Lendo cyberpunk e transhumanismo na ficção nacional

Ilustração que fiz para o Inktober 2016 misturando Ghost In The Shell e Pokémon.

Em novembro do ano passado, eu tuitei pedindo por recomendações de obras nacionais cyberpunk ou que tocassem em questões transhumanistas. Queria compilar uma lista para ler/reler e resenhar aqui no blog porque leio/assisto muita coisa anglófona nesses subgêneros e preciso ter uma noção melhor do que está sendo feito em terras brasileiras. Mas (por motivos de: vida), só agora tô retomando a ideia e encaixando nos trilhos.

Também devo fazer um ensaio sobre meu próprio histórico lendo e consumindo esses subgêneros desde minha primeira publicação em 2009 e a evolução das minhas relações com transhumanismo, corpo e tecnologia e postar lá no Mural para apoiadores. Quem me viu gritando sobre Shaw/Root/Machine no Twitter durante o final de Person of Interest e depois sobre Westworld, já sabe que tenho 734 quilômetros de coisas a dizer.

Bem, vamos à lista, que ainda está em formação (notem que há muito mais homens que mulheres e quase todos são brancos, preciso dar um jeito nisso). Entram na lista desde contos avulsos até romances e obras de artes visuais (quadrinhos, ilustrações, animações e jogos, quando eu achar algum jogo) e audiovisuais nos gêneros cyberpunk, pós-cyber e qualquer FC que lide com transhumanismo ou IA. Meus critérios para escolher as obras são puramente pessoais dentro daquilo que eu tô afim de ler: autores/as que eu já gosto, adicionei na lista sem pensar duas vezes, e autores/as que ainda não conheço, adicionei depois de ler alguma amostra e achar interessante. Não terei agenda para postar as resenhas. Vou lendo e escrevendo conforme meu tempo permitir. Os títulos marcados em negrito são aqueles que eu já possuo o livro impresso ou digital. Os outros ainda preciso comprar quando sobrar uns dinheiros. Se o/a autor/a ou editora quiser me ceder um exemplar para resenha, é só entrar em contato. Serei muito grato. 😀

Também quero reler Visões Perigosas. Uma Arqui-Genealogia do Cyberpunk, da Adriana Amaral, um livro que tenho desde a adolescência, e checar Futuro Esquecido – A Recepção da Ficção Cyberpunk na América Latina, de Rodolfo Rorato Londero, que ainda não conheço e apareceu nas pesquisas de cyberpunk na Amazon.

Todos os posts dessa série serão marcados com a tag lendo cyberpunk br para acesso rápido.

Romances

Poder Absoluto, de Jean Gabriel Álamo. Edição digital de 2017 publicada de forma independente. [Amazon]

O Caçador Cibernético da Rua Treze, de Fábio Kabral. Edição impressa de 2017 publicada pela Malê. [Site da Malê]

Santa Clara Poltergeist, de Fausto Fawcett. Edição impressa de 2014 publicada pela Encrenca. Exemplar cedido pela editora. [Amazon]

Os Dias da Peste, de Fábio Fernandes. Edição digital de 2017. Ebook cedido pelo autor. [Amazon]

RIO: Zona de Guerra, de Leo Lopes. Edição digital de 2015 publicada pela AVEC. [Amazon]

Deuses e Feras, de Fabio Brust. Edição digital publicada de forma independente. [Amazon]

Mnemomáquina, de Ronaldo Bressane. Edição impressa de 2014 publicada pela Demônio Negro. Alguém quer me dar esse de presente? Tá custando 50 dinheiros aqui.

Distrito Federal, de Luiz Bras. Edição impressa de 2014 publicada pela Patuá. Exemplar cedido pelo autor. Já fiz um breve comentário sobre esse livro no post das leituras de julho, mas pretendo voltar ao texto. [Site da Patuá]

Corpo Estranho, de M.T.S. Dorrenberg. Edição impressa de 2016 publicada pela Empíreo. [Amazon]

Ficção Curta

Série REQU13M, de Lidia Zuin. Edições digitais publicadas pela Draco entre 2012 e 2013:
1. Deus sonha o homem [Amazon]
1.5. Dies Irae [Amazon]
2. O homem sonha a máquina [Amazon]
3. A máquina sonha Deus [Amazon]

Trabalho Honesto, de Rodrigo van Kampen. Edição digital de 2017 publicada de forma independente. [Amazon]

Não chore, de Luiz Bras. Edição impressa de 2016 publicada pela Patuá. Exemplar cedido pelo autor. [Site da Patuá]

Transhumano, de Marco Rigobelli. Contos publicados em 2016 no Medium.

Androides Não São Perfeitos, de Jean Gabriel Álamo. Edição digital publicada de forma independente. [Amazon]

Luzes do Amanhã e Liberdade aos Iguais, contos do livro Luzes do Amanhã e outros contos, de Sandro G. Moura. Edição digital de 2017 publicada de forma independente. [Amazon]

Fuga para o Paraíso, de Paulo Mateus. Edição digital publicada de forma independente. [Amazon]

Imaculada Concepção (Cybersampa Livro 1), de Guilherme Solari. Edição digital publicada de forma independente. [Amazon]

Codinome Electra, conto de Lady Sybylla no livro Universo Desconstruído I. Edição digital publicada de forma independente.

Boneca, conto de Clara Madrigano no livro Universo Desconstruído II. Edição digital publicada de forma independente.

Artes Visuais & Audiovisual

Bipolar, quadrinho de Renan Rivero, Samuel Bono, Diogo Torres e Omar Viñole. O projeto foi recentemente bem-sucedido numa campanha do Catarse e ainda será publicado.

Janaína Overdrive, curta com direção e roteiro de Mozart Freire. Não faço a menor ideia de onde eu poderia assistir esse curta, mas tô botando aqui na lista porque é muito relevante. Leiam The rise of Brazilian transgender cyberpunk, da Lidia Zuin, que fala sobre a obra.

O trabalho do ilustrador e animador João Antunes Jr.

Cyberpunks, sketchbook temático do artista Silvio dB. Projeto que foi bem-sucedido numa campanha do Catarse em 2016.

+++

Reitero: a lista ainda está em formação e, tomara, crescerá. Quem tiver recomendações de obras, pode entrar em contato por Twitter, Facebook ou email.

Até lá, vamos ouvindo a playlist de Root:

+++

Tá curtindo o blog? Deixa uma gorjeta!

Leituras de Julho/2017

I. No começo de julho saiu uma entrevista muito boa com Luiz Bras no Dossiê Ficção Científica da Revista Com Ciência. O papo é sobre os estados, sabores e transformações da FC brasileira e sobre as descobertas e pesquisas científicas que tão mordendo o calcanhar da ficção contemporânea para devorar a realidade. Esse mês terminei de ler seu livro Distrito Federal, que ele comenta na entrevista:

Distrito Federal apresenta muitos enredos paralelos, mas o principal é a corrupção moral na política brasileira. É uma narrativa em que a alta tecnologia encontra o sobrenatural, reforçando a famosa premissa de Arthur C. Clarke: “qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia”. Os dois personagens centrais − um ciborgue possuído por um espírito maligno e uma inteligência artificial sofisticadíssima − desvelam ao leitor uma realidade social perversa, pós-humana, em que a luta de classes ocorre agora também no plano evolutivo.

Gostei muito da maneira como a linguagem utilizada na rapsódia soou como um instrumento de percussão eletrônica que foi hackeado–nas repetições, nas recorrências, nas referências cruzadas, no retorno autossemelhante. Mas não foi um livro que li rápido. Requer algumas intermissões. Deu vontade de ver esse texto adaptado (e expandido?) para algum mamute interativo multimídia ao estilo de Homestuck ou 17776. O volume com ilustrações e capa dura tá muito caprichado.

II. Quando comecei a ler Big Little Lies em maio, achei que terminaria o livro preferindo o seriado, que ainda brilhava fresco na minha cabeça–e me desorientou bonito porque assisti todos os episódios de uma vez só, da noite de um domingo até a manhã de uma segunda. O que aconteceu foi que me reapaixonei por cada um dos personagens e guardo as duas versões da história com carinho, em todas as suas diferenças. Meio como faço com The Hours.

Não tenho costume de marcar trechos em livros de ficção. Faço isso com os de não-ficção, que terminam entupidos de notas. Mas me senti compelido a marcar um único trecho de Big Little Lies, esse parágrafo do capítulo 35 que parece um poema:

It wasn’t beautiful people like Celeste who were drawing Jane’s eyes, but ordinary people and the beautiful ordinariness of their bodies. A tanned forearm with a tattoo of the sun reaching out across the counter at the service station. The back of an older man’s neck in a queue at the supermarket. Calf muscles and collarbones. It was the strangest thing. She was reminded of her father, who years ago had an operation on his sinuses that returned the sense of smell he hadn’t realized he’d lost. The simplest smells sent him into rhapsodies of delight. He kept sniffing Jane’s mother’s neck and saying dreamily, “I’d forgotten your mother’s smell! I didn’t know I’d forgotten it!”

III. Eu não sabia o que esperar de River of Teeth. Quando li na sinopse que a novela se passa no começo do século XX, num mundo alternativo em que os Estados Unidos importaram hipopótamos que seriam criados e abatidos para a venda de carne, e que as coisas deram errado e havia um pântano cheio de hipopótamos selvagens ferozes à solta, o dedo de comprar o ebook já tava tremendo. Eu esperava uma aventura e recebi essa aventura–tão boa quanto achei que seria. Também recebi um protagonista não-binário muito bem escrito e um romance inesperado de amolecer qualquer um. Tô impaciente para ler a continuação.

Livros de ficção

> The Book of Phoenix (Who Fears Death 0.1), de Nnedi Okorafor. Romance. 241 páginas. Publicado por Hodder & Stoughton. 2015. [Goodreads] [Amazon]
> River of Teeth (River of Teeth #1), de Sarah Gailey. Novela. 176 páginas. Publicado por Tor. 2017. [Goodreads] [Amazon]
> Distrito Federal, de Luiz Bras. Ilustrado por Teo Adorno. Rapsódia/Romance. 280 páginas. Publicado por Patuá. 2014. [Goodreads]
> Big Little Lies, de Liane Moriarty. Romance. 449 páginas. Publicado por Berkley. 2014. [Goodreads] [Amazon]

Livros de não-ficção

> Diante da dor dos outros, de Susan Sontag. Tradução de Rubens Figueiredo. Ensaios. 112 páginas. Publicado por Companhia das Letras. 2003. [Goodreads] [Amazon]
> Spirits of Place, de vários autores. Ensaios. 225 páginas. Publicado por Daily Grail Publishing. 2016. [Goodreads] [Amazon]

Ficção curta disponível online

> The Voice of The People, de Alison Moore. Publicado no Weird Fiction Review. 2017.
> These Deathless Bones, de Cassandra Khaw. Publicado no Tor. 2017.
> A Question of Faith, de Tonya Liburd. Publicado no Book Smugglers. 2017.
> The Martian Obelisk, de Linda Nagata. Publicado no Tor. 2017.

Leituras em andamento

Essa lista tava crescendo rápido demais com livros que eu não abro há meses. Então resolvi dar uma faxinada.

Não sei quando voltarei para as mil páginas de A New Kind of Science. Não toco em Molecular Red: Theory for the Anthropocene desde o começo do ano e preciso recomeçar do zero. O mesmo vale para Everything Change: An Anthology of Climate Fiction.

Ficaram:

Chaos: Making a New Science, de James Gleick. Livro de não-ficção. Publicado por Open Road Media, 2011. [Goodreads] [Amazon]
The Space of Literature, de Maurice Blanchot. Traduzido para o inglês por Ann Smock. Livro de ensaios. Publicado por University of Nebraska Press, 1989. [Goodreads] [Amazon]
Landmarks, de Robert Macfarlane. Livro de não-ficção. Publicado por Penguin, 2015. [Goodreads] [Amazon]
October: The Story of the Russian Revolution, de China Miéville. Livro de não-ficção. Publicado por Verso, 2017. [Goodreads] [Amazon]

E o romance que comecei alguns dias atrás e devo terminar até amanhã porque tá gostoso demais:

> Lagoon, de Nnedi Okorafor. Romance. Publicado por Hodder & Stoughton. 2014. [Goodreads] [Amazon]

Outras leituras

Seleção dos melhores artigos em revistas/jornais e posts em blogs que li durante o mês

Inglês:
> The Rise of the Thought Leader: How the superrich have funded a new class of intellectual, artigo de David Sessions. Publicado no New Republic em 28 de junho, 2017.
> Language Arts: If platforms are the way we communicate now, will they always remain a second language?, ensaio de Renée Reizman. Publicado na Real Life em 26 de junho, 2017.
> Player One: The video-game industry is built on the cultish fantasy that all technology and effort can be redeemed as pure pleasure, ensaio de Michael Thomsen. Publicado na Real Life em 21 de junho, 2017.
> Bugs as Features: Digital metaphors for the human microbiome abets fantasies of reprogramming our guts and rebooting our systems, ensaio de Nitin K. Ahuja. Publicado na Real Life em 10 de julho, 2017.
> Cory Doctorow’s ‘Fully Automated Luxury Communist Civilization’, entrevista com Cory Doctorow por Katherine Mangu-Ward. Publicado na Reason em 12 de julho, 2017.
> Entrevista com Toni Morrison, por Mario Kaiser e Sarah Ladipo Manyika. Publicado na Granta em 29 de junho, 2017.
> Cassandra Plays the Stock Market, artigo de Tim Maly. Publicado no Quiet Babylon em 3 de julho, 2017.
> The Ones You Love, ensaio de Juli Fraga. Publicado primeiro na Anxy Magazine nº 1 e depois na newsletter da revista em 18 de julho, 2017.
> Why Social Media Platforms Should Think Twice Before Banning Adult Content, artigo de pjsage. Publicado no Cyborgology em 26 de julho, 2017.
> Transhumanism, Tragic Humanism, and The View From Nowhere, de Abou Farman. Publicado no Platypus em 27 de julho, 2017.

+++

Tá curtindo o blog? Deixa uma gorjeta!

A bruxaria que rege a mão esquerda da ciência

Jaime Murray no papel de H. G. Wells no seriado Warehouse 13.

Meu autor de ficção científica favorito da infância foi Jules Verne. Eram dele os livros que eu mais pegava na biblioteca do colégio quando ainda era um pingo de gente. Boa parte das histórias que eu escrevia era fortemente derivada inspirada em Vinte Mil Léguas Submarinas e Viagem Ao Centro Da Terra, os dois extremos–mar a fundo e vulcão adentro–que eu gostaria de explorar. Mas H. G. Wells também se enfiou num cantinho do meu coração antes mesmo que eu pudesse ler algo do autor. Ainda criança, comprei o livro Doenças Mortais da coleção infanto-juvenil Saber Horrível numa feira do colégio. E foi ali, num capítulo sobre infecções, que eu descobri a história de Guerra dos Mundos (onde alienígenas são aniquilados por micróbios terrestres), e fui apresentado a H. G. Wells.

Mas não demorou muito e minha atenção infantil foi capturada por Michael Crichton e Philip Pullman e mais tarde na adolescência por William Gibson e China Miéville. Meu fascínio com H. G. Wells só renasceu esse ano, graças ao seriado Warehouse 13, onde H. G. Wells é uma mulher bissexual e agente da Warehouse que volta à ativa depois de passar mais de um século num estado aprisionado de hibernação. Desde Doctor Who que eu não recuperava meu interesse por histórias de viagem no tempo. Mas como resistir a uma H. G. Wells mulher? Mesmo que no seriado a viagem seja mais uma projeção astral ou possessão mental em vez de viagem temporal corpórea.

No episódio 10 da segunda temporada de Warehouse 13, H. G. Wells explica que a viagem física no tempo é uma impossibilidade e o que sua máquina faz é transferir consciências temporariamente. É um modo de atravessar o continuum do espaço-tempo usando a mente. Ela diz que estava intrigada pela ideia da gestalt, de um coletivo inconsciente, quando teve a ideia para a invenção. E se alguém conseguisse se conectar com a mente de uma pessoa que viveu séculos atrás?, ela indagou. A máquina permite que você use o corpo de uma pessoa do passado, como uma possessão, para ver e sentir o que essa pessoa viu e sentiu. Mas o viajante temporal não pode alterar o passado e a pessoa possuída apaga por 22 horas e 19 minutos.

É um método insólito, que parece prestes a escorregar para um conto de horror. Feitiço que corre destilado nos tubos de uma máquina e adquire características peculiares sem motivo. Fantasia ou ciência fantástica.

Mas viagem no tempo é ficção científica?

No artigo Is Time Travel Science Fiction or Fantasy?, de Natalie Zutter, ela menciona histórias de viagem no tempo que não possuem teoria científica ou aparato tecnológico algum como explicação:

Em Outlander, visitar os monolitos de Craigh na Dun num momento específico é o que manda Claire de volta no tempo em 200 anos, para o ano de 1743 e um novo interesse romântico, apesar dela ser casada em 1946. Em Kindred, sempre que Dana se machuca em 1976, ela retorna à mesma plantação no começo dos anos 1800, compelida a interferir na rotina de uma família escravocrata. E The Ancient One tem uma jovem Kate encontrando por acaso a Cratera Perdida e seu incrível bosque de sequoias vermelhas, sendo propelida 500 anos para o passado, onde ela possui uma vara mágica e ajuda uma civilização extinta a rechaçar uma criatura vulcânica gigante prestes a explodir.

No livro Time Travel: A History [1], de James Gleick, ele traça a história do gênero enquanto literatura e da ideia de tempo na cultura em geral, desde antes da obra de Wells. A noção moderna que possuímos de viagem no tempo nasceu com H. G. Wells, mas o conceito é muito mais antigo, desde os mitos de civilizações ancestrais que poderiam ser classificados como tendo um pé na viagem no tempo em suas interpretações mais fantásticas.

Gleick menciona as tecnologias industriais das máquinas a vapor, as consequências nascidas da possibilidade de viagens a velocidades nunca antes vistas, assim como o estabelecimento do fuso horário no século XIX devido à proliferação das estradas de ferro, como elementos responsáveis por borbulhar o imaginário das pessoas e mexer profundamente com suas noções de tempo. A Máquina do Tempo (The Time Machine) foi publicado em 1895. Em 1905 Einstein publicou um artigo sobre a eletrodinâmica de corpos em movimento, que mais tarde ficaria conhecido como a Teoria Especial da Relatividade. Os anos 20 trouxeram o modo narrativo do fluxo de consciência com obras como Ulysses, de James Joyce e Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf. Era um zeitgeist de especulações temporais e manipulações da nossa percepção da realidade.

A viagem no tempo na literatura da ficção de gênero pode ter tantas explicações esdrúxulas, maquinações estranhas ou ser apenas justificada com magia, sem maiores floreios. Talvez cada pessoa esteja falando de uma coisa diferente quando conversamos sobre viagem no tempo, ou possuímos todo o leque de ideias contraditórias simultâneas na cabeça, existindo em múltiplos universos narrativos. Já dizia o Doctor (que em breve será a Doctor *solta fogos*), que o tempo é um troço wibbly-wobbly timey-wimey. Se você perguntar a um grupo de pessoas como cada um entende o conceito de tempo, as respostas serão as mais diversas, passando por definições sobre a duração de uma vida, intervalos entre eventos, tipos de relógios, ritmos e frequências, velocidades de transporte, revoluções e translações, as mudanças das estações do ano, a meia-vida de elementos radioativos, o tecido cósmico do espaço-tempo, períodos históricos, noções psicológicas, percepções alteradas e alucinações insones.

Uma das sintonias mais divertidas entre a ficção científica e a ciência são que ambos discutem com fervor e seriedade os temas mais longínquos da realidade ou de se tornarem teorias falsificáveis, dos paradoxos da viagem no tempo às trocentas dimensões espaciais extras que a matemática aponta na Teoria das Cordas.

Para o físico e professor Richard Feynman, se ele não fosse capaz de explicar algo num nível em que calouros pudessem entender, isso significava que o fenômeno ainda não era bem compreendido pela comunidade científica [2]. Feynman era conhecido por ser capaz de explicar os temas mais complexos das formas mais simples e intuitivas. Construir essa ponte entre as convoluções da torre acadêmica, seus andares interconectados pela história de instituições e movimentos culturais e o chão de terra batida do conhecimento popular é ferramenta essencial na dissolução da ignorância e na desmistificação da ciência

Nesse vídeo da série Fun to Imagine, de 1983, Feynman explica por que um pedaço de madeira pega fogo a partir da relação entre moléculas de oxigênio e carbono. Ele pausa a explicação bem no ponto em que começaria a falar do funcionamento do sol. Porque faltariam aparatos linguísticos simples o suficiente para explicar o fenômeno aos leigos ou porque a coisa ainda residia no campo da bruxaria, quem sabe? Quando perguntado sobre o comportamento dos ímãs, ele deixou bem claro que não haveria clareza alguma em tentar enveredar por ali também:

Eu não posso fazer um bom trabalho, ou qualquer trabalho, explicando a força magnética em termos de algo que você tenha familiaridade, porque eu não a entendo em termos de algo que você tenha familiaridade.

Desde então nosso entendimento de tópicos nebulosos evoluiu. Sem falar na confirmação do que antes era apenas possibilidade, como as ondas gravitacionais. Mas talvez há temas complicados demais para serem desembrulhados a nível introdutório.

Num quadrinho do XKCD em que uma personagem fala do sol ser governado por forças magnetoidrodinâmicas, a legenda diz: sempre que eu ouço a palavra “magnetoidrodinâmica”, meu cérebro a substitui por “magia”.

Nos dias de hoje, até mesmo a magia do cosmos se mescla ao horror do estranho, desde o comportamento inexplicável da estrela KIC 8462852 (que levantou conspirações sobre uma megaestrutrura alienígena), plantas que comunicam sinais de defesa através de uma rede de parasitas, até os glitches de casas conectadas que parecem ter despertado poltergeists digitais.

Como disse Tobias Revell revisitando a lei de Arthur C. Clarke (que diz que toda tecnologia suficientemente avançada é indistinguível de magia): todo hacking suficientemente avançado é indistinguível de uma assombração e toda renderização suficientemente avançada é indistinguível da realidade.

Criar histórias nos interstícios da ficção científica, da fantasia e do horror é transitar em terreno fértil, instável e carregado de bruxaria.

Se você vai escrever algo como: O céu é uma abóbada de vidro que separa a atmosfera terrestre de um oceano cósmico de éter habitado por demônios de gelo e irídio; primeiro, me manda o livro que eu quero ler; e segundo, você pode focar tanto na fantasia dos demônios estelares quanto na ciência inventada para amarrar a coerência interna de um mundo desses. E cair fundo na magnetoidrodinâmica do éter, nas temperaturas de transição vítrea da abóbada ou nas minúcias químicas sobre troca de gases e pressões nas zonas porosas da fronteira. A ficção científica pode transpassar a fantasia sem que a ciência seja diminuída por isso. O new weird e o sci-fi strange são dois subgêneros que sabem dançar nessa bagunça com maestria.

E nem precisamos ir tão longe.

A radiação eletromagnética é elemento recorrente em histórias que mesclam a fantasia, a ficção científica e o horror. Exemplos recentes de destaque são os pisca-pisca em Stranger Things e as tomadas elétricas em Twin Peaks, que funcionam como membranas de passagem entre realidades inumanas ou mundos opostos ao mesmo tempo em que servem de canais de comunicação. Podemos traçar esse legado até a reanimação da criatura de Victor Frankenstein (ainda que o uso da eletricidade seja um elemento popularizado pelos filmes e não pela obra original) [3].

A dualidade onda-partícula da luz, a imaterialidade da luminosidade ao mesmo tempo em que sentimos o calor de um feixe de luz entrando pela janela, a capacidade de fibras ópticas de transmitir informação a velocidades que nos parecem instantâneas cruzando o fundo de oceanos continente a continente. As propriedades da luz são fantásticas e fantasmagóricas. Enquanto autores de ficção especulativa, fazemos uso de toda sua estranheza científica e todo seu imaginário místico. Hoje falamos em computação quântica, servidores colossais em localizações escondidas, vigilância de câmeras camufladas e coleta de dados perniciosa e na interconectividade assombrada da Internet das Coisas–tudo ainda enraizado na grade elétrica que rege o funcionamento do mundo contemporâneo, ou entraríamos em colapso, de volta a uma nova instância da Idade das Trevas.

Uma máquina do tempo dependeria de eletricidade para funcionar ou seria alimentada por fontes alternativas de energia? Ou o próprio fluxo do tempo, processado e distribuído adulterado por conglomerados corruptos? Queima de combustível temporal até o desmantelamento do universo. Engenharia entrópica. Erosão do continuum. Vai ver algum dia detectaremos a existência de uma viajante do tempo misteriosa através dos rastros que sua máquina deixa no vácuo quântico, como as pegadas de dióxido de carbono mapeiam a ação humana no agravamento do aquecimento global.

 

Notas:

1. Ainda não li o livro, mas esse papo no Talks at Google é bem elucidativo.

2. Li essa anedota no artigo “Feynman’s Lost Lecture – The Motion of Planets Around the Sun“, de David L. Goodstein e Judith R. Goodstein, publicado na Engineering & Science/No. 3, de 1996. Tradução livre do original em inglês: Feynman era um professor excelente. Ele se orgulhava de ser capaz de inventar maneiras de explicar aos calouros até mesmo as ideias mais profundas. Uma vez eu perguntei: “Dick, me explica isso para que eu entenda, por que partículas de meio spin obedecem às estatísticas de Fermi-Dirac?” Julgando seu público corretamente, Feynman disse: “Vou preparar uma aula introdutória sobre isso.” Mas ele voltou alguns dias depois e disse: “Não consegui. Não pude reduzir ao nível [de entendimento] de um calouro. Isso significa que não entendemos realmente o assunto.”

3. É curioso que a imagem que temos na cabeça de elementos/personagens de historias clássicas costumam ser a imagem popularizada por filmes e não o elemento como foi descrito na obra original. A máquina do tempo de H. G. Wells que todo mundo visualiza provavelmente é aquela da adaptação cinematográfica de 1960, o trenó com uma cadeira vermelha cheio de luzes coloridas e um disco enorme na parte traseira. A máquina do tempo do livro era mais um tipo de bicicleta ou triciclo. H. G. Wells era fascinado por bicicletas, que foram inventadas em 1817 e passaram por várias mudanças de engenharia nas décadas seguintes. Outra imagem que grudou na cabeça das pessoas é a da Bruxa Má do Oeste, do Mágico de Oz, ser uma bruxa verde. Ela é verde apenas na adaptação cinematográfica de 1939, não no livro original de L. F. Baum. E, dali em diante, ela seria verde em tudo quanto é adaptação nova.

 

+++

Curtiu o texto? Deixa uma gorjeta!

Visita ao Terminal de Links

Arte de Soey Milk.

O pessoal que colabora com R$ 5 ou mais por mês no APOIA.se do Alliahverso tem acesso à Estação Transdimensional do Avesso do Infinito, nosso grupo fechado lá no Facebook. Uma das coisas que posto no grupo é uma seleção quase-semanal de links intitulada Terminal de Links. Já postei mais de 100 links desde o começo do grupo, então resolvi reunir alguns aqui como amostra. Cada post também é ilustrado pela arte de um artista diferente e sempre com o link para os portfolios. Essa arte da Soey Milk aí em cima, por exemplo, eu escolhi para ilustrar o Terminal de Links #01 em 26 de março.

+++

Bem-vindo/a ao mostruário do Terminal! Cuidado com o espaço entre os degraus somatolográficos. Pode sentar nas nuvens e se conectar sem fios e sem medo que nossa ciberlinfa é criptografada.

Terminal de Links

// Descobri o site/zine Heterotopias pelo Twitter através de uma chamada para submissão de pitches. O foco da revista são textos sobre arquitetura e espaço em jogos eletrônicos e o contexto cultural desses jogos. Como leitor ávido do BLDGBLOG, blog do Geoff Manaugh sobre tecnologias, ecossistemas e futurismos relacionados à arquitetura e paisagens/cenários, imagino que o conteúdo da Heterotopias atinge uma série de intersecções do meu interesse. Ainda não comprei uma edição da revista para conferir (o material do zine é longo e mais experimental do que os posts curtos do site). De qualquer maneira, fica aqui a recomendação. Só os textos do site já são ótimos.

// The Ship Breakers, ensaio fotográfico de navios de carga velhos sendo desmontados e despedaçados.

// Série de tuítes do Guillermo del Toro sobre a criação de monstros.

// Science fiction horror wriggles into reality with discovery of giant sulfur-powered shipworm, matéria do Phys.org.
Eu adoro que essas chamadas do Phys.org já valem a máteria inteira. Se quebrar uns trechos, dá pra compartimentalizar a loucura em contos:
> HORROR WRIGGELS INTO REALITY
> GIANT SULFUR-POWERED SHIPWORM
Não é à toa que o Warren Ellis comentou numa palestra sobre essas headlines serem a prova concreta da realidade científica ter superado o estranho da ficção.

// Show da Andra Day no NPR Music Tiny Desk (13:18 min).
Depois de assistir o show de Tank and the Bangas que a Tassi recomendou aqui no grupo, eu caí no buraco negro de assistir outros shows do Tiny Desk–a lista tem mais de 400 vídeos–e tô recomendando esse da Andra Day porque meu encanto com ela é recente (desde o ano passado). Daí fui ver o canal dela também e me deparei com esse mashup delicioso de He Can Only Hold Her vs. Doo-Wop (Amy Winehouse & Lauryn Hill) que foi postado em 2012.

// ‘Carandiru’ a ‘Prisioneiras’, entrevista com Drauzio Varella no canal do Nexo Jornal (25:06 min).

// PBDB Navigator, site interativo bem legal onde você pode explorar um banco de dados de paleobiologia e ver, por exemplo, quais fósseis foram descobertos em quais localizações geográficas.

// Para entender um pouco mais sobre o clima, nossas ansiedades ecológicas vivendo no antropoceno e o aquecimento global em cinco artigos:
1. The Uninhabitable Earth, artigo longo de David Wallace-Wells na New York Mag que é mais especulação dos horrores do que ciência exata, mas que vale a pena ler por inteiro.
A resposta Do not believe New York Mag’s climate change doomsday scenario, por Andrew Freedman e cientistas que refutaram os erros e exageros do texto.
E este pequeno artigo Stop scaring people about climate change. It doesn’t work., de Eric Holthaus.
2. Short Answers to Hard Questions About Climate Change, artigo de Justin Gillis em formato de perguntas & respostas publicado no The New York Times.
3. ‘A reckoning for our species’: the philosopher prophet of the Anthropocene, artigo longo de Alex Blasdel no The Guardian sobre o Timothy Morton, um dos meus filósofos contemporâneos favoritos (lá no mesmo patamar que considero o Eugene Thacker).

// Clipe da música Stars, de Connie Constance (3:12 min).
Descobri essa cantora recentemente quando pesquisava músicas para montar a playlist de um dos contos que estou escrevendo.

// Canal do artista de xilogravura japonesa David Bull, com vários vídeos que mostram como ele cria as gravuras, do começo ao fim.
As partes dele fazendo os entalhes na madeira são minhas favoritas. Trabalhar com madeira é daqueles ofícios que ainda quero aprender em algum futuro–e tocar bateria, também sempre quis aprender a tocar bateria.

Bônus: remember when abercrombie and fitch hired slavoj zizek to write copy for their back to school catalog.

+++

Considere virar apoiador/a do Alliahverso e me ajudar a continuar criando mundos estranhos e alucinações coletivas.

+++

Tá curtindo o blog? Deixa uma gorjeta!

Esse bicho que é a rotina de escrita

Stephen King em seu cantinho da escrita.

O episódio #019: Rotinas de Escrita, do podcast Curta Ficção trouxe um papo bem legal entre Thiago Lee, Jana Bianchi, Rodrigo Assis Mesquita e o autor convidado André Timm.

Muito do que eles falam sobre o mito da inspiração e a necessidade de uma rotina de escrita dialoga com o que escrevi no post A inquietação diferencial da escrita. Então, se você curtiu o post, pode separar 30 min para ouvir esse episódio que será bem proveitoso e divertido.

Para muita gente a rotina é algo detestável que deve ser evitado. Ou uma criatura críptica que só foi avistada em fotografias borradas em preto-e-branco e pertence ao salão da fama do Abominável Homem das Neves e do Chupacabra. Mas ela não é esse bicho de sete cabeças todo. Uma rotina bem estruturada é o alicerce da criatividade. Eu sinto com muita força a falta que ela faz nos meus dias ruins. E o sopro de vida que ela traz quando retorna.

Ainda não consegui firmar uma rotina de fato. Daquelas que você pode dizer que faz as coisas assim e assado há mais de três anos ou período do tipo. Quando penso que engatei numa, o universo enfia uma chave de fenda entre os dentes da engrenagem e descaralha a harmonia toda. Mas quando estou em sincronia, faço escolhas bem conscientes e disciplinadas que caberiam numa rotina. A principal delas é: dormir cedo e acordar cedo. E quando eu falo cedo, é cedo mesmo. Dormir entre 8 e 9 da noite e acordar entre 4 e 4:30 da manhã. Eu sou outra pessoa quando sigo esses horários: me sinto revigorado, bem disposto e minha cabeça funciona com uma clareza e uma agilidade sem igual.

Minha parte favorita de qualquer dia é aquele trecho da manhã antes do sol nascer, que é pra gente se erguer e se iluminar juntos.

Moro com meus pais e tios numa casa bastante barulhenta, agitada, estressada e com um entra e sai constante de gente, entre parentes, vizinhos e clientes dos meus tios. Volta e meia alguém me chama para resolver alguma coisa. Não tenho como fugir de interrupções e a privacidade é zero. Ao longo dos anos aprendi a escrever em meio ao caos. Mas meus momentos solitários e silenciosos de manhã bem cedo ainda são as horas mais preciosas que possuo.

Tenho a vantagem de trabalhar em casa, então posso estruturar meu dia da maneira que quiser, o que também significa que a responsabilidade é toda minha quando sou abocanhado pela besta-fera da procrastinação.

Manter o foco às vezes parece um desafio intransponível. Fico irrequieto de fazer uma coisa de cada vez, embora tenha plena consciência de que fazer uma coisa de cada vez é a única maneira frutuosa de fazer as coisas. Multitasking é a maior bobagem da vertigem contemporânea. Fragmentar a atenção desgasta seu depósito de energia, dissipa ela todinha na fumaça que sai pelas orelhas quando você se estressa porque tá perdido na confusão que você mesmo conjurou.

E ainda assim escrevo pulando entre notas no Evernote (para textos de blogs e newsletters) e abas do Google Docs (para textos de ficção). Acaba funcionando para mim através de alguma mecânica alquímica que foge à minha compreensão.

Rascunhar, desenhar, pintar, inventar em papel também flui com muito mais prazer de manhã cedo. Nos meus melhores dias consigo fazer tudo entre as 4 ou 4:30 da manhã e meio-dia: desenhar e escrever em alternância ou emaranhamento. As tardes são boas para ler. Os fins de tarde combinam melhor com seriados e filmes. Se eu morasse num lugar bacana, tentaria encaixar caminhadas e banhos de rio. Ou sairia com o sketchbook debaixo do braço para algum café e passaria horas no grafite, no nanquim, no conté, na aquarela. Ou levaria um notebook para mergulhar na escrita do livro nos lugares mais diversos e variar um pouco das paredes lilás-azuladas do meu quarto. Eu viveria um romance com meus próprios hábitos.

Acho que a única rotina que sigo religiosamente é sonhar com a rotina ideal.

 

+++

Curtiu o texto? Deixa uma gorjeta!

Garotas mortas por todos os lados

Gillian Anderson como Stella Gibson no seriado The Fall.

Às 2:25 de uma madrugada tranquila de sexta-feira, numa rua deserta no interior do sudeste da Pensilvânia, a primeira garota morta saiu de sua geladeira.

Assim começa o conto eyes I dare not meet in dreams, de Sunny Moraine, publicado em junho desse ano no Tor.

A história narra o fenômeno de dezenas, centenas, milhares de garotas mortas saindo de suas geladeiras. Dizem que as geladeiras caíram aqui através de alguma fenda no tecido da realidade. No meio da rua, na beira da calçada, na porta de casa, no corredor de um avião em pleno voo. Garotas mortas por todos os lados. Deixando todo mundo atordoado e desconfortável e sem saber o que fazer porque elas só encaram e ocupam espaço e insistem em existir com seus corpos ensanguentados e putrefatos–exigindo em silêncio que sejam notadas, vistas, reconhecidas. Na morte, ainda que tarde.

Dos 27 comentários na página do conto, logo o primeiro é alguém questionando por que apenas garotas mortas? Por que não garotos? Afinal, eles também são assassinados. E de todos os exemplos que a pessoa poderia dar, ela tira do vórtex da aleatoriedade as vítimas do serial killer Jeffrey Dahmer. Parece mais um comentário arquitetado para descarrilar a seção de comentários para a troca de ofensas do que uma dúvida genuína. Not today, pomo da discórdia, not today. Alguns respondem com calma, explicando que o conto claramente se refere ao tropo das Mulheres na Geladeira (Women in Refrigerators). E, por isso, o foco é em garotas. Como se houvesse a necessidade de um motivo para focar o conto em garotas além da vontade de quem escreveu de focar o conto em garotas.

A história de Sunny foi originalmente escrita para o blog Cyborgology (que sigo no Feedly há tempos e recomendo muito para quem curte ler sobre os impactos sociais de tecnologias). Em suas palavras, o texto era mais um rant do que um conto, nascido do acúmulo de raiva sobre a overdose do tropo das Mulheres na Geladeira em tantas mídias na cultura pop.

Às vezes eu não consigo mensurar até onde estou dessensibilizado para o uso gráfico, desproporcional, desnecessário e sem contrapontos da violência misógina naquilo que leio ou assisto. E naquilo que escrevo. Já escrevi minha parcela de garotas mortas, estupradas, mutiladas, descartadas. Sem realizar o exame necessário na construção dessas narrativas, sem questionar toda cultura de desvalorização e culpabilização internalizadas desde a infância, desde os primeiros assédios, desde que aprendemos que as coisas são assim mesmo e cai em nossas mãos a responsabilidade de criar estratégias de evasão e sobrevivência.

Nunca fui de ler romances policiais. Minha única memória de Agatha Christie foi quandoi li E no final a morte (Death Comes as the End no original em inglês) na adolescência. Lembro de ter escolhido esse livro na biblioteca da escola só porque ele se passava no Egito Antigo. Mas tenho assistido seriados policiais demais. Estou cercado de garotas mortas. E digo garotas em vez de mulheres porque tantas são tão novas em idade. Ou seus cadáveres são dispostos de forma a parecer que uma ingênua estátua disfarçada de gente foi violada, despida, coberta de sangue ou dilacerada da garganta ao umbigo. Inocência maquiada a mãos masculinas, distorcida sob uma visão misógina que não condiz com a realidade de um corpo de mulher autônomo, dono de si, resiliente mesmo quando vulnerável.

Não resisto ao modelo do detetive obcecado com um caso difícil, aparentemente insolúvel, espalhando pistas e referências pelas paredes, rabiscando fotografias e traçando conexões com linhas de costura num mural da piração. Costurando teorias mirabolantes, hipercafeinado até vibrar para uma dimensão paralela. Talvez eu me reconheça um pouco na obsessão. Escorrego no óleo dos trilhos várias vezes ao longo do caminho quando estou absorvido na criação de alguma história que dá nó nos meus miolos. Daí fui à caça de seriados policiais. E me vi cercado de garotas mortas.

Estou farto de tantas garotas mortas.

Também não consigo ficar saciado de tantas garotas mortas.

Os seriados que mais me sacudiram foram aqueles com protagonistas detetives mulheres lidando com os crimes mais brutais contra outras mulheres e, em algum momento da investigação, lidando com tentativas de agressão e assassinato contra elas mesmas. Isso sem falar nos dramas familiares com doses cavalares de relações se despedaçando e solidão e no escrutínio que os olhares masculinos lançam às vidas sexuais das detetives. Destaco The Fall, com Gillian Anderson no papel de Stella Gibson e The Killing, com Mireille Enos no papel de Sarah Linden. Se você quiser ficar destruído que nem eu fiquei, esses dois seriados são o que há de melhor. E estão cheios de garotas mortas. Elas me encaram incessantes. Acho que passei a encarar de volta numa tentativa inconsciente de me comunicar.

 

+++

Curtiu o texto? Deixa uma gorjeta!