos’—alguns são amigos de verdade, alguns são conhecidos ou colegas de viagem—e meus posts são fechados a ‘amigos de amigos’. Eu não posto ou comento com frequência. Portanto, o Facebook não sabe o que fazer comigo. Algumas vezes ele esconde os posts dos meus amigos durante uma semana para tentar me fazer adicionar mais amigos, numa variante daquele jogo psicológico de ‘contágio emocional’ que ele roda algoritmicamente em algumas pessoas. Às vezes ele esconde meus posts dos meus amigos, para me punir por ser mau. Às vezes ele mostra apenas posts que são muito comentados, para tentar me fazer participar.

O Facebook quer ser o método primário de comunicação da linguagem da internet, e odeia quando eu recuso um pedido de amizade. Ele quer ser uma rede fragilmente conectada para mim, parcialmente porque o entendimento do Zuckerberg é que redes vastas e fracas oferecem mais oportunidades pessoais a um usuário do que redes pequenas e fortemente conectadas. Isso é, claro, para o benefício do Facebook. Sua rede pessoal do Facebook é nominalmente limitada a cinco mil pessoas. Um número bíblico interessante. O Facebook alimenta os cinco mil. Quinze pessoas cabem num elevador comum. Isso são 333 viagens de um elevador lotado. O adulto médio possui em torno de 333 amigos no Facebook. Imagine estar num elevador e saber disso: metade das mulheres e 42% dos homens compartilhando aquela viagem de elevador com você compartilham informações significativas de suas vidas no Facebook. E, já que poucos de nós existem em bolhas lacradas, compartilhar coisas sobre a vida deles também significa compartilhar coisas sobre sua vida.

É okay se sentir emotivo quanto ao contágio.

O Facebook gostaria de se distribuir utilizando drones e satélites. Se o último acontecer, a linguagem finalmente será um vírus do espaço sideral, eu acho. Se o primeiro acontecer… bem, parece certo e correto que drones e algoritmos se juntem sob o Facebook. Marcados como Amigos Próximos no seu menu.”

Eita que bateu até um gostinho de distopia aqui embaixo da língua agora. E não é uma ironia inescapável que criticamos esses artefatos enquanto estamos enfiados até os cotovelos nos próprios artefatos? Quem mais conhece as engrenagens do Facebook, mais quer distância. (Ou quer o experimento de tentar ficar no controle ou subverter a ordem das entranhas para fora).

Dissonâncias cognitivas, dissonâncias cognitivas everywhere.

No excelente post Os Invisíveis: contra a linguagem e o conformismo realista, @agrtron escreve:

Esse tema do controle mental através dos meios de comunicação precede a temática do próprio vírus da linguagem dentro do universo de Os Invisíveis. Já no nº 2 do primeiro volume da série, antes mesmo de Dane ser treinado por Tom O’ Bedlam e ingressar na célula Invisível, a discussão de Marcuse aparece claramente. Levando em conta a biografia do Morrison é possível notar que esse trecho da imagem abaixo faz parte de alguma memória sua da década de 70, época em que o livro “One-Dimensional Man” era um dos mais vendidos em todas as livrarias do mundo e muito utilizado como referência pelos ativistas sociais (como seu pai era). Por alguns o livro era considerado, por exemplo, como uma das causas do “Maio de 68 francês”. Então é fácil entender o eco marcuseano em vários momentos de sua obra.

Para Marcuse as palavras foram destituídas do empirismo de seus significados e retornaram transformadas em elementos mágicos, ritualísticos e autoritários.

“Os conceitos que compreendem os fatos, e desse modo transcendem estes, estão perdendo sua representação linguística autêntica. Sem tais mediações, a linguagem tende a expressar e a promover a identificação imediata da razão e do fato, da verdade e da verdade estabelecida, da essência e da existência, da coisa e de sua função”. – H. Marcuse

O que me traz ao fechamento desse círculo com Warren Ellis falando de máquinas assombradas, da magia aparente da Internet of Things, do deslumbre inerente frente ao eletromagnetismo invisível que anima nossos objetos inanimados. Os vírus de linguagem que nos permitem identificar instintivamente os ícones em nossos dispositivos móveis e os algoritmos que nos oferecem publicidade personalizada sobre nossas vergonhas mais profundas; ambos foram realizados atráves de um caminho embebido na linguagem da magia.

Eu já disse isso várias vezes, que a constante reiteração do Steve Jobs de que o iPad era ‘mágico’ era algo deliberado e feito com uma intenção específica. E nós escutamos. Nós sabíamos que era boa tecnologia porque possuía a linguagem da magia.

Warren Ellis diz numa curta palestra no evento FutureEverything 2015.

Nós o fizemos realizar coisas apontando o dedo pra ele. A tela era cheia de sigils. Era um livro de feitiços do século 21, e, brilhantemente, nós não precisávamos carregar ele matando uma galinha ou batendo uma punheta. E quando as pessoas agora falam que, bem, a Apple não está inovando tanto como antigamente, o que queremos dizer é que eles não estão fazendo mais artefatos mágicos. O tapete mágico deles botou os pés no chão e agora eles fazem relógios de pulso como meros mortais. Relógios de pulso não são mágicos. Nós já sabemos que o tempo passa e aprendemos a aproximar divisões do tempo olhando para o céu. Nós estávamos contando o tempo cinco mil anos atrás usando pedregulhos. Relógios de pulso significam apenas que não precisamos carregar uma porra de um obelisco pra lá e pra cá. A magia é instável. E também é verdade que, para cada vidente e xamã genuínos, há algum cara teatral vestido de preto tentando vender coisas mágicas brilhantes para pessoas com dinheiro.

 

PS.: Se quiser ver meu Facebook que é meio Tumblr que é meio meta que não tem mais atividade nenhuma, aqui o link.


As Ferramentas do Trabalho

Eu adoro papear sobre as ferramentas, dispositivos, e gadgets que usamos para executar nosso trabalho—principalmente se o trabalho envolve escrever quantidades obscenas de texto e produzir algum tipo de arte visual que passa pelo digital. Mas eu sou um tecnófilo pobre, então muito eu só conheço de ler/ouvir falar e não de botar as mãos na coisa e experimentar em primeiro plano.

Daí é sempre interessante dar uma espiada no que os artistas que curto estão usando. Mês passado o Warren Ellis apareceu lá no LifeHacker falando das ferramentas que utiliza e dos seus hábitos de trabalho. Computadores, por exemplo, ele usa um Lenovo T440 com touchscreen, um Dell XPS 13 edição de 2015, e um Chromebook Pixel (que eu acho que surpreendeu muita gente). Entra nesse conjunto também um monitor ASUS de 21 polegadas. Um gadget que me chamou a atenção foi o TextBlade (que no momento em que a entrevista foi publicada, ele já tinha comprado o produto e tava esperando chegar). O TextBlade é um teclado portátil, desmontável/reconfigurável, levinho, fininho, wireless, de aço e policarbonato, ímãs de neodímio, com base de silicone. Eu quase babei descobrindo a existência disso.

“Eu tô na mesma velha mesa de madeira que eu comprei vinte anos atrás. Não mando uma foto porque ela tá uma bagunça do caralho que me faz parecer um hoarder porque tem um monte de lixo que eu desovei uns meses atrás aqui e ainda não tive tempo de processar.”

Compartilho essa dor, Warren.

Os gadgets que ele citou como indispensáveis foram o Kindle Paperwhite e um mp3 player da Sony de 32GB (com fones de ouvido Sony XBA-4iP). Isso me lembra que não sou ninguém sem meu headphone.

Ferramentas de escrita incluem os softwares Final Draft e Open Office. De analógico, tem o caderninho Field Notes (que também é muito desejável porque tem aquele apelo estético do Moleskine, mas não é babaca que nem o Moleskine).

Eu tenho uns sketchbooks que costurei largados pela casa, mas nada muito assíduo, nada muito organizado. Rabisco bastante em folhas avulsas que depois amasso e jogo fora. Textos pequenos como esse post e os de outros blogs, eu escrevo no bloco de notas (sim, aquele do Windows). Em software de produção de texto, fico com o Word mesmo. (Tentei Scrivener, mas não é pra mim. E o Open Office vivia bugando minha máquina por algum motivo obscuro). Editor de código, tô usando o Notepad++. Na web, meu Evernote tá aberto 24/7 (junto com o Tweetdeck). Também sou heavy user de Pocket e Feedly. E, assim como o Warren Ellis, o combo Chrome e Gmail também tá na lista do ‘não posso viver sem’. Embora o Chrome devore tanta RAM, mas é por boa funcionalidade, então a gente aprende a gerenciar.

Dá um pulo lá na entrevista com o Warren Ellis, que ele fala de mais um bando de coisa. Em geral, a gente percebe que a configuração do cara não é nada absurdo e a gente se identifica logo. (Quando eu falo ‘a gente’, eu tô me referindo a escritores que curtem tecnologia, que eu sei que um monte de vocês prefere escrever com caneta de pena a mão num papiro).

Meu workspace é bem menos glamuroso que o do Warren e eu não tô em trânsito que nem ele. Fico só aqui no meu cantinho mesmo, na mesma única mesa que comprei uns bons anos atrás.

Minha configuração de hardware é bem enxuta. Eu tenho um computador de desktop que montei peça por peça (Intel DB85FL, Intel Core i5 4670, 4GB de RAM, HD de 1TB, placa de vídeo GeForce GTX 660 2GB EVGA), mas que tá hibernando no momento porque um pico de luz fritou o no-break uns meses atrás e, de quebra, fritou o PC também. Ele tá aqui na mesa, esperando eu ter grana sobrando para recuperar os danos. Enquanto isso, uso um notebook Toshiba (Intel Celeron CPU 1037U @ 1.80GHz, 4GB de RAM, placa de vídeo Intel HD Graphics) que peguei emprestado de mamain. É simples, lerdo pro que eu tô acostumado, e vive dando soluços porque eu esqueço que tô numa máquina bem limitada e congelo o sistema abrindo trocentos processos ao mesmo tempo. Pelo menos, ainda tô usando meus periféricos (teclado & mouse óptico Microsoft, e monitor AOC 23 polegadas de quinhentos anos atrás, mas que ainda resiste e funfa bonito). Meu tablet para arte digital é uma Wacom Intuos5, uma belezinha de primeiríssima qualidade que eu ganhei da minha tia.

Meu smartphone Samsung é relativamente antigo e tá abandonado no momento. Fiquei tanto tempo sem adicionar crédito, que perdi a linha. E sempre bate preguiça de comprar outro chip. Tenho que remediar isso logo. O uso principal do meu smartphone é receber mensagens de vericações em dois-passos das minhas contas online e o token do internet banking.

Não tenho e-readers (e queria tanto, tanto, tanto ter qualquer um com backlight). Nem iPads ou tablets do tipo. Qualquer dia ainda quero um MacBook. Ou um Alienware. É, definitivamente um Alienware.

Mas faço o diabo a quatro chupando mariola embaixo da escadinha com as máquinas e recursos que possuo. Quando você já passou por situações de fazer uma gambiarra com esfuminho para controlar a barulheira de um cooler de GPU que tava meio capenga, você acostuma a se virar com o que tiver disponível.

Eu vivo em algum nodo dessa malha do low-life, high-tech.

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Saiu resenha nova do Metanfetaedro

Esse sábado a Lady Sybylla, Capitã Cósmica do blog de ficção especulativa Momentum Saga, postou uma resenha para meu livro de contos Metanfetaedro:

“Alliah tem um jeito intenso de descrição, muito vívido, colorido, intenso, algumas vezes sendo até repulsivo, tamanho o nível de detalhe em que sua narrativa chega. Você se sente, profundamente, integrado com as sensações dos personagens, com a atmosfera das cidades e com os odores dos corpos, das cidades, dos objetos.”

Leia a resenha inteira. Muito obrigado, Sybylla!

É sempre uma boa surpresa quando aparece alguém falando do Metanfetaedro em 2015, porque o livro saiu em 2012 e eu tenho essa noção (impulsiva, sem nenhum embasamento) de que obras de nicho publicadas por editoras pequenas têm uma vida curtinha e depois evaporam para o éter.

Ou pode ser só uma insegurança moleca mesmo.

Sabe que não lembro a última vez que reli o Metanfetaedro? Rola um medinho. Tava comentando lá no twitter esses dias. Ainda gosto muito do que escrevi naqueles contos, mas hoje percebo o quanto o livro é afobado—e entendo isso no contexto d’eu ter escrito aquelas histórias com 19/20 anos e publicado com 21. As entrelinhas são bem pessoais também. Há um pouco de autobiográfico aqui, e um muito ali—o conto do Jardim de Nenúfares Suspensos, que escrevi imediatamente após receber a notícia da morte de um amigo, que me fez repensar minha própria mortalidade e meu histórico suicida. Acho que ainda não tenho conhecimento do escopo de eviscerações emocionais que meti naquele livro. Talvez mais alguns anos de distanciamento e eu posso voltar àqueles mundos hiperfractais.

Se você quiser comprar um exemplar, só me pedir por email. Tá R$35 com frete incluso para qualquer lugar do país. Mais dedicatória e autógrafo. Posso mandar também para endereços internacionais, mas nesse caso a gente negocia o valor do frete.

Ah, e ainda tenho exemplares do livro Paradigmas Definitivos também. Esse sai por R$25. Só mandar email.


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